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Celso Álvarez Cáccamo: "Vendem-nos a impotência para mudar o mundo como se fosse o estado natural"

Montse DopicoMontse Dopico | @montsedopico


A vida, o amor e a morte são os três alicerces do poemário Os passos da procura (Através), uma viagem pelos envolvimentos do facto de existir num mundo em que a degradação do sistema político e social leva à destruição, e não apenas simbólica, das pessoas, crescentemente privadas do sentido do comum, do coletivo ou da utopia. Mas estamos ainda, diz o seu autor, Celso Álvarez Cáccamo, a tempo de reverter a situação. Havia 20 anos que não publicava nada de criação. E não foi, segundo diz nesta entrevista, só por vontade sua, mas também pela discriminação de um mercado editorial que exclui as normativas lusistas.

O livro recolhe poemas entre 1997 e 2017. As diferentes partes formam unidades que podem considerar-se de forma independente, quase como se fosse uma escolma não de poemas, mas de partes de diferentes poemários...

A maior parte do conteúdo do livro é inédita... Alguns poemas foram publicados na revista Agália mas o resto, salvo um ou dois, são inéditos. Não sou um autor muito prolífico: não tinha publicado nenhum outro poemário desde Os distantes, de 1995, pelo qual também não é uma escolma de livros já publicados. Os poemas que estão na primeira parte são os que dão origem ao livro.

Depois fui unindo outros com o critério do seu tom poético. Os poemas sofreram, claro, revisões. Mas o problema para mim é encontrar o tom poético e não tanto a temática, que se encontra em todas as partes do livro. Por isso, o critério foi mais formal, dessa primeira parte até a última, que são poemas mais soltos, e que tenta ser um pouco diferente: está relacionada com a zanga, a resistência...

Por que se chama Os passos da procura?

Pois também não quero dizer demasiado porque o que eu diga pode condicionar a leitura. Quase preferiria que quem por acaso esteja interessado lesse o livro antes do que a entrevista. O que posso dizer é que há uma trajetória, que é vital, cronológica e anímica. O título tem mais relação com a primeira parte.

"Há uma trajetória, que é vital, cronológica e anímica"

Essa primeira parte fala da volta à casa: a casa familiar, o pai, a mãe, a irmã... Nesse sentido, tem conexão com Os distantes -o pai, a casa- e suponho que com o livro coletivo Poemas ao pai. Qual é a relação com esses anteriores livros?

Há conexão da primeira parte com esses livros anteriores, sim. Os distantes tinha a ver com a morte de minha irmã e de meu pai, às quais depois sucedeu a morte de minha mãe. Assim, os poemas estão relacionados com a morte de seres próximos, com a agonia da perda, que não desaparece nunca.

“Os poemas estão relacionados com a morte de seres próximos, com a agonia da perda, que não desaparece nunca”

Essa é a matéria poética com que trabalhei, através da qual tentei encontrar o tom poético. Perante essa perda, o que posso fazer é escrever, e esses primeiros poemas levaram-me depois ao que é o assombro perante a existência, o amor, a morte, a raiva, a pena que te acompanha toda a vida após a morte de seres queridos. Meu pai morreu em 1985 e Os distantes é de 1995, assim que olha quanto tempo decorreu.

Dizias que não és um autor muito prolífico. Não tens necessidade de publicar?

Este livro recolhe uns 60 poemas de uns 20 anos. Assim que, se fiz três poemas por ano que se podem ler, menos dá uma pedra. Poderiam ter sido mais livros. Há gente que prefere publicar livros mais pequenos, de um só tema, com pouco corpo. É outra maneira de fazê-lo, mas eu preferi fazer assim. E depois também estão as circunstâncias, como os avatares das editoras. Sim, o livro esteve muito tempo numa gaveta por decisão própria, ou estive a refazê-lo (teve até dezoito versões). Mas tanta demora não foi só pela minha vontade.

“O livro esteve muito tempo numa gaveta. Mas tanta demora não foi só pela minha vontade”

Comentavas também que foi um critério antes formal o que te levou a fazer a distribuição dos poemas pelas diferentes partes do livro?

Não só formal pelo tipo de poemas, pela forma no sentido da estrofe e isso, mas pelo tom poético, o que vai debaixo do formal. A posição que eu adoto frente ao poema: a distância, a intimidade...

A memória está muito presente em todo o livro. Que é a memória neste poemário?

A memória é o procedimento para restaurar a verdade do que aconteceu. A História, porém, é a maneira de distorcer a verdade. As memórias pessoais restauram os factos como foram, as Histórias o que fazem é criar um discurso que é sempre ideológico e interessado. Duas pessoas que viveram o mesmo acontecimento podem ter memórias diferentes dele, mas isso é a verdade do que aconteceu para elas. Nesse sentido está a memória neste livro. O eu poético é produto do que aconteceu e acontece, de uma vida, de uma família, de umas pessoas que o fizeram existir, e sofrer, a desfrutar... Porque o livro também fala de amor, de temas universais como a vida, o amor e a morte.

“A memória é o procedimento para restaurar a verdade do que aconteceu. A História é a maneira de distorcer a verdade”

Não há dúvida de que o livro fala da vida e da morte. Há um sentido não sei se de fragilidade da vida, ou de consciência da casualidade, de que estamos aqui por acaso.

Sim que há esse sentido do acaso da vida. Porque somos uma azarada configuração da matéria, que coincidimos com outras configurações da matéria que são as demais pessoas, e com outro tipo de configurações da matéria que são as coisas. Mas acho que há uma distância inerente entre os diferentes tipos de configuração da matéria, isto é, entre as pessoas por uma parte e as coisas por outra.

"As coisas são, estão, e as subjetividades, os sujeitos, as pessoas, interpretam-nas"

No livro Os distantes já estava isso: não apenas a distância com as pessoas que morreram, mas a distância entre as pessoas e as coisas. E penso que é uma distância imanente, porque as coisas são, estão, e as subjetividades, os sujeitos, as pessoas, interpretam-nas. E disso surge a frustração de não poder experimentar as coisas, de poder vê-las mas não experimentá-las, porque só podemos pensá-las.

A terceira parte fala da verdade. Diz que há verdade nas coisas do dia-a-dia, no corpo nu diante do espelho, na morte... Há uma relação entre essa terceira parte e a final, que é como um chamado a ver a realidade e tentar mudar o estado de coisas...

Pode haver uma relação entre a terceira parte e a final, sim, sobretudo o poema final. Os poemas da terceira parte, que foram publicados na Agália, têm a ver, sim, com a verdade do diário, o imediato, o que é em si próprio. As coisas elementares, básicas, que podem parecer triviais mas que não o são, que são essenciais. Penso na madeira, no pão, na água, e nas palavras que as dizem, que também tentei nessa parte do livro que fossem as essenciais. Chegado a um momento da vida, percebes a importância das coisas essenciais que te rodeiam, e isso dá-te também serenidade.

“As pessoas temos que voltar às coisas essenciais, ao que está na nossa essência humana e social”

Eu documento, assumo, admito essa realidade, num tom que tem algo de Pessoa. Constato essa realidade de modo deliberado. Sei que poderia soar ingénuo ou trivial, mas é que o imediato não é trivial. Porque penso ademais que as pessoas temos que voltar às coisas essenciais, ao que está na nossa essência humana e social. Porque há coisas que não podemos perder: valores, sentidos comunais. O poema final, com o qual tu relacionas a terceira parte, está assinado por Avelino Abilheira, uma pessoa muito antiga que tem outras coisas escritas por aí. Esse poema, "Reunamo-nos", foi um experimento em Twitter, textos de até 180 carateres, estrofes curtas, repetitivas, com leixa-prem, como na poesia medieval, ou ao modo de haicus.

Há um símbolo que se repete bastante, que é o dos cadáveres. Por quê? Algum poema parece fazer menção ao fascismo...

Sim que há algum poema que fala explicitamente do fascismo, como um sobre Tui em 1936. Mas depois há menções ou referências ao fascismo quotidiano dos regimes supostamente democráticos, das democracias do capitalismo. Vendem-nos a impotência para mudar o mundo como se fosse o estado natural. Os cadáveres são as pessoas mortas, claro, mas também a expressão da degradação do sistema político e social.

“Temos imaginação para conceber utopias e temos que tentar realizá-las. E o fascismo é a negação das utopias”

Matar o corpo é a máxima expressão dessa degradação, mas também há muitas pessoas mortas em vida. É a degradação da natureza humana -e eu sim acredito que há uma natureza humana, uma essência humana, simplesmente fruto do desenho da mente pela evolução da espécie-. Temos imaginação para conceber utopias e temos que tentar realizá-las. E o fascismo é a negação das utopias. Por isso, além das pessoas mortas, há cadáveres em vida, fruto da precariedade, que não é só material.

O livro fala da vida e da morte como o seu correlato, mas também o poemário está marcado, não apenas como temática, pela pulsão da vida e da morte. O tom pode ser escuro, mas há esperança. O amor, por exemplo. Um dos poemas diz que, apesar de tudo, a vida está completa. Porque amamos.

Pode ser, sim. Suponho que porque pensas que a tua vida, depois de todo, está bem. Estou ciente de ser um privilegiado, neste estado de coisas: sou professor universitário, tenho uma casa, tenho amor, não estou muito doente por enquanto... (Ri). Também porque com o tempo aprendes a relativizar coisas que no passado te fizeram sofrer. A metade da vida já foi, o filme está perto do final e aceitar as coisas dá serenidade.

“A metade da vida já foi, o filme está perto do final e aceitar as coisas dá serenidade”

O poemário fala, sim, da vida e da morte, e da morte que vive dentro da vida, de modo inevitável. O amor seria o terceiro elemento do triângulo, numa dupla relação entre, por uma parte, a morte e a vida, incompreensíveis mas que se explicam mutuamente, porque se contêm uma à outra, e por outra o amor, que não conseguimos explicar nem, sobretudo, devemos tentar explicar.

Um dos poemas da última parte é "Não me consta". Fazem-nos pensar que tudo está bem, que é melhor não falar, não perguntar, perceber quem manda...

Aí a voz poética não é a minha, claro. Depois de dizer tudo isso, diz que vai ativar o gás da câmara e lavar as mãos. Suponho que houve algum facto político que motivou a escrita. Alguém que dizia “Não me consta”.

Se calhar Rajoy quando dizia que não sabia nada do financiamento ilegal do PP.

Pode ser. O tom é um pouco como uma prece, ou um hino. Seria um pouco como as orações dos protestantes, a missa cantada. A repetição convoca a voz coletiva, a participação. A repetição formal é fácil. O problema aqui era conseguir manter a intensidade a partir dessa estrutura repetida, conseguir que medrasse a tensão.

"Bom, um poema é sempre um artifício"

Depois, o poema fala de muitas violências: a violência económica, a violência de género, as pessoas que se suicidam pelas hipotecas, a opressão diária, o Deus apropriado pelas religiões, o totalitarismo... É um poema de que estou bastante satisfeito. Quando volto a lê-lo, volto a escrevê-lo, isto é, a senti-lo como no momento da escrita. Com outros pode não me ocorrer tanto: ao voltar a ler já não entro neles da mesma maneira, ou só em ocasiões. Bom, um poema é sempre um artifício, mas neste não me custa voltar a entrar.

Passaram 20 anos. Por isso haverá poemas em que já não te reconheças tanto.

Pois não penses... Não sei se é que não madurei nada ou que o que nos constitui como pessoas também não mudou tanto nos últimos anos. O que dizes poderia passar-me com poemas de quando tinha 20 anos, mas desde 1997 também não mudei tanto. Não vejo tanto essa distância.

O poemário está situado em vários espaços. Um deles é a casa, que pode levar ao rural. Na quarta parte há como uma viagem pela cidade que implica ruína. Como se o rural, ou a casa, fosse o espaço de refúgio. E a cidade, porém, o barulho.

Na realidade, a casa são duas casas. Quando éramos pequenos, morávamos em Vigo, num apartamento, e no verão sim estávamos na aldeia, em Corujo, numa casa rural, de pedra, marinheira. Não sou do rural, mas sim tenho essa experiência do rural. Depois, a casa é também a minha própria casa, num novo ciclo. Já não é a casa dos pais, mas continua a ser a única casa, o lugar em que estás cómodo, em que és tu mesmo, a tua cova, o teu refúgio, onde te sentes protegido. Que é outra das necessidades da espécie humana.

“A ideia de ruína está em todas as partes. E a ruína pode ser a ruína da casa e a ruína do corpo”

A ideia de ruína está em todas as partes. E a ruína pode ser a ruína da casa e a ruína do corpo. A dialética entre a vida e a morte, levada -tens razão no paralelismo- à dialética entre a casa viva e a casa em ruína. E pode ser a ruína da cidade destruída pelas bombas, pelo inimigo, e que há que deixar, ou a ruína de uma casa que ainda se pode restaurar. A casa como o coletivo, o comum, no sentido genuíno. E a ruína desta casa que ainda se pode reconstruir, mesmo que fique cada vez menos tempo. Por isso, o último poema é como uma convocação urgente a isto.

Tens outro tipo de publicações, como as científicas, ou o que vais pendurando no teu blogue. Além disso, fizeste há tempo uma tese sobre a institucionalização do galego. A que conclusões chegaste?

Há tempo, sim, mas continuei a escrever sobre esse tema. Na altura -escrevi a tese entre 1985 e 1990-, começava o processo do que chamei de institucionalização do galego, quando estava a começar a ser utilizado como um elemento de poder. A penetração do galego nos âmbitos institucionais como um modo de dominação de uma classe social, que implica uma ressignificação do galego, uma apropriação do galego por umas elites que buscam configurar e exercer poder.

"A penetração do galego nos âmbitos institucionais como um modo de dominação de uma classe social implica uma ressignificação do galego, uma apropriação do galego por umas elites que buscam configurar e exercer poder"

Tens um artigo na Agália crítico com o conceito de “normalización” que tem relação com isso. Falas da mercantilização da língua, num mercado dominado pelo castelhano...

“Normalización” já é uma palavra ambígua: reparemos que é igual em galego da RAG e em espanhol. Portanto, o que é que se quer e se queria "normalizar"? Evidentemente, também o uso comum do espanhol na Galiza. Mas o que ponho de relevo nesse texto é como se procura criar uma relação hierárquica, apanhando certas formas e usos do galego, e subordinando-o ao castelhano. Não houve um projeto de base, das pessoas, mas um projeto de classe, um projeto dirigido por umas elites.

"Não houve um projeto de base, das pessoas, mas um projeto de classe, um projeto dirigido por umas elites"

E não o digo só pela questão normativa, mas porque se promoveu uma pseudo-mercantilização da língua, de modo que se criaram estruturas que só funcionaram enquanto houve subsídios. Depois chegaram os “cortes”, o capital decidiu que já não ia destinar muito excedente a isso, que já não iam subsidiar coisas "inúteis", e foi quando começaram a fechar jornais, por exemplo. Agora o jogo ficou mais ao descoberto. E por isso também a situação está mais relaxada. Antes não podias nem dizer que eras reintegracionista, que se lançavam contra ti.

“Antes não podias nem dizer que eras reintegracionista, que se lançavam contra ti”

Não acho que seja uma questão só normativa. O que se escrevia nos jornais em galego -e mais de cultura- era também, antes, um pouco o “tanto faz”. Que, enfim, para quatro que o liam. Quero dizer, que o galego era percebido como menos ameaça do que às vezes achamos...

Já, mas o que aconteceu -e ainda acontece- com o reintegracionismo não foi trivial. Aqui houve gente que não pôde encontrar trabalho porque era reintegracionista. Fez-se o possível por estigmatizar o que se chamava de lusista. O poder dava e distribuía fome, e as pessoas acreditaram nisso. Na década de 60, a Galaxia não tinha problema em publicar, por exemplo, as Cantigas d'escarnho e de mal dizer de Lapa. Depois, isso tornou-se impossível. O meu próprio livro esteve numa editora a aguardar, metido numa gaveta, vários anos sem que ninguém me desse razão.

“Aqui houve gente que não pôde encontrar trabalho porque era reintegracionista. Fez-se o possível por estigmatizar o que se chamava de lusista”

Nem publicam o livro nem dizem nada, mas, afinal, ainda que não o dizem claramente, sabes que não vão publicar porque não vão receber subsídios para um livro em reintegrado. Por isso digo que o que se passou não foi trivial. Publicaram-se livros patéticos que estavam em galego da RAG, e não se publicaram nem ganharam prémios livros talvez melhores só porque estavam em reintegrado. E isso fez dano à cultura galega. Algum dia haverá que falar de tudo o que se passou.

Revisão linguística: Mário Herrero

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