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Carlos Calvo: “O endurecimento do código penal, alimentado em casos de crimes mui mediáticos, quem o vai pagar é a disidência política”

Montse DopicoMontse Dopico | @montsedopico


"Este livro ajuda, assiste, colabora. Talvez haja quem pense que todos os livros ajudam. Mas o de Carlos Calvo tem a raiz na generosidade de quem participa ativamente com as suas palavras neste projeto que queremos transformar e chamamos Galiza, Mundo, Vida". Com palavras coma estas, o escritor Séchu Sende apresenta Diários (Através), o último livro do jornalista Carlos Calvo. Conseguimos, tras muito tempo de demora, falar com o seu autor, preso desde o ano 2012. 

Antes de mais, como estás de ânimos, depois de tanto tempo? Como mudou o teu dia a dia ao sair do isolamento?

Sacáron-me a um módulo ordinário justo ao fazer quatro anos isolado, que é bastante tempo. Realmente foi aí quando me dei conta de até que ponto o isolamento é o “cárcere do cárcere”, pois a vida dessa pequeníssima percemtagem da populaçom reclusa que está isolada é mui diferente do resto.

“Em alguns aspectos, a política penitenciária que nos aplicam aos presos independentistas galegos é mais dura que a que sofrem os bascos”

Aproveito para explicar algo que pouca gente sabe, que é que, em alguns aspectos, a política penitenciária que nos aplicam aos presos independentistas galegos é mais dura que a que sofrem os bascos, polo menos no sentido de que eles -pola sua força de pressom-, como mínimo, e salvando contadas exceçons, estám sempre dous juntos por módulo. Desde há algo mais de um ano tenho a sorte de que transladaram para Villabona a Raul Agulheiro e, sem que nos tehnam no mesmo módulo, sim que nos vemos mui amiúde, e isso supujo umha mudança enorme para melhor no dia a dia dos dous.

Um dos primeiros artigos do livro aponta à diferença entre independência e soberania. Que é a soberania real, nas actuais circunstâncias? Como valoras os passos dados pelo nacionalismo para definir-se mais abertamente como “soberanista”?

Está claro que conceito de “soberania” nom era o mesmo a meados do século XX que agora, quando o capitalismo se tornou climático, as crianças mejam tóxicos agroquímicos antes de nascerem, e as nossas vidas inteiras som umha mercadoria em código binário a circularem pola rede… Um poder externo mais grande do que nunca jamais conhecimos, chamado capitalismo, atravessa-nos até no mais íntimo dos nossos desejos, colonizando até o código genético do que somos ou o ar que respiramos.

“As nossas vidas inteiras som umha mercadoria em código binário a circularem pola rede”

Mesmo assim, e contra esses discursos da esquerda estatal que gostam de dizer-nos em tom paternalista às independentistas que um estado -ou confederaçom de municipios livres, cada quem que lhe chame como queira- já nom supom umha soberania real, está claro que menos soberania supom ainda nom dispor dele. Quando menos nom parece que a esquerda espanhola e federal queira renunciar ao seu… O nacionalismo galego nom-independentista também repite isso de que a independência nom garante a soberania real, mas nom explicam como pretendem atingir tal soberania sem passar pola independência.

“Contra esses discursos da esquerda estatal que gostam de dizer-nos em tom paternalista às independentistas que um estado já nom supom umha soberania real, está claro que menos soberania supom ainda nom dispor dele”

Nom lembro bem aquele artigo mas creio que me referia ao uso pouco “conceitual” que na concorrência partidária se fai de termos como “nacionalismo”, “soberanismo” ou “independência”, que em determinados marcos teóricos sim tenhem sentido. A distinçom entre “independentismo” e “soberanismo” tem genealogias múltiplas, atendendo a particularidades do Quebeque, do País Basco, de Catalunha… A apariçom do conceito “soberanismo”, em alguns casos, para um tipo de processo de autodeterminaçom nom homologável ao clássico que é o dos processos de descolonizaçom, senom dentro de democracias occidentais; em outros usou-se etc… No caso galego nom creio que se lhe poda procurar mais substáncia teórica que a manobra retórica e a intençom de distinguirem-se entre eles vários partidos de ideologia praticamente idêntica.

Noutro falas do "debate" sobre a cadeia perpétua, indicando que muitas das condenas que se cumprem em Espanha são mais longas que as "cadeias perpétuas" de outros países, e que a taxa de criminalidade no Estado é das mais baixas da Europa. A que responde este periódico "debate" sobre a cadeia perpétua?

O populismo penal é um recurso político que lhe funciona mui bem á direita espanhola, recorrendo a ele cada vez que as cousas se lhe ponhem difíceis noutros terrenos. Como já nom é politicamente correto o seu clássico “¡al paredón!”, agora excitan as baixas paixons do povo com essa eufemística “prisom permanente revisável”.

“O populismo penal é um recurso político que lhe funciona mui bem á direita espanhola”

Sabem perfeitamente que a reforma do código penal do governo de Aznar já estabeleceu condenas mais duras do que as da Ditadura, com apenas de até 40 anos anos de prisom, que superam amplamente a média das condenas à cadeia perpétua na França (23 anos) ou na Alemanha (20 anos), e também sabem perfeitamente estes ultras da Constituiçom que a cadeia perpétua vai contra o artigo 25 das suas sagradas escrituras. Por outra parte, na sociologia da prisom há um consenso total arredor da constataçom de que o índice de criminalidade nom guarda relaçom com a dureza das condenas, mas sim como o índice de desemprego e pobreza. 

“Sabem perfeitamente que a reforma do código penal do governo de Aznar já estabeleceu condenas mais duras do que as da Ditadura”

Por outra parte, convém nom esquecer que o Estado nom só detenta o monopólio da violência legítima, senom também o da salvaçom, proteçom e defesa. Quero dizer que o Estado nom é só umha maquinaria meramente repressiva, senom que também acapara os beneficios simbólicos de um trabalho, real, de proteçom da sociedade, tirando disto umha enorme legitimidade. É desta maneira que há que compreender os ceremoniais de Estado organizados por volta das tragédias, magnificadas mediaticamente ou nom -umha matança, um grande acidente, etc.-, que pola dor que ocasionam funcionam como enormes condensadores de energia social que o Estado intenta acaparar.

“O Estado nom é só umha maquinaria meramente repressiva, senom que também acapara os beneficios simbólicos de um trabalho, real, de proteçom da sociedade”

O último exemplo desta economia política da dor temo-la com o caso do neno Gabriel, manipulado de maneira preeira pola direita para os seus interesses partidários, e onde a resistência da mai e do pai do neno a entrar nesse jogo é verdadeiramente admirável. Nom sei se se comentou aí fora, mas um personagem sinistro que apareceu em cena neste caso foi Manuel Sánchez Corbi, chefe da UCO da Guarda Civil, que aproveitou a ocasiom de detençom da presunta culpável da morte do neno para branquear a sua imagem. Este admirador de Rodríguez Galindo, torturador condenado e indultado, dirigente da repressom ao independentismo catalám -também agora historiador do conflito básico suspeitoso de plágio-, torna-se assim um herói.

Voltando ao assunto da cadeia perpétua, é curioso como o poder mantém umha estratégia de origens bíblicas: se os romanos cruzificavam um líder independentista palestiniano a carom de um delinquente comum -algo semelhante, por certo, aconteceu quando a execuçom de Puig Antich-, para associá-los simbolicamente, agora recorrem sempre à consabida fórmula de “asesinos en serie, violadores, pederastas e terroristas”. Que ninguém duvide que o endurecimento do código penal, alimentado em casos de crimes atrozes e mui mediáticos, quem o vai pagar realmente é a disidência política.

“Assombrosamente, umha grande socióloga do encerro como é Dolores Juliano, dizia recentemente que “no cárcere, tendo os recursos económicos, pode-se comer o que se quer; pode-se estudar, escrever um libro”

Nom queria deixar de dizer que o populismo penal remata, afinal, filtrando-se aos setores mais insuspeitados, polo que nom estamos livres de autocrítica. Assombrosamente, umha grande socióloga do encerro como é Dolores Juliano, dizia recentemente numha entrevista que “no cárcere, tendo os recursos económicos, pode-se comer o que se quer; pode-se estudar, escrever um libro….” -cousa que a saber que é o que pode ter de mau, mesmo que o livro seja umha autobiografia dum Galindo ou dum Bárcenas-. Juliano referia-se ao distinto que é o encerro para as mulheres e para os homens, e que mesmo no caso de agressores machistas o encerro pode mesmo supor um reforço do seu ideal de masculinidade.

“O populismo penal remata, afinal, filtrando-se aos setores mais insuspeitados, polo que nom estamos livres de autocrítica”

Diz cousas mui interessantes, mas, caramba, repetir esse imaginário idílico e completamente falso do cárcere! Se até umha pessoa crítica rematar por cair no imaginário do populismo penal, é que este é absolutamente hegemónico. Aínda, com a entrada em prisom de personagens famosos também se está a criar umha sorte de jornalismo amarelo sobre a vida intramuros -que se comemos tal, que se temos quais atividades…- que reforça o mito da prisom-hotel. É umha vergonha. Resulta imposível achar nos meios de informaçom -e até incluiria aquí os “críticos”- umha soa notícia, umha soa reportagem, que nom inclua erros de vulto. O debate do populismo penal, em todo caso, explica-o mui bem um amigo meu de Tánger com um conto popular árabe: o do homem que topa com um génio do deserto e, quando este lhe di que se lhe concederá qualquer desejo que lhe pida, aliás, o seu melhor amigo receberá o mesmo e por partida dupla, o homem, entom, pide que lhe tirem um olho da cara.

Em relação com isso, a Lei Mordaza e a reforma do Código Penal vêm aumentar a repressão da disidencia política: movimentos sociais, sobretudo. Que leitura podes fazer das circunstâncias nas que estas leis se aprovam e mantêm?

Até hai pouco o modelo repressivo espanhol na Galiza foi o da excecionalidade seletiva: enquanto no independentismo sobretudo, mas também noutros movementos radicais, suportavamos umha continua perseguiçom -aquilo que dizia Walter Benjamin de que “o estado de exceçom é a tradiçom dos oprimidos”- que manejava um amplo repertório de medidas que iam da perda efetiva do direito à privacidade à prisom, passando por modalidades brandas de guerra suja, no resto de setores desmobilizados vivia-se com relativa normalidade.

"Até hai pouco o modelo repressivo espanhol na Galiza foi o da excecionalidade seletiva"

Com as respostas populares que se forom dando a umha crise que é sistémica, o Estado foi alargando essas prácticas repressivas a setores inéditos, muito mais amplos, mesmo a um povo inteiro como no caso catalám onde nom existe ningum conflito armado como podia ser o basco. Afinal ficou em evidéncia que o que perseguiam nom era a violência, mas o exercício da autodeterminaçom. Para nós, que partilhamos militáncia com gente que padeceu os rigores da tortura em plena “democracia”, nem é nada novo nem nos podemos surpreender cinicamente de que sejam capazes deste autoritarismo -ainda que poda existir umha “perplexidade táctica”, como no caso catalám, que tem as suas potencialidades e também os seus riscos-.

“Com as respostas populares a umha crise que é sistémica, o Estado foi alargando as prácticas repressivas a setores inéditos, muito mais amplos, mesmo a um povo inteiro como o catalám”

Os limites à involuçom dos direitos civís serám os que os movimentos populares sejamos capazes de impor, igual que o foi sempre, com o agravante de que é muito mais difícil recuperar um direito do que perdê-lo. No resto de Europa já estamos a ver como os estados de exceçom com o pretexto do terrorismo jihadí se vam tornando quotidianos e aplicáveis a toda a oposiçom, e aqui vamos polo mesmo caminho. Neste sentido há que ser mui claros quando surgem respostas como a de Podemos en Madrid, que propujo eliminar o deilito de  “enaltecimento do terrorismo” agora que já nom só se aplica a galegas e bascas: a luita por umha reforma progressista do Código Penal é demasiado longa e difícil como para embarcar-nos nela só para voltar à situaçom anterior de “normalidade” em que a excecionalidade só nos atingia a nós e que a brutalidade policial e jurídica nom sobrepassava os limites do campo independentista. Ou vamos a por todas ou que nom contem com nós.

“No resto de Europa já estamos a ver como os estados de exceçom com o pretexto do terrorismo jihadí se vam tornando quotidianos e aplicáveis a toda a oposiçom, e aqui vamos polo mesmo caminho”

No artigo sobre Tantaz Tanta comentas como grupos de esquerdas, presos da velha política, decidem nom participar por nom poder fazê-lo como tais partidos. De que modo essa mesma atitude pôde supor, na Galiza, algum freio a alguns dos movimentos da esquerda "alternativa" nos últimos anos? Mas em geral e, ainda com a limitação de informação que podes ter estando aí, como vês a evolução dos governos dessa "esquerda alternativa" nas câmaras municipais galegas? E a posição do BNG trás as últimas eleições?

No artigo sobre aquela mobilizaçom referia-me a esas situaçoms, um tanto tragicómicas, que se dam quando no transcurso de umha crise de representatividade dos partidos, intentando nim perder pé, fam maniobras que os deixam ainda mais em evidência. O caso esse da IU basca, recusando participar de umha mobilizaçom à que ninguém a convidara, é umha sorte de inversom grotesca e daquela piada de Groucho Marx: “jamais faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”. Esses fenómenos morbosos continuam e havemos ver mais, ainda que a situaçom já se vai estabilizando.

É certo que tenho muitos mais materiais para dar umha opiniom fundada sobre a situaçom política basca ou catalá do que da galega, o qual já nos dá um primeiro dado mui significativo: a carência de um jornal diário galego digno de tal nome -de um espaço simbólico próprio, em soma- que ao meu entender é uma condiçom necessária para que um projeto político alternativo seja capaz de falar-se a si mesmo e elaborar o seu próprio discurso sem depender da chantajem e das portagens simbólicas que lle imponha o contrário. Um movimento sem meios de comunicaçom próprios fica completamente à vontade da imprensa hegemónica, e os intentos de criar umha imagem amável nos meios do inimigo -penso nas experiências do bipartito- costuman rematar como aquele conto dos irmaos Grimm, ‘O gato e o rato fam amizade’, onde por mui de fiar que se mostre o rato sempre rematará fazendo de jantar de gato.

“Um movimento sem meios de comunicaçom próprios fica completamente à vontade da imprensa hegemónica”

Aclarado isto, nom partilho em absoluto a teoria de “quanto pior melhor”, e creio que é mil vezes preferíbel ter de alcaide a Martiño Noriega ou Xulio Ferreiro do que a Conde Roa ou Carlos Negreira, com todas as suas limitaçons e contradiçons -por vezes bochornosas- que os movimentos sociais estám obrigados a denunciar a questionar, nom para “fazer jogo à direita”, como costumam alegar os políticos progressistas pouco afeitos à crítica desde a esquerda, senom para criar as condiçons necessárias para a implemetaçom de políticas mais avançadas, também desde as instituçons.

“Nom partilho em absoluto a teoria de “quanto pior melhor”, e creio que é mil vezes preferíbel ter de alcaide a Martiño Noriega ou Xulio Ferreiro do que a Conde Roa ou Carlos Negreira”

Assim o entende, por exemplo, o MST na sua relaçom com o PT no Brasil, que é un exemplo valioso para os movimentos sociais de um outro tipo em relaçom com o(s) partido(s): votam de maneira “tática” no PT apenas como muro de contençom da estrema direita mas guardam a sua autonomia e sabem que o trabalho está noutra parte. É isso que diz o Raúl Zibechi de que para “quem apostamos na emancipaçom, os desafios centrais e decissivos nom estám arriba senom abaixo. Por isso nom é válido achacar culpas ou erros, menos ainda ‘traiçons’, aos governantes. Como iria alguém da esquerda arredista sentir-se traiçoado por Martiño Noriega? A mim o que me preocupam som os nossos erros e carências, nom os dos políticos progressistas. Outro tanto a propósito dos resultados do BNG: em nimgum caso me pareceria umha boa notícia o seu afundimento, independentemente das críticas que merecem.

"Quanto ao BNG, em nimgum caso me pareceria umha boa notícia o seu afundimento, independentemente das críticas que merecem"

Creio que quem realmente antepom os interesses do povo sinte verdadeira alegria quando se avança um passinho, independentemente de quem o dê. Nesse sentido sim que tenho a impressom de que mui pouca gente tem umha visom global, há muito entre o próprio movimento popular galego disso que dizia Machado a propósito de Castela, que “desprecia cuanto ignora”. Às vezes o nacionalismo galego parece umha competiçom feroz entre supostos companheiros. No entanto, lembro com muito carinho os conselhos de redaçom do Novas da Galiza onde mês a mês faziamos um repasso geral e nos emocionávamos com as pequenas vitórias que se davam ao longo do país: que se em Sam Sadurninho havia uma política municipal admirável, que se em Ferrol houvo umha vitória sindical importante, que se abria um centro socia, novo em Burela, que se nas festas de nom sei onde faziam um aberto de billarda pola primeira vez… Todo somava.

“Lembro com muito carinho os conselhos de redaçom do Novas da Galiza onde mês a mês faziamos um repasso geral e nos emocionávamos com as pequenas vitórias que se davam ao longo do país”

Em cualquer caso, o que sim me parece mui preocupante é a assimilaçom dos movimentos populares galegos -em tantas ocasions vanguardistas em relaçom com os espanhóis- ao campo político estatal, e o lamentável processo polo qual nos vamos tornando um movimento caracterizado por esse fenómeno que Gramsci tildava de “revoluçons pasivas”.

“O que sim me parece mui preocupante é a assimilaçom dos movimentos populares galegos -em tantas ocasions vanguardistas em relaçom com os espanhóis- ao campo político estatal”

Nom lembro umha esquerda galega tam acomplexada e provinciana, tam dependente mentalmente de Madrid, tam amnésica da sua própria história e das sus próprias luitas. Abre um centro social novo na Galiza e as promotoras nom sabem nem que foi a Casa Encantada, dim que a sua referência é a Tabakalera de Madrid; pom-se de moda falar de feminismos indígenas, mas nom sabem nada da luita do Secretariado da Mulher do SLG; a desobediência civil é a nova via, mas nem se imaginam que os seus avôs protagonizaram umha deserçom de massas contra a Quota Empresarial; começa a haver um discurso crítico sobre o turismo por  causa do independentismo catalám, mas quem se lembra de todo o que trabalhou isso o movimento juvenil galego? E assim com tudo… De certo que é um pouco frustrante.

A Semente, comunitária e não estatal, foi criticada por ser “privada”, dizes noutro dos textos. Que potencialidade achas que podem ter projectos autogestionados coma estes no campo da língua e da cultura? Os centros autogestionados são outro exemplo.

Para quem procuram sempre sustento às suas ideais nas sagradas escrituras há que lembrar que Pablo Iglesias escrevia no El socialista que “aguardar que a classe exploradora espanhola por humanidade, por fazer bem, dê instruçom aos obreiros… (...) é a mais grande das ilusions”. Há umha confussom conceitual, seguramente interessada, que identifica o estatal como o público e o comunitário com o privado. Nom há muito um titular de La Voz de Galicia apontava à altíssima percentagem de monte “privado” que há na Galiza -creio que diziam 97%- como causa dos incêndios, contando o comunal como privado…

"Há umha confussom conceitual, seguramente interessada, que identifica o estatal como o público e o comunitário com o privado"

O nacionalismo maioritário teima numha visom excluente da “defesa do público” como pretexto para nom acometer as tarefas urgentes -os deveres de autodeterminaçom- que os movimentos irmaos levam décadas a implementar -justo há uns meses estavam a festejar no País Basco que perto dumha trintena de ikastolas cumprían mais de cinquenta anos em funcionamiento; ali apostaram nas escolas clandestinas de Elvira Zipitria, aqui nas traduçons ao galego de Heidegger-, ainda que as crianças dos seus dirigentes se tormem monolíngues em espanhol na escola por causa da única imersom linguística que existe na Galiza, que é a espanhola, e nom querem sumar-se ao movimento de educaçom popular. Também falam de elitismo, e resulta que a maioria de mais e pais de crianças da Semente som desempregadas… A pouco mais que esmperem já será demasiado tarde. Afirmam que a Semente é privada, mas entom admitirám que estas escolas autogeridas serám tam privadas como pode ser a CIG, a estreleira ou mesmo qualquer organizaçom armada de libertaçom…

“O nacionalismo maioritário teima numha visom excluente da “defesa do público” como pretexto para nom acometer as tarefas urgentes -os deveres de autodeterminaçom- que os movimentos irmaos levam décadas a implementar”

Creio que a ausência de espaços próprios, dumha contra-institucionalidade própria, é, sem dúvida, umha das características distintivas do movimento galego e umha das que mais o veu lastrando nas últimas décadas. A fim de contas os espaços próprios som espaços libertados onde umha comunidade politicamente minoritária -por muito que “étnica” ou culturalmente nom o seja- pode socializar num ambiente de segurança, e polo tanto som fundamentais para criar projetos políticos alternativos, como mui bem observou E.P. Thompson a propósito da formaçom da classe obreira inglesa, Virginia Woolf com a “habitaçom própria” para as mulheres, ou os movimentos LGTB e os seus espaços livres de agressons.

“Creio que a ausência de espaços próprios, dumha contra-institucionalidade própria, é, sem dúvida, umha das características distintivas do movimento galego e umha das que mais o veu lastrando nas últimas décadas”

Esta ausência de espaços próprios e os movimentos sociais que produzem e reproduzem esse ecossistema alternativo acarretou duas consequências funestas para o movimento galego. A primeira, a clandestinizaçom de discurso, sobretudo nas suas expressons mais antissistémicas, e polo tanto a privaçom das ferramentas de debate público precisas para elaborar, justamente, um discurso próprio. Quantos simpatizantes nacionalistas nom foram descifrando a “linha oficial” as suas organizaçons de referência através do que podiam ler em La Voz de Galicia? Em segundo lugar, a fraqueza deste contra-espaço pùblico, e dos movimentos sociais em geral, creio tem bastante a ver com o nível de confrontaçom fratricida que há nos espaços (micro)partidários porque estes som muitas vezes quase o único terreno onde desenvolver algum tipo de atividade política. Quando o único que gere um movimento é a súa própria imagem e o seu próprio discurso, porque carece de materialidade, afinal é normal que haja conflitos enormes por culpa de um vírgula num texto, por “ganhar” um debate numha assembleia local ou polas listas eleitorais.

“Quantos simpatizantes nacionalistas nom foram descifrando a “linha oficial” as suas organizaçons de referência através do que podiam ler em ‘La Voz de Galicia’?”

A discriminação linguística no Estado espanhol é um tema tratado também no livro. Por exemplo, no qual falas de Ceuta e Melilla, da exclusão da língua tarafit e do árabe coloquial. A situação que descreves parece semelhante à do galego na escola franquista. Em que sentido é significativo este caso?

Tivem a sorte de conviver muito em prisom com pessoas tanto da cultura árabe como da amazigh, algumhas delas mui formadas, e coincidindo com um período em que eu tinha muita curiosidade pola influência de Abdelkrim no arredismo -e na cultura popular!- galego da década de 1920, polo uso dos “mouros” como instrumento de terror sexual na Guerra Civil, e polas relaçons culturais da Galiza com o Norte de África em geral, que hoje julgo intensíssimas e apenas subestimadas porque os nossos referentes de dignificaçom sempre foram uns mui outros -os países celtas, nomeadamente-. Ainda, coincidiu que chegara às minhas maos o libro de Joseba Sarrionandia, Somos como mouros na névoa, que contém dúzias de fios dos que podemos tirar para uma investigaçom galega e que ia comentando com os companheiros de encerro. O excelente livro de Dionísio Pereira saiu mais tarde.

“As relaçons culturais da Galiza com o Norte de África foram intensíssimas e apenas subestimadas porque os nossos referentes de dignificaçom sempre foram uns mui outros”

Ceuta e Melilha -assim como os outros enclaves mais pequenos do Estado espanhol no Norte de África- som observatórios privilegiados do caráter colonial do Estado espanhol. Nom em vao foi alí, “matando mouros”, como se conformou o núcleo reitor e a mentalidade do golpe fascista de 1936, e hoje estas cidades africanas permanecem como refúgio dourado do franquismo, um lugar onde a direita espanhola pode passear a cara descoberta. Melilha é quase, poder-se-ia dizer, um museu a céu aberto do franquismo. Ali fica a única estátua a Franco num espaço público; o presidente Juan José Imbroda alega que nom é que o reconheçam como ditador, senom como tenente-coronel da Legiom contra Abdelkrim, isto é, como anti-independentista.

“Ceuta e Melilha -assim como os outros enclaves mais pequenos do Estado espanhol no Norte de África- som observatórios privilegiados do caráter colonial do Estado espanhol”

Também tenhem umha placa comemorativa na casa onde morou Franco e o Museo Militar Histórico de Melilha, dependente de Defesa e instalado em 1977, fala do golpe de Estado franquista em termo de “Guerra de Libertaçom” e “Cruzada de Libertaçom”. Nos orçamentos aprovados no Congresso em 2017, o Estado espanhol destinou uma partida de quase 8 milhons de euros à “Guardia Mora” de Franco, e no pasado mês de setembro o governo da cidade autónoma festejou com completa normalidade o 520ª aniversario da “espanholidade” de Melilha -reivindicada também por Julio Anguita quando era o líder de IU- e da sua conquista, ‘manu militari’, em 1947. Mesmo quando o governo municipal de Iruñea, em cumprimento de un elementar dever de higiene democrática, expulsa o general Mola do seu mausoleu no centro da cidade basca, o cadáver deste é recebido em homenagem em Melilha...

“Nos orçamentos aprovados no Congresso em 2017, o Estado espanhol destinou uma partida de quase 8 milhons de euros à “Guardia Mora” de Franco”

Ceuta e Melilha tenhem umhas taxas de desemprego juvenil escandalosas, as mais altas da Uniom Europeia, e nem sequer tenhem garantido o direito à educaçom nas suas linguas maternas, nem as pessoas arabófonas nem as berebéfonas, e disto jamais se fala nos demais movimentos polos direitos linguísticos. Mais em geral, como a prisom é um magnífico barómetro político, aqui dentro os militantes de esquerdas há muitos anos que tomamos consciência do repto que já está a ser para a esquerda europeia o fracasso da Primavera Árabe e o retorno dessa tríada de terror formada polos ditadores, os imperialistas e os integristas.

“A esquerda ficou sem um discurso universal e deixou mais soas do que nunca às revolucionárias da Primavera Árabe, do Curdistám e de toda a regiom”

A perspectiva é desoladora, tam desoladora como foi ver o abraço de Alexis Tsipras ao general Al Sissi, campeom mundial da repressom mais brutal, que evidencia de maneira cruel que a esquerda ficou sem um discurso universal, e que deixou mais soas do que nunca às revolucionárias da Primavera Árabe, do Curdistám e de toda a regiom. E isto é extensível à populaçom de enormes territórios do Estado francês, de Espanha, da Catalunha, ou de Ceuta e Melilla, para quem a esquerda tampouco tem nada que oferecer. Compartim encerro -o cárcere é um excelente barómetro político- com moços, filhos da emigraçom galega e portuguesa às grandes metrópoles europeias, rapazes que gostam de ver as chegas de bois em Montalegre, que achárom a expressom ao seu malestar no terrorífico milenarismo do Estado Islámico.

“Compartim encerro -o cárcere é um excelente barómetro político- com moços, filhos da emigraçom galega e portuguesa às grandes metrópoles europeia que achárom a expressom ao seu malestar no terrorífico milenarismo do Estado Islámico”

Falas também do processo em que o independentismo galego avançou para despolitizar-se e “socializar-se”, politizar-se através da sociedade. Em que ponto se encontra, neste sentido? Cara onde achas que deve caminhar?

Após o enéssimo fracasso no intento de construir um referente político unitário, naquela ocasiom Nós-Unidade Popular, um setor do independentismo começa a profundizar numha reflexom que relativiza muito o papel dos partidos, havida conta do estado real do projeto soberanista na altura, e fai umha nova aposta na chamada estratégia da construçom nacional: a criaçom de umha contra-institucionalidade própria em todos os campos onde se produze e reproduze a comunidade -meios de comunicaçom, lazer, educaçom, trabalho, desporto, etcétera- para frear o acelerado processo de destruiçom das bases materiais e simbólicas da naçom, e que à vez gere espaços apartidários de convívio fraternal que dem segurança à dissidência política.

Este foi, na minha opiniom, o grande acerto do independentismo nos últimos quinze anos, que nom é outra cousa que acometer as tarefas urgentes que outros movimentos irmaos já iniciaram na década de 1960, e que aqui o nacionalismo maioritário desatendeu por duas conceçons mui arraigadas na sua tradiçom política: umha, que o espaço privilegiado ou mesmo único para a transformaçom social é a administraçom, quer controlando-a quer apelando a ela desde “a rua” -assim, por exemplo, Freixeiro Mato, um dos ideológos de referência do BNG em matéria linguística, escrevia que a sobrevivência da língua apenas precisava dum “governo amigo”; e duas, um otimismo injustificado e umha confiança quase essencialista na pervivéncia da naçom, que recorda àquela frase de Vicetto de que “Galiza sempre será a mesma” e que se explica porque, quando se forjaram os marcos teóricos referenciais do movimento nacional-popular, nas décadas de 1970 e 1980, a realidade do país era radicalmente diferente, com umha populaçom mui maioritariamente rural e monolíngue em galego, com umha forte identidade “étnica” que parecia blindada aos efeitos das políticas de destruiçom.

“Quando se forjaram os marcos teóricos referenciais do movimento nacional-popular, nas décadas de 1970 e 1980, a realidade do país era radicalmente diferente, com umha populaçom mui maioritariamente rural e monolíngue em galego, com umha forte identidade “étnica” que parecia blindada”

Dito isto, a estratégia de construçom nacional, impulsionada desde um setor mui minoritário, mui perseguido, e com mui poucos recursos, tem uns limites de partida mui fortes. Às vezes companheiros do nacionalismo maioritário criticavam-nos a escassa entidade dos projetos fruto desta estratégia: que os centros sociais eram poucos, que se os nossos meios de comunicaçom próprios eran mui febres... E isso é evidente, mais a leitura a realizar é justamente a contrária: se com tam poucos recursos se pudo fazer tanto, quanto nom poderiamos se os que mais podem se tivessem somado?

“A cultura política leninista fortemente enraizada no independentismo, a tendência à intriga e ao seitarismo, nom se elimina dum dia para outro”

Ora bem, a cultura política leninista fortemente enraizada no independentismo, a tendência à intriga e ao seitarismo, nom se elimina dum dia para outro, e é radicalmente incompatível com esta estratégia de construçom nacional para além dos partidos. Com o tempo os velhos aparatos (micro)partidários e os seus vícios foram recuperando protagonismo, especialmente trás a rutura do BNG em Ámio, quando muita gente viu aí a “ultima oportunidade” para fazer “política de verdade”, e essa vida própria que tenhem estas dinámicas colheu umha velocidade vertiginosa, aumentando a brecha com isso que o Eduardo Maragoto chama o “partido dos centros sociais”, ou o Carlos Taibo o “independentismo social”. 

“Umha moça ou moço que tenham inquedanças políticas, que porta de entrada de entrada tem para militar no independentismo? Nengumha, porque já quase nom ficam referências”

Contudo, agora também creio que o ponto débil dessa estratégia foi subestimar a importância da política representativa como espaço de desputa do imaginários e criaçom de referentes. É dizer, umha moça ou moço que tenham inquedanças políticas, que porta de entrada de entrada tem para militar no independentismo? Nengumha, porque já quase nom ficam referências. E isso viu-se por exemplo no último ciclo municipalista, em cidades como Compostela contavam mais quatro notáveis dotados de umha sigla que um movimento tam popular como a Gentalha do Pichel. Foi um erro abandonar o trabalho de representaçom, e deixá-lo em maos alheias, isso debilitou-nos muito.

Em que momento se encontra o independentismo? A leitura pesimista seria que o independentismo está a desaparecer junto com as suas siglas históricas, repetindo os erros de maneira compulsiva e sem nengumha capacidade de reflexom coletiva. A profundidade da crise é inegável. Mas também há que pensar que se veu fazendo um trabalho de formiguinhas mui importante, trabalho de sementeira -muito menos visível do que as conspiraçons partidárias e os seus escándalos-, nas escolas autogeridas, nos centros sociais, nas cooperativas, etcétera, e todo esse tecido que será o caldo de cultivo do independentismo que vem.

“Há que pensar que se veu fazendo um trabalho de formiguinhas mui importante, trabalho de sementeira - menos visível do que as conspiraçons partidárias e os seus escándalos-, nas escolas autogeridas, nos centros sociais, nas cooperativas, etcétera, e todo esse tecido que será o caldo de cultivo do independentismo que vem”

O crescimento político nunca é linhal, vai por vagas, e quando o independentismo galego se recupere -que num duvido que o fará- nom será porque muita gente se decida em massa a militar em tal ou qual sigla sobrevivente ao naufrágio atual, senom que será por desbordamento, como sucedeu em Latinoamérica com a nova esquerda e os velhos partidos ou o próprio exemplo recente da esquerda espanhola. Isso está claríssimo. Hoje penso que o movimento precisa necessariamente de expressom política, porque esta serve para densificar as relaçons entre os projetos sociais e para dotá-los de referentes e de certa coesom, mas também estou convencido de que o principal obstáculo para atingi-la som as condutas herdadas do passado. Há pouco, numha visita, duas companheiras da Gentalha do Pichel contavam-me que no marco dumhas assembleias independentistas municipais que se estavam organizando decidiram reservar o direito de veto àquelas pessoas que introduzisem dinámicas seitárias e verticalistas nesse espaço. Pois bem, esta medida polémica creio que é um síntoma de madurez política.

“Quando o independentismo galego se recupere -que num duvido que o fará- nom será porque muita gente se decida em massa a militar em tal ou qual sigla sobrevivente ao naufrágio atual, senom que será por desbordamento, como sucedeu em Latinoamérica com a nova esquerda e os velhos partidos”

Iñaki Soto, o director de Gara, escrevera um artigo mui inspirador nos começos do procès catalám: nele lembrava-se de como da esquerda abertzale sempre olharam a esquerra independentista com certa condescendéncia, como um fato de ingénuos veganos que iam de bicicleta à okupa e que abandonaram o trabalho sério nos partidos clássicos para se disolverem na sociedade civil e no trabalho local, e olha-os agora! Talvez aquela disoluçom fosse imprescindível para rematar com a realidade paralela das pelejas micropartidárias, autênticos buracos negros que atrapam toda a energia, e concentrárom-se no marco municipal, onde o pragmatismo que lhe é intrínseco -o imperativo de saber-se relacionar com a “gente normal”-, superar as cômodas linguagens privadas, etc.- bloqueia de maneira natural essas tendências mais nocivas.

Noutro falas de que o galeguismo arrasta um exacerbado componente culturalista, de modo que dificilmente pode aspirar a ser hegemónico se se apresenta como um modo de distinção. Uma nação “escrita” por umas elites, comentas. Mas, como criar identidade de outra maneira? Pode ser, também, que haja determinadas elites que têm excessivo peso na cultura galega, tendendo a representá-la?

A crítica do culturalismo é central em toda a genealogía do independentismo galego. Já nos anos 30 Daniel Nogueira e os demais pondalianos de A Fouce denunciavam esse “nacionalismo como artigo de luxo” que funcionava como um elemento de distinçon cultural antes do que como um elemento de dignificaçom popular, e de novo nos anos 60 e 70 o novo nacionalismo anticolonial e marxista rebela-se mui conscientemente contra o culturalismo de Galaxia, repetindo-se em grande medida, esta revolta geracional e anticulturalista no independentismo juvenil dos noventa, que medra durante o período de construçom desse autonomismo que conseguiu recuperar a muitos dos antigos anti-piñeiristas para o seu projecto. Aquí o companheiro Isaac Lourido pontualizaria que a análise piñeirismo vs. antipiñeirismo é moi redutora, e que há que ter em conta o outro pólo que quase sempre se furta à crítica: o do culturalismo gerado ao redor da intelligentsia ligada ao BNG, e que também tem características próprias.

“Isaac Lourido pontualizaria que a análise piñeirismo vs. antipiñeirismo é moi redutora, e que há que ter em conta o outro pólo: a do culturalismo gerado ao redor da intelligentsia ligada ao BNG”

Graças às investigaçons de Justo Beramendi conhecemos mui bem o perfil sociológico da militáncia di galeguismo político desde os seus inícios, sendo a sua principal característica a grande predomináncia -mais acussada ainda nos postos de direçom- das classes médias ilustradas, que só diminuia em favor das classes trabalhadoras durante os ciclos de grande crescimento popular do nacionalismo galego, nomeadamente quando o Partido Galeguista muda para umha estratégia de massas após o desastre eleitoral do Biénio Negro, e quando se conjuga com o marxismo no ciclo nacional-popular das décadas de 70 e começos de 80, a época das luitas fundacionais de Jove, Baldaio ou as Encrovas que, naturalmente, no independentismo reivindicamos como próprias.

Esta característica sociológica do movimento de libertaçom nacional galego continua a ter umhas implicaçons mui fortes, tanto de forma impensada na configuraçom da tradiçom política maioritária no nacionalismo galego, como de forma mui consciente no tratamento repressivo específico ministrado polo Estado espanhol, em cujo jogo do “pau e a cenoura” a prebenda sempre tivo muito a ver como o reconhecimento cultural. Por exemplo, quando en 1986 o Centro Superior de Estudios de la Defensa Nacional (CESEDEN) realizava um estudo comparativo das resistências nacionais galega, basca a catalá, que nom aceitaram o Régime do 78, os contra-insurgentes espanhóis reparavam no forte peso que no móvimento galego tinha já a orientaçom culturalista como um dado mui importante.

Por umha parte, o predomínio da intelligentsia no nacionalismo galego acarretou a translaçom dos esquemas mentais próprios do campo cultural ao da militáncia política, podendo-se falar dumha sorte de inconsciente professoral mui maioritário na cultura ou tradiçom política do nacionalismo galego -reforçado com a posterior incorporaçom da tradiçom leninista e a sua filosofia da tomada de consciência- de maneira que, entre outras cousas, este acredita firmemente na possibilidade da emancipaçom social através dumha espécie grande logoterapia de massas dirigida por umha elite intelectual que crê possível umha “conversom dos espíritos” dos dominados -e mesmo dos dominantes!-.

“O predomínio da ‘intelligentsia’ no nacionalismo galego acarretou a translaçom dos esquemas mentais próprios do campo cultural ao da militáncia política, podendo-se falar dumha sorte de inconsciente professoral mui maioritário na cultura ou tradiçom política do nacionalismo galego”

Bourdieu criticou fortemente esta filosofia política, sobretudo a propósito da dominaçom masculina, recordando que as paixons do habitus dominado permanecem longamente enraizados no corpo por muita consciência que se tome, sendo dificilmente suspendíveis as relaçons de dominaçom por um mero esforço da vontade, sendo imprescindível umha sorte de “contra-adestramento” ou reaprendizagens corporais. Ou para dizê-lo com Franz Fanon: a descolonizaçom começa por umha luita do colonizado contra si mesmo, e a violência revolucionária -a dessobediência civil, diriamos hoje com mais convicçom- é imprescindível porque o livra do complexo de inferioridade, tira-lhe o medo e devolve-lhe o respeito por si mesmo.

O caso de Castelao é o paradigma de como funciona este dispositivo cultural de neutralizaçom. Quando o líder galeguista morre no exílio, os responsáveis da censura franquista remitem umha circular para todos os meios indicando como deveriam dar a notícia. Trata-se, na realidade, de todo um programa político, de un programa contra-insurgente. Dita circular pedia que a notícia ocupa-se um espaço marginal nos jornais e, caso de inserir fotografia, que nom fosse a de nengum ato político. Recomendavam igualmente elogiar as dotes de humorista, literato e caricaturista de Castelao, podendo só destacar a súa personalidade política “siempre y cuando se mencione que aquella fue errada y que se espera de la misericordia de Dios el perdón de sus pecados”, omitindo qualquer mençom do Sempre en Galiza ou dos desenhos da guerra civil.

“Os férreos límites que o franquismo impujo á figura de Castelao foram escrupulosamente respeitados e reproduzidos polo piñeirismo”

Isto é, despolitizavam e reapropiavam-se culturalmente dum subversivo que dedicou os últimos anos da sua vida a umha militáncia incansável em condiçons de grande austeridade. -Como se notará, os férreos límites que o franquismo impujo á figura de Castelao foram escrupulosamente respeitados e reproduzidos polo piñeirismo-. O mais interessante é que o próprio Castelao já era consciente disto antes da sua morte, e com ocasiom da publicaçom do Sempre escreverá em A Nosa Terra umha análise tremendamente lúcida sobre o funcionamento deste dispositivo cultural: “despois de trinta anos, trinta anos de meditación e de experiencia, atrevinme a publicar un libro no que trato de elevar a categoría de idea o que no album Nós era puro sentimento, e ó veren que as miñas razóns avalan a consciencia galega, daquela exáltase a miña personalidade artística, esaxerándoa, co piadoso fin de desvalorizar a miña ideoloxía política”.

Noutro comentas que não se aproveitaram as tradições autoorganizativas do povo galego: terras em mão comum, câmaras municipais abertas, ajuda mútua, e que se fez uma assunção acrítida do pack xacobino: hierarquização, homoxeneização, centralismo interior, que depois vieram juntar-se com a “democracia” capitalista, fechando o passo a uma democracia radical. De que modo poderiam -ou estão já- a retomar-se essas tradições de autogestão? Falta uma reflexão neste sentido -a subversão desse pack- na “nova política”?

Houvo momentos em que isso que podemos chamar a tradiçom comunal galega sim tivo umha grande impronta nos movimentos sociais e políticos. Antes da Guerra Civil, o comunal galego e as suas formas de autogestom ocuparam um lugar central no ideário galeguista, assim como na práxis quotidiana das sociedades agrarias de todas as correntes ideológicas transformadoras, das socialistas às libertárias, embora sem teorizá-las quase nada. No ciclo nacional-popular que começa na década de 1970, este comunal galego volta a ter todo o protagonismo, se bem com certo desajuste teórico, pois, paradoxalmente, os mesmos militantes que encabeçavam manifestaçons pola “industrializaçom” -seguindo a ortodóxia marxista da teleologia do “desenvolvemento das forças produtivas”- depois estavam ombro com ombro com os paisanos lutando contra os estragos dessa industrializaçom “realmente existente”.

“Houvo momentos em que isso que podemos chamar a tradiçom comunal galega sim tivo umha grande impronta nos movimentos sociais e políticos”

Aí gostaría de destacar um ciclo de luitas, talvez nom tam conhecido como o das Encrovas ou Jove, que é o da comarca do Condado, espelhadas no jornal A Voz do Condado, ao que tínhamos devoçom no conselho do Novas da Galiza por causa de Carlos Barros. Em aquelas páginas aparece um movimento independentista de corte municipalista -parroquialista, mais bem- e assemblearista, mui combativo, que impulsa a democratizaçom popular e a extensom de serviços básicos de saúde e educaçom, que se fai forte no povo através dessas estruturas prévias de auto-organizaçom popular que som as juntas parroquais de vizinhos, encetando nom só luitas pola conservaçom do monte comunal -ameaçado polas celuloses, eucaliptais, canteiras e todas as empresas típicas do capitalismo colonial clássico- senom pola comunalizaçom de novos espaços, por exemplo elaborando guias para a reapropiaçom comunal dos montes e das águas, ferramentas em código aberto. E todo isto em estreita uniom com as luitas obreiras de Vigo, como a construçom dumha nova cultura popular e de combate, e com umha clara consciência de estarem a retomar a ofensiva democratizadora da II República, construíndo umha sorte de memória histórica para o futuro. Nessas luitas o comunal era omnipresente.

“No mundo libertário, Kropotkine era um grande etnógrafo que sabia bem que por toda a Europa existíam ou existiram fórmulas de autogestom popular mui interessantes, mas o nosso anarquismo, tam “anti-nacionalista”, nom se interessou muito polas galegas”

Ao mesmo tempo que sucedia isso, o Partido Galego do Proletariado, por exemplo, tinha um programa na linha teórica do marxismo mais desenvolvimentista, mui céptico face às possibilidades emancipadoras destas tradiçons comunais. Pode ser que haja aí um bloqueio teórico, o livro da Escola Popular Galega Dialética do progresso aborda em profundidade esta questom. Talvez se a famosa carta de Marx e Vera Zasúlich em que reconhece a validez da comuna rural russa como via ao socialismo fosse conhecida antes, estas tradiçons tivessen umha outra consideraçom… No mundo libertário, pola contra, Kropotkine era um grande etnógrafo que sabia bem que por toda a Europa existíam ou existiram fórmulas de autogestom popular mui interessantes, mas o nosso anarquismo, tam “anti-nacionalista”, nom se interessou muito polas galegas.

Atualmente há umha conscienciaçom crescente de todo o que supom este património político, e cada vez mais projetos que partem dele para resolverem os problemas do presente. Aí sim que há umha via claramente esperançadora. Quanto à chamada "nova política", nom fai falta resaltar mais o seu feroz leninismo no plano organizativo, às vezes chamado de “centralismo plebiscitário”, ou que a retórica do “grupo confederal” no Congresso apenas pode ocultar umha práctica real centralista. A nível estratégico, Podemos e as esquerdas independentistas partimos de dous presupostos completamente diferentes diferentes: eles crem que só se abrir o “candado do 78” desde Madrid e com eles de protagonistas, e que esse é o requisito para a “concessom” do direito de autodeterminaçom; para nós, é o exercício do dever de autodeterminaçom da Galiza, País Basco e Catalunha, o único que pode democratizar, também, a própria Espanha, e “só dumha Espanha rota poderá sair umha Espanha vermelha” de Castelao.

“Quanto à chamada ‘nova política’, nom fai falta resaltar mais o seu feroz leninismo no plano organizativo, às vezes chamado de “centralismo plebiscitário”, ou que a retórica do “grupo confederal” no Congresso apenas pode ocultar umha práctica real centralista”

Após o referendo catalám do 1-O creio que já se despejou completamente a ilusom dum possível relacionamento internacionalista com a esquerda espanhola, e nestes momentos paréce-me evidente que o seu insuportável nacionalismo -nom tanto exprimido na parafernália da simbologia patriótica quanto nas estruturas mentais fortemente estatalizadas- é o principal obstáculo -para além do Estado, por descontado- à possibilidade de umha democratizaçom radical. Como dixera Marx aos trabalhadores ingleses: a vossa luita de classes pasa pola vitória dos independentistas irlandeses. Depois do de Catalunha ficou bem claro quem é realmente “mais nacionalista de esquerdas”, e digo-o com toda a tristeza. Todo o que Podemos sonhou nos seus discursos e nas suas leituras teóricas, sucedeu em Catalunha, mas os únicos que nom se deveram dar conta foram eles.

“Após o referendo catalám do 1-O creio que já se despejou completamente a ilusom dum possível relacionamento internacionalista com a esquerda espanhola”

Sobre o puritanismo -e machismo-da geração Nós falas noutro texto. E em muitos tratas, de diferentes maneiras, o tema da desigualdade de género e o feminismo. Muitas vezes desde um olhar antropolóxico e histórico. De que modo a antropologia pode abrir-nos os olhos sobre o tema?

Até o de agora tem-se estudado muito mais os vínculos da antropologia com o colonialismo e o poder do que as suas relações, também existentes, com os movimentos de libertaçom e os contra-poderes. A antropologia, ao mostrar o enorme leque de possibilidades da vida humana, tem uma potencialidade política evidente: rompe com a blindagem do campo do pensável mesmo nas questões consideradas mais “naturais” -xénero, sexualidade, família, economia…- e mostra como o que na nossa sociedade é impensável noutras é o “normal”, e que polo tanto se podem modificar muitas coisas. Esta potencialidade da antropologia para pensar novas formas de vida mais justas foi explorada sobretudo polo anarquismo: Kropotkine forjou as suas teses sobre a ajuda mútua nuns sólidos conhecimentos etnográficos e nos conhecimentos diretos que adquiriu entre os povos de Sibéria e mesmo da Suiça, e o galego Ricardo Mella utilizou muitísimos exemplos etnográficos -embora, lamentávelmente e como foi norma na sua obra, nenhum galego- no seu delicioso livrinho sobre o amor.

“A potencialidade da antropologia para pensar novas formas de vida mais justas foi explorada sobretudo polo anarquismo”

Também a etnografia foi uma arma de libertaçom para o galeguismo de pré-guerra ou o comunismo chinês pré-maoísta. Mesmo no contexto onde a antropologia apareceu mais explicitamente como ciência colonial, emergeram casos mui interessantes do “contra-etnografia”. É o caso, por exemplo, do malinense Manthia Diawara, quem viajou a París para estudar o âmbito de trabalho do documentarista Jean Rouch, tal e como este francês figer na década de 1950 nas colónias africanas da França, resultando desta experiência o documentário Rouch à l’envers (1995). Quanto á questão feminista, há muitos aspectos onde a antropologia pode ser útil. Só por dar uns poucos exemplos sobre temas mui de atualidade, poder-se-iam fazer releituras mui frutíferas do folclore galego das mouras -onde se entremestura a moura mitológica e a histórica- em relação com a chamada “islamofobia de género”, possivelmente um dos maiores desafios do feminismo europeu para as vindouras décadas. Neste sentido é mui recomendável o livro de Mar Llinares ‘Mouros, ánimas, demonios. El imaginario popular gallego’.

“A “islamofobia de género” é possivelmente um dos maiores desafios do feminismo europeu para as vindouras décadas”

Também no âmbito das novas maternidades a antropologia galega tem muito a dizer, por exemplo folclore da cobra que rouba o leite das mulheres. Está mui bem estudado neste tema o simbolismo da cobra, a conceçom do leite como “bem limitado”, etcétera, mas pasou-se por alto uma dimensom mui interessante destes relatos populares: a descriçom do grande prazer que sentem as mulheres quando as cobras lhes mamam o leite e os ciumes que isto provoca no homem. Pois bem, este aspecto sensual da lactância e da maternidade vem de ser explorado por Maria Llopis, autora de ‘Maternidades subversivas’, como uma perspectiva mui novidosa; e porém, aí está, nos contos das nosas avoas.

“Também no âmbito das novas maternidades a antropologia galega tem muito a dizer, por exemplo folclore da cobra que rouba o leite das mulheres”

Quanto à construçom de “novas masculinidades” que renunciam aos velhos privilégios de dominaçom masculina, Carmelo Lisón Tolosana recolheu -talvez à desgana- um caso espetacular no seu trabalho de campo na Galiza da década de 1960, que podemos intitular de “meigalho despatriarcalizado”. Apenas dá dados, mas trata-se com certeza de um caso sucedido na Galiza matrilineal: um homem de uma zona de herdança patrilineal casa por uma aldeia onde praticam a matrilinealidade, e asegura aos seus amigos que não se deixará “dominar” pola esposa e a sogra. Porém estas, mui habilidosamente, e recorrendo às técnicas terapéuticas clássicas utilizadas contra o mal de olho, fam-lhe crer ao jovem esposo -mui refratário ao seu novo estatuto, muito menos privilegiado- que ele na realidade não é assim, que ele é bom, mas o que acontece é que está enmeigado por algum ente maligno que lhe fai atuar dessa maneira tão pouco dócil. Convencem-no, curam-no através destas técnicas simbólicas habituais, e resocializam-no para aceitar essa nova realidade sua, essa outra maneira de “ser homem”, menos privilegiada e autoritária que a das zonas de sistema patrilineal forte.

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