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Isabel Rei

Notas para uma memória musical

Que a língua galega pode ser escrita, representada no papel, segundo diversas normas ortográficas é algo que não se vai debater neste artigo. Dou por sentado que isto que estás a ler corresponde-se com o que na Galiza chamamos galego e por esse caminho conduzirei todo o que vem a seguir.

Nos 90, vários membros do professorado de ensino primário e secundário da Galiza foram perseguidos pela Administração acusados de empregar nas suas aulas uma forma ortográfica do galego diferente da estimada como boa por essa Administração

Há vinte anos, nos 90, vários membros do professorado de ensino primário e secundário da Galiza foram perseguidos pela Administração acusados de empregar nas suas aulas uma forma ortográfica do galego diferente da estimada como boa por essa Administração. O acosso, que causou baixas entre o professorado, foi cometido invocando a pretensa oficialidade de uma normativa que nunca foi legalmente oficial. O objetivo da pressão era não somente castigar os rebeldes, mas também evitar que outras pessoas, estudantes e colegas, seguissem o seu exemplo.

Ainda hoje essa norma ortográfica, chamada normativa e outros muitos nomes, não é legalmente oficial e não pode impor-se o seu uso a ninguém. Ainda hoje a Administração pretende que as funcionárias, especialmente as do ramo da Educação, usemos unicamente essa grafia no nosso trabalho. Arguindo que o funcionariado tem obriga de escrever como manda o governo, os docentes têm sido enganados uma e outra vez, por várias décadas, até ficarem convencidos de que aquilo era o oficial, o obrigado, o que havia que fazer.

Arguindo que o funcionariado tem obriga de escrever como manda o governo, os docentes têm sido enganados uma e outra vez, por várias décadas, até ficarem convencidos de que aquilo era o oficial, o obrigado, o que havia que fazer

Hoje cada vez somos mais as que sabemos que na Espanha não existem as normas oficiais, que não devem confundir-se com as línguas oficiais, estas sim definidas pela lei, e que ninguém pode obrigar outrem a escrever qualquer língua espanhola de uma maneira determinada, seja o galego, o catalão, o euskara ou o castelhano. Portanto, o funcionariado reintegracionista está hoje, como também estava ontem, em plena liberdade para exercer legal e legitimamente o seu direito a escrever em galego segundo a norma ortográfica que melhor considerar. Qualquer intento por parte da Administração de evitar que isso aconteça é um abuso de poder e constitui um delito contra a Constituição espanhola e o Estatuto de Autonomia da Galiza.

Nessa linha é que realizou as suas atividades a Equipa de Dinamização da Língua Galega que coordeno

Nessa linha é que realizou as suas atividades a Equipa de Dinamização da Língua Galega que coordeno. O presente artigo é uma relação dos eventos organizados por essa EDLG entre os meses de maio de 2012 e maio de 2013. Nada do feito é ilegal ou desconhecido, todas as atividades foram anunciadas o mais que nos foi possível e realizadas desde a convição de que são boas iniciativas nos aspetos formativo, artístico e social, para o nosso alunado e para toda a comunidade educativa do Conservatório Profissional de Música de Santiago de Compostela.

Era o dia 8 do mês de maio de 2012 quando no Conservatório se realizava um concerto homenagem a Guerra da Cal, inteletual galego pouco ou nada divulgado pelas instituições oficiais da língua na Galiza. O concerto estava organizado pela Equipa de Dinamização da Língua Galega (EDLG) da que eu fazia parte, com a participação de um bom número de estudantes na interpretação das obras de diversas autorias, compostas sobre poemas do autor homenageado, escritos na norma comum da nossa língua. Depois da surpresa inicial, alunado e professorado não tiveram qualquer problema em ler, aprender e interpretar os textos durante os ensaios.

Para a ocasião conseguimos convidar a todos os compositores vivos de quem tocávamos alguma obra, ou no seu caso a parentes cercanos, e assim lá estiveram a filha de Camargo Guarnieri, Tânia, a filha de Vicente Asencio e Matilde Salvador, Matilde Asencio, o compositor José Evangelista e também o cantor e músico galego Xoán Rubia. O desempenho do nosso alunado foi excelente, entre a variedade das peças interpretadas destacava a obra do compositor brasileiro Camargo Guarnieri, que era estreia na Europa. O resultado foi um aforo completo no auditório do centro, a luz nos rostos do alunado, notícias resenhando o sucesso em diferentes jornais e os parabéns que se prolongaram durante dias. Todos os cartazes e programas de publicidade foram realizados na norma comum da nossa língua.

O centro e a EDLG preparavam um concerto de música popular galega, convidando a ACentral Folque a um concerto em que o alunado de uma e outra escola se juntavam procurando aprender e transmitir conhecimento musical de ambas as partes

Na semana a seguir, o centro e a EDLG preparavam um concerto de música popular galega, convidando a ACentral Folque a um concerto em que o alunado de uma e outra escola se juntavam procurando aprender e transmitir conhecimento musical de ambas as partes, na realização de um trabalho complementar. De novo, os cartazes e publicidades foram escritos na norma comum.

No mês de outubro desse mesmo ano 2012, já no curso letivo seguinte, realizou-se um concerto de violino, guitarra e piano, cujas intérpretes não somente tinham em comum pertencer ao género feminino, senão também falar a mesma língua natal. E assim se mostraram em público, nos ensaios e concerto, as duas brasileiras e a galega, para além dos cartazes e programas que também refletiam esta unidade.

Nas reuniões da EDLG, convocadas por mim já como coordenadora, decidimos fazer um ciclo de conferências arredor de diversos aspetos musicais que fossem ministradas em galego, e começamos a anunciar as que já estavam previstas, sempre redigindo os cartazes e programas na norma comum. Assim tivemos em novembro uma conferência sobre o reaparecido e sempre interessante Códice Calistino, a cargo do coro Ultreia que se achegou desde Ponte Vedra. E em dezembro outra sobre o excecional trabalho de campo do musicólogo português Michel Giacometti, para o que vieram do Porto dous excelentes músicos do grupo Raízes e o editor do trabalho, José Moças.

Nas reuniões da EDLG, convocadas por mim já como coordenadora, decidimos fazer um ciclo de conferências arredor de diversos aspetos musicais que fossem ministradas em galego

O 13 de dezembro trouxemos à Teresa Moure, escritora livre que vem de anunciar publicamente a sua preferência pela escrita na grafia comum, e Maria Castelo,  diretiva da Associação Pró AGLP, para falarem da ILP Paz-Andrade, numa palestra onde também se apresentou o livro Queer-emos um mundo novo. Sobre cápsulas, géneros e falsas classificações, com debate animado que se prolongou quase até à hora de fechar o centro. No evento recolheram-se assinaturas para a Iniciativa Popular que agora vem de ser aprovada no parlamento.

A última das conferências programadas no ciclo da EDLG finalmente incluiu-se dentro das I Jornadas de Órgão “Mariano Tafall” que a diretiva do centro inaugurou em fevereiro de 2013, com uma semana de concertos e visitas organizadas aos diversos órgãos da cidade. Todas as informações sobre estes eventos foram realizadas pela EDLG na norma comum da língua. Aos concertos e visitas acudiram numerosas pessoas da cidade e membros da comunidade educativa. Não sabemos de ninguém que tivesse problemas na compreensão das informações, por exemplo dos dias (terça-feira, quarta-feira...) em que tinham lugar os eventos, ou de que ficasse com dúvidas a respeito do currículum de Belén Bermejo e Andrés Díaz, responsáveis da palestra e pesquisa sobre o património organístico galego.

Já no mês de abril de 2013 a EDLG tinha previsto a realização de uma homenagem a Roberto Vidal Bolanho, a quem este ano está dedicado o Dia das Letras Galegas. E assim foi que graças à ajuda inestimável de Tero Rodríguez e à magnífica colaboração da Escola Superior de Arte Dramática conseguimos realizar uma breve representação teatral, no melhor estilo Vidal Bolanho, isto é, com o mínimo imprescindível, e acompanhá-la da interpretação musical que o nosso alunado preparou com obras de alguns dos compositores que o dramaturgo galego tinha conhecido e tratado em vida, como foram Rodrigo Romaní e Bernardo Martínez, os quais assistiram ao evento junto de vários membros da família do autor homenageado. Para rematar o ato, os membros do grupo de música galega Os Estalotes, também  colaboradores de Vidal Bolanho, inundaram de alegria gaiteira as salas do centro.

E finalmente, chegou o que no conservatório temos chamado a nossa Semana das Letras, onde a EDLG tinha programado dous eventos para o 15 e o 16 de maio de 2013. O dia 15, às 19.30h, acontecia na igreja de São Domingos de Bonaval o concerto homenagem a Rosalia de Castro, com motivo do 150 aniversário da publicação do seu livro Cantares Galegos. O concerto, que tinha sido anunciado em roda de imprensa pela diretiva do centro, e que foi coberto pelos principais jornais e a TVG, reuniu mais de 300 pessoas que receberam cada uma um programa escrito na norma comum. No concerto interpretaram-se cinco novas canções, compostas pelo nosso alunado, sobre poemas de Rosalia, também escritas na norma comum da língua e cantadas com sotaque galego. Não sabemos que isto tenha provocado problemas de compreensão entre os intérpretes, e longe disso, deu pé a valiosas conversas nos corredores do centro para resolver alguma dúvida de pronúncia do canto, ou de composição musical. Também nesse evento foi resgatada a música do Miserere, em latim, que Mariano Tafall tinha composto e que foi tocada no deslocamento dos restos de Rosalia em 1891. As partituras destas obras foram publicadas no caderno de música Cantar-te-ei, Galiza (Dos Acordes, 2013), o qual foi redigido integramente na norma comum e  apresentado no mesmo dia do concerto. Desse caderno venderam-se 11 exemplares aquele dia, a 30€ cada exemplar, sem que chegássemos a saber se a grafia empregada tinha sido inconveniente ou aliciente para a sua boa aceitação.

E finalmente, a Semana das Letras 2013 remataria no centro com um concerto a cargo do coro de amig@s do conservatório e das pandeireteiras Maianas que trouxeram de novo a música galega ao centro. Em todos os casos a publicidade, cartazes e programas foi feita desde a língua comum e, que saibamos, não causou outro problema que o de ver escrita a língua com uma grafia que nos é pouco familiar, mas que também por isso promove a curiosidade pelos eventos organizados.

Não há lei, diretor, inspetor ou secretário geral que tenha a possibilidade legal de proibir o uso da norma comum nos centros educativos. Só precisamos de dar a conhecer a nossa escolha e de explicar

No meu centro aconteceram muitos outros atos, quase todos anunciados em galego, que não foram aqui referenciados. Porque esta é uma memória pública das atividades realizadas desde o conceito de língua e norma comum, com a que quero encorajar a todo o professorado reintegracionista a fazer o que nós fizemos. Não há lei, diretor, inspetor ou secretário geral que tenha a possibilidade legal de proibir o uso da norma comum nos centros educativos. Só precisamos de dar a conhecer a nossa escolha e de explicar, se for preciso, que é legítima e que ninguém pode ordenar ou impedir que façamos assim, nem obrigar a que se faça de outra maneira.

Quero animar também às diretivas dos centros a que não se deixem pressionar. Pois a pressão exercida pela Administração, normalmente via telefónica e nunca por escrito, responde ao abuso de poder que procura uma obediência imediata e sem questionamentos. Nada tem a ver com teorias linguísticas ou com a defesa da língua, esse abuso de poder está somente orientado a limitar as escolhas livres e manter um controle pouco democrático sobre o professorado. Aprendamos a pedir as ordens motivadas e por escrito, e veremos o que ordenam as instâncias superiores.

Temos que animar-nos e dar-nos a conhecer como reintegracionistas no nosso entorno laboral,  para defender a nossa dignidade profissional e a nossa língua de maneira inteligente, pedagógica, persuasiva

Às companheiras e companheiros funcionários e reintegracionistas: Temos que animar-nos e dar-nos a conhecer como reintegracionistas no nosso entorno laboral,  para defender a nossa dignidade profissional e a nossa língua de maneira inteligente, pedagógica, persuasiva. Temos que organizar eventos interessantes e passar-nos à esfera amorosa, seduzindo com a beleza da forma que vincula o nosso passado com o nosso futuro.

Os eventos no conservatório alargaram o uso social da língua, porquanto implicaram ativamente numerosos membros do nosso alunado, professorado, mães,  pais, e pessoas da cidade. E espalharam informações escritas com os reflexos e tonalidades daquelas letras galegas que alguns, neste país, ainda intentam apagar. A comunicação oral entre galegas, portuguesas e brasileiras realizou-se fluentemente e com naturalidade na língua comum, bem como a compreensão dos textos escritos por parte de participantes e assistentes, correspondendo-se todas as falas com aquela escrita universal.

Ser criativa no trabalho, implicar o alunado, entusiasmar-se com as possibilidades artísticas do conservatório, sempre com o inestimável apoio da diretiva do centro, dos meus e minhas colegas, e a colaboração e protagonismo das estudantes, é uma experiência que não se pode pagar.

Para que nunca mais o professorado nem o alunado galego se veja perseguido pela sua coerência linguística. Para que os abusos de poder sejam neutralizados

Para que nunca mais o professorado nem o alunado galego se veja perseguido pela sua coerência linguística. Para que os abusos de poder sejam neutralizados. Para que nos sintamos livres e confiantes na nossa escolha e a mostremos com criatividade e didatismo, com paixão educativa, às nossas alunas e alunos. E se somos estudantes, às nossas professoras e professores. Para que a escola galega seja mais formativa, inclusiva e atraente. Para que através das diversas especialidades, em todas as áreas, sejamos capazes de ensinar e de aprender a rebeldia, o senso crítico, o compromisso estético e a elegância da nossa língua comum.

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