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Isabel Rei

Uma sereia na Audiência Nacional

De como a sereia chegou à Audiência Nacional, dos imprevistos que a levaram até ali, de como o senhor Scrooge e a sereia se conheceram, das aventuras dos Marinhos. De como as histórias reais parecem inventadas.

As leitoras saberão, ou deveriam saber, que as sereias falam. E, ainda que vivem cantando no mar, podem viver ao lado do mar e também longe do mar, como as pessoas todas. A nossa sereia, da mesma espécie que Macunaíma, herói das brasileiras gentes do Sul, desde criança já fazia cousas de sarapantar.

O primeiro que ela fez foi sair do mar e falar a um homem que passeava pela praia. Namoraram, fizeram par e tiveram um filho de apelido Marinho por ela ser uma sereia marinha. Eram os tempos das danças de espadas e das cantigas de amigo, quando na fraga de Esmelhe ainda amanheciam juntanças de druidas.

Passado um tempo, um outro Marinho, machado em alto, cabeça no mar de machados, sachos, fouces, enxadas, gaveando a fortaleza derrubada do senhor feudal, berrava a rebelde chamada “Denantes mortas que escravas!” ecoando o acesso lume dos paços nos olhares lampejantes dos Irmandinhos.

Muitas cousas aconteceram, cousas de sarapantar, por que os Marinhos destacavam em bravura e lealdade. Até ao dia em que chegou um Marinho que sabia pintar e pintou uma sereia muito bonita, de loiros cabelos como ondas marinhas e lustrosa perna de peixe. A sereia sustentava um escudo com uma fouce de ouro, uma estrela Aldebarã e a chamada que os devanceiros Marinhos juraram berrar até ao fim: “Denantes mortas que escravas!”. 

E foi assim, como se nada, que a sereia achou um dia, e foi um dia de sarapantar, que era acusada junto com todos os seus descendentes Marinhos de ser perigosa terrorista.

E foi assim, como se nada, que a sereia achou um dia, e foi um dia de sarapantar, que era acusada junto com todos os seus descendentes Marinhos de ser perigosa terrorista. A sereia não tinha plantado lume em paço, não. Nem não tinha tampouco feito as feitas de que era acusada. E para defender a sua honra de sereia, convidou uns Marinhos e todas foram até à Audiência Nacional onde pediram falar com o senhor Juiz.

E ali, como se nada, apareceu o dickensiano senhor Scrooge, que noutra vida tinha sido boneco das tiranias dos espíritos do Natal. E ali, renovado e mitrado, o senhor Juiz Scrooge recebeu a sereia e os Marinhos, que lhe disseram que não, que nem ela nem eles tinham feito feitas terroristas, que eram contra a violência, que não sabiam de bandas, nem de artefactos, nem de falsos documentos, nem do fantasma que traumatizou os servidores da lei.

Porque nesta história também havia um fantasma, que era espírito. E era um pantasma de sarapantar. E a pantasma era desaparecida e não davam com ela. E ao não dar com ela, foi ela a culpada de todas as feitas que naquele juízo se contaram. Foi culpada das feitas da EGPGC, da UPG, do Moncho Reboiras, e da AMI, e das Águas Limpas, e de Castelão, que era o pintor.

E a pantasma era desaparecida e não davam com ela. E ao não dar com ela, foi ela a culpada de todas as feitas que naquele juízo se contaram

E ali, naquele teatro do senhor Juiz Scrooge, foi nomeada de novo a chamada que os Marinhos juraram berrar até ao fim “Denantes mortas que escravas!”. E o fiscal perguntou se era uma invenção terrorista. E a questão não se esclareceu até ao dia seguinte, em que todos ficaram aliviados porque a frase ressuscitava das antigas revoltas irmandinhas.

Que pouco sabia o senhor juiz daquilo que se falava. O Papagaio Nacional que por lá aninhara tomou a palavra para falar num tom subido e insolente, como é próprio dum papagaio, que era de sarapantar. E chegou a nomear uma por uma todas as anedotas que figuravam na sua agenda de papagaio sem acertar a fiar uma história ao caso. E o senhor Juiz Scrooge escutava o papagaio com muito interesse e nunca lhe pediu que moderasse o tom porque era próprio dele.

Que pouco sabia o senhor juiz daquilo que se falava. Depois do Papagaio Nacional os defensores dos Marinhos falaram e o senhor Juiz Scrooge interrompeu para indicar que eram expulsos, porque é próprio dos defensores serem expulsos injustamente e abandonarem a sala, sendo que os seus informes não devem ser tidos em conta pelo alto tribunal. E como o senhor Juiz Scrooge era alto, assim fez, e a feita foi dessa maneira. A sereia e os Marinhos protestaram, que não vinham vindo desde a Terrinha nem esperado o tempo todo para aguentar marcianadas como essa.

Então a sereia falou para o senhor Juiz Scrooge e disse: “Ouh, o senhor é juiz desde quando?” E do silêncio da sala nasceu primeiro um gargalo mínimo, que foi aumentando e reverberou cada vez com mais força, entre sons agudos e assobiantes, próprios das cobras, porque é próprio das cobras assobiar diante das vítimas, e foi amoreando-se aquele som feito elefante, feito montanha, feito trovão, e aquele já bruar estrondoso estendeu-se pela presidência. E era o senhor Juiz Scrooge que murmurava.

Mas a sereia marinha não se deixou intimidar e retrucou: “Senhor Juiz, nós somos inocentes dos cargos de que nos acusa. Temos padecido indefensão por causa do senhor não querer atender-nos.” E entanto isto dizia, com as mãos jogava umas baralhas de cartas que apanhara na mesa da acusação. E eram cartas de condução pintadas em cartolinas escolares, que lembravam as notas do Monopoly.

E assim foi como se conheceram a sereia e o triste Scrooge, que se não fosse real a gente diria que é uma história inventada. Mas, como sabemos, a realidade supera a ficção e não há melhor conto que o da própria vida. Acreditem, leitoras, que esta história é verdadeira e o senhor Scrooge, como todos os tristes, tem a penúltima palavra. Porque a última palavra, em justiça, será da sereia.

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