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Pepe Arias

Frente Ampla: eleiçons europeias como referendo à Troika

* Fragmentos da intervençom no ato Pola Frente Ampla. Que Europa queremos?, organizado por ANOVA-Compostela o passado 6 de novembro de 2013.

Nada voltará a ser como antes da crise. A bolha imobiliária e a especulaçom financeira foram quem de criar umha fiçom amável, umha difusa utopia neoliberal que se situava na tese do crescimento ilimitado sem levar em conta os recursos finitos que tem a natureza, em que a intervençom por parte dos Estados na economia apresenta-se como um anacronismo que impede a autorregulaçom do mercado, que seria o elemento que satisfaria todas as nossas necessidades. É claro, apenas para aquelas pessoas que puderam pagá-lo.

Aceitamos sem demasiados reparos que os direitos desfrutavam-se, nom se exerciam. Assumimos com demasiada naturalidade o facto de que ir às fileiras do INEM era um mecanismo para sermos inseridos no mercado laboral, deixando a um lado o facto de sermos trabalhadoras e trabalhadores com dignidade e orgulho, e nom mais umha mercadoria que se compra e se vende. Foram aos poucos roubando-nos as palavras que definiam a nossa realidade, e com elas ficaram com parte das nossas vidas.

Foram aos poucos roubando-nos as palavras que definiam a nossa realidade, e com elas ficaram com parte das nossas vidas

A crise no Reino de Espanha tem um elemento fundamentalmente político. Embora PP e PSOE neguem a sua modificaçom para ampliar os direitos sociais e nacionais da Galiza, a suposta norma suprema de convivência foi violada com a reforma do artigo 135 da Constituiçom espanhola, que limitava o teito de gasto público. Os poderes oligárquicos impugérom as medidas mais agressivas da plutocracia financeira, concretadas na reduçom de investimento público em saúde e em educaçom, corte das pensons e reduçom das prestaçons por desemprego, forte incremento dos impostos indiretos, privatizaçom de empresas e serviços públicos, reformas profundas do mercado laboral e ataques ao sindicalismo de classe ou  diminuiçom dos salários dos trabalhadores públicos. Impugérom todas estas medidas partindo das ordens de organismos nom eleitos democraticamente como o FMI e o BCE, que tenhem umha folha de rota de medidas austericidas de enorme violência para a gente do comum. A rutura do pacto social é um golpe de Estado da oligarquia espanhola à convivência. Um incumprimento promovido pola Troika em contra dos interesses da maioria social agredida.

A economia galega ficou relegada a umha industrializaçom débil, e durante os últimos anos liquidou-se a capacidade de produzir do próprio país e passamos a umha sociedade terciarizada com resultados lamentáveis: os pequenos produtores agrários sofrem umha legislaçom abusiva pensada para os grandes latifundiários andaluzes, a liquidaçom do setor pesqueiro tradicional, a perda de carga do naval que tanto afeta Ferrol e Vigo propiciada pola concorrência com o mercado asiático ou a precarizaçom das condiçons de vida som os resultados mais palpáveis desta UE que padecemos.

Diante de todos estes desafios, a Troika e os diferentes Estados apostam na radicalizaçom das políticas neoliberais, nom tendo como alvo a reduçom do desemprego, mas o aumento dos ganhos para os que verdadeiramente mandam, que nom som nem Mariano Rajoy nem Núñez Feijóo. Devemos rachar essa ingenuidade que nos impede ver quais som os poderes reais: som os bancos, son as grandes multinacionais do IBEX 35. Nesta Europa, Alemanha é quem marca a hierarquia de países da UE. Nunca como agora as suas intençons hegemonistas estiveram tam presentes. Temos aqui umha oligarquia parasitária, que é incapaz de gerar riqueza, que se subordina permanentemente à Troika, e que emprega o Estado para rescatar e nacionalizar as suas dívidas e para reprimir o protesto, nesse problema que tem sempre a direita com a democracia. Por isso o chamado à Frente Ampla que fai ANOVA, para pôr de acordo aos de abaixo e de construir maiorias sociais amplas e plurais contra esta desfeita, é tam importante nestes momentos.

Devemos rachar essa ingenuidade que nos impede ver quais som os poderes reais: som os bancos, son as grandes multinacionais do IBEX 35

Os países da periferia europeia nom podem assumir a legitimidade da dívida. Se diferentes governos alternativos dirigidos por forças ruturistas e democráticas se negarem a pagar a dívida, para priorizar precisamente o bem-estar das sociedades europeias, poríamos em xeque as forças da ordem, submissas às ordens da Troika, que condenam de novo a mocidade ao desemprego e à emigraçom. O facto de um governo soberano decidir nom pagar umha dívida adquirida de maneira ilícita é algo que se pode impedir, que se pode criminalizar, mesmo que se pode reprimir. Mas nom há ninguém que poda rebatê-lo nos termos de um debate democrático.

Motivo mais que suficiente para a esquerda ruturista galega – un espaço mais amplo do que o que conforma AGE nestes momentos -, a esquerda ruturista basca, a esquerda ruturista catalá e a esquerda ruturista espanhola chegarem a acordos e estabelecerem alianças

A aposta de ANOVA pola Frente Ampla sem exclusons nas passadas eleiçons nacionais conseguiu que a esquerda da naçom recuperasse noçons esquecidas desde há tempo. Falávamos antes de recuperar as palavras para nos reapropriar do sentido comum, e nós reecontramo-nos com palavras bem lindas como rebeliom ou esperança. O facto de que nom todas as forças interpeladas por nós entrassem na Frente Ampla limitou o seu alcance e deixou as cousas doadas à direita, mas nom seremos nós quem critiquemos ninguém, nun momento onde temos de somar forças primeiro a nível nacional, e posteriormente nas naçonns que componhem o conjunto do Estado para termos outra política na Europa que garanta o bem-estar do nosso povo.

Devemos ter claro que umha data eleitoral como a das vindeiras eleiçons europeias é importante, mas a rutura democrática nom se vai atingir amanhá, e nom virá com um bom resultado eleitoral, embora um bom resultado eleitoral puder precipitá-la. Estamos a falar de confrontar com o poder oligárquico, que no caso do Reino de Espanha se encontra coeso e unido. Motivo mais que suficiente para a esquerda ruturista galega – un espaço mais amplo do que o que conforma AGE nestes momentos -, a esquerda ruturista basca, a esquerda ruturista catalá e a esquerda ruturista espanhola chegarem a acordos e estabelecerem alianças, desde o respeito ao direito a decidir e a defesa dos interesses da maioria social, num momento de agressons aos nossos direitos sociais e à nossa naçom.

A proposta da Frente Ampla é algo parecido a um sorriso: nom deixa de ser umha maneira amável de ensinar os dentes

O que importa agora é impulsionar umha verdadeira política de Estado que defenda os interesses do  povo trabalhador galego. A proposta da Frente Ampla é algo parecido a um sorriso: nom deixa de ser umha maneira amável de ensinar os dentes. Temos de conseguir que as vindouras eleiçons europeias sejam um referendo popular das políticas antissociais impostas pola Troika. Nom seremos nós, como já nunca o figemos, os que nos confundamos de inimigo.

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