0 Gardados para despois

Isabel Rei

Mais notas para uma memória musical

Há aproximadamente um ano escrevia no Praza os primeiros rascunhos da memória que obrigadamente temos de fazer @s docentes no final de cada curso. Como essa tarefa administrativa costuma ser um trâmite ao que poucas vezes prestamos a atenção devida, pensei em publicar aquelas notas informativas, meio informais e atrevidas, para que a gente que não pudesse assistir aos eventos ficasse a saber o que é que fazemos no conservatório, como nos integramos na vida cultural galega, como contribuímos com o melhor que temos e o que conseguimos com o nosso trabalho.

Muito gostaria de que todo o feito ajudasse a transmitir essas paixões ao alunado e a toda a comunidade educativa do Conservatório Profissional de Compostela

Não há melhor cousa que trabalhar livremente em aquilo que se vive com paixão, que se desfruta. Tudo se realiza com entusiasmo e, talvez por isso, o resultado costuma ser bom. Com o que eu mais desfruto é com música e com língua, conseguir unir ambos os temas de trabalho e poder fazê-lo contando com a confiança d@s coleg@s é um privilégio que nestes dous cursos pude praticar. Muito gostaria de que todo o feito ajudasse a transmitir essas paixões ao alunado e a toda a comunidade educativa do Conservatório Profissional de Compostela.

O que fizemos durante este curso 2013/14 na nossa Equipa de Dinamização da Língua Galega não é doado de resumir. Começamos por organizar o ciclo de conferências “Poesia na Música”, em que intervieram as professoras da USC Maria Isabel Moran Cabanas e José António Souto Cabo, que desenvolveram em duas ocasiões os temas sobre a lírica medieval galega centrando-se em Martim Codax por ser o centenário da descoberta do Pergaminho Vindel. E uma terceira conferência a cargo de Sergio de la Ossa sobre a música tradicional galega aplicada ao aprendizado da leitura, ligada ao curso sobre o mesmo tema que organizava o departamento de Linguagem Musical.

Também realizamos um inquérito sobre o emprego da nossa língua no centro que deu resultados bastante positivos, apesar das circunstâncias paupérrimas que padecemos. O nosso alunado fala mais em galego do que em castelhano, contudo em muitos casos e, sobretudo, para os apontamentos afirmam depender da língua empregada pelo professorado nas aulas. Este inquérito é complemento do realizado no passado curso, cujos dados incorporamos aos resultados anteriores para irmos traçando uma linha temporal e assim poder medir o pulso evolutivo do centro. Ademais o alunado membro da EDLG elaborou durante todo o curso notícias sobre música galega de todos os tipos, estilos e cores, e também sobre o estado da língua, especialmente a aprovação da Lei Paz-Andrade, empregando também o Galego Comum com correção e propriedade.

O nosso alunado fala mais em galego do que em castelhano, contudo em muitos casos e, sobretudo, para os apontamentos afirmam depender da língua empregada pelo professorado nas aulas

A EDLG participou nas II Jornadas de Órgão “Mariano Tafall”, um dos eventos de maior relevância do centro tanto pela sua importância no nível musicológico quanto pelo labor de recuperação dos instrumentos e a colaboração com o conservatório ourensano e diversos espaços da cidade como a catedral, a capela das Ânimas ou S. Miguel dos Agros. A EDLG realizou a elaboração dos cartazes e programas de todos os eventos. Em março, antecipando os eventos das Letras, organizamos uma homenagem à poeta Luísa Villalta, de quem este ano se cumpre a década do seu falecimento, e também a José Maria Diaz Castro. Uma jornada protagonizada por membros da EDLG que combinou a leitura e divulgação destes autores ademais de Carvalho Caeiro (1910-1990) e de Amado Carvalho (1901-1927), e que contou com um poema composto ad hoc para o evento por Antom Labranha, professor de matemática no IES São Clemente e outro do professor de piano do nosso centro, David Duran Arufe. Ademais contamos com a excelente música de sanfona e guitarra interpretada por Paloma Garcia e Miro Touris. À homenagem assistiu convidada a família Villalta, pai e mãe de Luísa, Susana, sua irmã e seus filhos, Carolina e Sergio, sobrinh@s da homenageada.

A EDLG programou duas atividades que reuniram a atenção do centro arredor da projeção histórica da nossa língua e da sua atualidade poética e criativa em várias dimensões artísticas

No final de abril, o dia 30, dia de alomear o pão, quisemos alomear os nossos músicos com a recuperação de música para guitarra, piano e orquestra de câmara dos redescobertos Guterrez-Parada, ourensano e barbeiro, e Santos Sequeiros, médico nado na Póvoa do Caraminhal, mas assentado em Cangas do Morraço. Os dous guitarristas deixaram nos seus descendentes bem ensinado o amor pela arte. O sucesso foi garantido pela colaboração do professorado que interpretou a música e a dos familiares de ambos os autores, que se achegaram massivamente ao conservatório, dando lugar a gratos encontros e pondo de relevo os elementos em comum e as relações pessoais de ambas as famílias.

E já no mês de maio a EDLG programou duas atividades que reuniram a atenção do centro arredor da projeção histórica da nossa língua e da sua atualidade poética e criativa em várias dimensões artísticas: o dia 15 apresentou-se o grupo de música medieval Martim Codax, de prestígio internacional pelo seu trabalho de recuperação e interpretação da música medieval galego-portuguesa. A conferência-concerto contextualizou a música e a letra das cantigas de Martim Codax, Airas Nunes, Pero da Ponte, João Airas e Afonso o Sábio, mostrando como a medieval tem sido uma época de esplendor da nossa cultura comum.

E no dia a seguir, 16 de maio, realizou-se um recital de música composta e interpretada pelo alunado do centro, que foi acompanhado da exposição e projeção das ilustrações realizadas pelo alunado do IES do Sar, numa colaboração fundamental, iniciática e absolutamente maravilhosa. Músicas e ilustrações estavam baseadas nos poemas de Diaz Castro, Luísa Villalta e Amado Carvalho, ademais de Carvalho Caeiro que também foi belamente ilustrado. Composições e desenhos foram publicados no caderno “As Vozes da Cor”, que foi apresentado por professorado de ambos os centros, e constitui a segunda publicação musical do conservatório, junto com o caderno do curso anterior “Cantar-te-ei, Galiza” com música composta sobre poemas rosalianos. No ato participaram mais de vinte alun@s tanto na interpretação musical quanto na ilustrativa, o professorado que organizou e o que ajudou a preparar as obras, a diretiva do centro que se volcou com esta colaboração, o Coro de Amig@s do Conservatório, que também participou cantando três obras galegas e as pessoas assistentes que encheram o auditório de sorrisos cúmplices e apoios explícitos ao trabalho desta EDLG.

Durante este curso tanto a língua quanto a música galega foram espalhadas, difundidas, pronunciadas, empregadas, tocadas e ouvidas. A forma comum escrita da nossa língua foi entendida, seguida e debatida

Durante este curso tanto a língua quanto a música galega foram espalhadas, difundidas, pronunciadas, empregadas, tocadas e ouvidas. A forma comum escrita da nossa língua foi entendida, seguida e debatida. Ao longo deste tempo vári@s coleg@s de centro deram pé a animadas conversas sobre o caso: um interessou-se pela natureza legal da fantasiosa “norma oficial”, outra confessou-me que cursava primeiro de português na EOI compostelana, a outro descobri-o falando ao telefone em perfeito paulistano, e uma outra apesar de que há um ano tudo lhe parecia estranhíssimo reconheceu que agora já se tinha afeito às formas comuns e que palavras como “profissional” ou “órgão” lhe resultavam do mais normal e mesmo conveniente, dizia, porque temos bastante alunado que ao rematar os estudos no conservatório decide ir estudar à Escola Superior de Música do Porto (ESMAE).

A experiência de ter impulsado no centro o debate e os motivos para estudar e aprender a língua própria na sua forma escrita internacional é uma satisfação imensa

A experiência de ter impulsado no centro o debate e os motivos para estudar e aprender a língua própria na sua forma escrita internacional é uma satisfação imensa. Nisso ajudaram as conferências sobre lírica medieval e os eventos sobre poesia e música. Também tem sido uma honra poder oferecer uma parte do trabalho sobre guitarristas galeg@s históric@s. E o resultado sonoro e organizativo dos concertos organizados pelo alunado, tanto na composição musical quanto na interpretação e elaboração de imagens inspiradas nos textos galegos. Com esse último ato achegamo-nos um pouco àquela ideia romântica de obra de arte total, em que cada elemento era elaborado para cumprir uma função artística dentro dum conjunto maior, percebido como obra de arte completa. Um mundo em pequeno, como um bonsai, com toda a complexidade do mundo grande, mas emergido da sensibilidade d@s jovens estudantes.

Como amostra da atividade realizada desde o curso 2011/12 em que participei na EDLG em qualidade de membro ativo, apresentamos esta relação de diapositivos a incluir fotos, cartazes e programas dos eventos realizados entre maio de 2012 e maio de 2014. Sejam estas imagens testemunho do que pode ser feito com a língua, do que algum dia será feito com normalidade em todos os estabelecimentos de ensino na Galiza.

Acerca de Isabel Rei