0 Gardados para despois

Isabel Rei

2015 Ano Zero: A hora de Portugal

Acontecia na data mais esperada do ano. Semanas antes não tinham passado o anúncio na televisão, nem tampouco saíra a notícia nos jornais, nem não se tratava o caso nas tertúlias radiofónicas, nem sequer os blogues tinham feito a publicidade esperável do acontecimento. As principais figuras políticas não o tinham comentado nas suas entrevistas e os apresentadores mais mediáticos não mencionaram a questão nos programas de máxima audiência.

Mas o certo é que em 2014 o Ano Novo seria recebido na Galiza por duas vezes. Sim, duas. Uma, a de todos os anos, na hora espanhola que vai pelo fuso horário da Alemanha. E a outra, por primeira vez na TVG com a hora portuguesa que segue o fuso horário do meridiano de Greenwich, o mesmo das atlânticas Grã Bretanha, Irlanda, Açores, Madeira e Canárias. Entre nós, a hora de Portugal.

No programa prévio, como de costume, os produtores televisivos ofereciam um conjunto de variedades de entretenimento. Na TVG começavam as atuações com música espanhola. Que foi seguida de mais música espanhola. Chegou a vez das Leilia e das Malvela e ao fim tivemos música galega, a única cantada em português. Depois continuou sempre em castelhano até chegar a meia noite. Aí o programa conhecido pelo nome de Luar ofereceu duas luas no ecrã: a bela face do relógio do Obradoiro, à direita, e a da custódia Puerta del Sol, à esquerda.

Mas ainda faltava 1 hora para o ano novo com Portugal. A TVG insistia nas varietés espanholas com alguma excepção. Contudo, nada podia já ocultar o facto de que as 12 horas portuguesas vinham aí e na Galiza íamos celebrá-las para a entrada do ano. Incontroláveis e estranhos, os relógios galegos aguardavam mais uma hora.

Estou a esquecer um detalhe importante: Desde o início, o programa de fim de ano contava com a presença duma apresentadora portuguesa que se expressou o tempo todo em belo português e, perto já do decissivo momento, as pessoas que ocupavam o cenário prestaram-lhe toda a atenção. Procuraram uns talhos para se subirem neles, pois em Portugal é costume receber o ano com mais altura, e prepararam as doze passas nas mãos. Tudo estava pronto.

Imaginemos o relógio da Sé de Lisboa, ou o de Braga, ou o do Porto: Há que o imaginar  porque agora o Luar não retransmitia a bela lua no ecrã. Chega o instante, os apresentadores iniciam a contagem regressiva: Doze! Onze! Dez! -parece uma astronave, pensava eu- Nove! Oito! Sete! -aqui vai acontecer alguma cousa- Seis! Cinco! Quatro! -isto está mesmo emocionante- Três! Dois! Um!... E naquele preciso instante começava para Galiza e Portugal o nosso Ano Zero. Feliz Ano Novo!


Opinião publicada originalmente no n.º 145 do Novas da Galiza, na seção Língua Nacional.

Acerca de Isabel Rei