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André Seoane Antelo

De oferendas e polémicas

Quero felicitar aos recentemente nomeados alcaldes de Santiago e Corunha por ter contribuído a sacar da penumbra um dos vestígios mais interessantes da nossa herdança histórica, a Oferenda do Antigo Reino ao Santíssimo Sacramento.

Vai muito além dumha simples celebraçom religiosa e rompe com os tópicos sobre a Galiza dos “séculos escuros”, tempos nos que supostamente o nosso país esmorecia languidamente após a “doma e castraçom”

Como se trata dum tema que tem gerado certo debate é pertinente que aclare a priori que apoio a decisom tomada de nom assistir ao vigorante cerimonial. Na Galiza na que gostaria viver nom há lugar para manifestaçons públicas de submetimento das instituiçons civis a divindades ou dogmas religiosos. Porem acho muito interessante aproveitar a expectaçom gerada para difundir a significaçom original da cerimónia da oferenda, que vai muito além dumha simples celebraçom religiosa e rompe com os tópicos sobre a Galiza dos “séculos escuros”, tempos nos que supostamente o nosso país esmorecia languidamente após a “doma e castraçom”.

Todos pudemos ler nos últimos dias páginas e páginas na imprensa nas que se detalhava o pormenor do cerimonial e se explicava como este adoptara a sua forma actual no século XVII. O que nom se explicava em nengumha dessas páginas era porque precisamente nesse século se instaurara a oferenda e muito menos a significaçom contextual da cerimónia nesse preciso momento histórico.

Umha vez superada a profunda crise política do século XV e após um século XVI de resituaçom, as elites galegas afrontarom o século XVII como o momento no que recuperar posiçons. A aposta de estas elites naquela altura foi a de tentar ganhar quotas de poder no difícil jogo de equilíbrios da monarquia espanhola num tempo no que se começavam a pôr em andamento políticas de signo centralizador, como a dirigida polo Conde-Duque de Olivares que rematou por provocar a sublevaçom de Portugal e Catalunya.

No caso galego nom se optou pola sublevaçom senom pola aliança com a monarquia a cámbio da recuperaçom de privilégios e prerrogativas para o Reino da Galiza, caso do voto em Cortes. As elites galegas, lideradas por elementos da talha dum Conde de Lemos ou um Conde de Gondomar, pretendiam tirar partido da lealdade à coroa para conseguir umha melhor integraçom do reino galego dentro da monarquia hispánica mas sem a mais mínima intençom de aceitar umha simples assimilaçom. Neste jogo político é onde há que situar o estabelecimento da Oferenda ao Santíssimo Sacramento e o seu significado.

No caso galego nom se optou pola sublevaçom senom pola aliança com a monarquia a cámbio da recuperaçom de privilégios e prerrogativas para o Reino da Galiza, caso do voto em Cortes

A origem histórica do culto ao sacramento na catedral de Lugo perde-se na memória dos tempos mas isto pouco importa. O relevante é que no XVII constroe-se umha narrativa concreta para explica-la, narrativa que adopta a sua forma definitiva na famosa carta que o cabido luguês envia à Junta do Reino reunida na Corunha o 15 de Fevereiro de 1669.

Nesta missiva reclama-se que seja o conjunto do reino, representado polas sete cidades cabeças de província reunidas em Junta, quem assuma os gastos derivados do culto ao sacramento que se realiza de forma permanente no altar maior da catedral de Lugo. O motivo que justificaria tal reclamaçom seria, tal e como se explica na carta, que o culto fora estabelecido no século VI por um dos monarcas suevos após a celebraçom dum concílio dos bispos galegos. Em dito concílio teria-se ratificado a assunçom polo conjunto do Reino da Galiza do dogma da transubstanciaçom, negado nomeadamente por priscilianistas e arianos, e a própria hóstia consagrada passaria a ser adoptada como emblema do reino em substituiçom do leom vermelho e dragom verde, supostos antigos emblemas da monarquia sueva da Galiza.

A veracidade desta narrativa é mais que discutível no referente ao que se conta do que puido acontecer a finais do século VI mas o inegável é o significado ideológico da sua assunçom por parte dos representantes das cidades galegas na Junta do Reino.

Os representantes do Reino da Galiza adoptarom um cerimonial público no que lembravam que eram os representantes do mais antigo reino cristiam peninsular

Em pleno século XVII, tempo no que a monarquia espanhola estava obsessionada por questons como a limpeza de sangue ou a luita contra a reforma protestante, os representantes do Reino da Galiza adoptarom um cerimonial público no que lembravam que eram os representantes do mais antigo reino cristiam peninsular, um reino que já era fiel aos dogmas da Igreja Romana nuns tempos no que nos territórios do reino visigodo triunfava a heresia ariana, e que ao longo dos séculos essa fidelidade nunca fora abandonada, cousa que o resto dos reinos peninsulares nom podiam dizer.

Numha época no que o aparelho ideológico da monarquia hispánica criava a sua identidade a través da plena identificaçom com o dogma católico, os representantes do Reino da Galiza afirmavam a sua singularidade argumentando que eram os mais católicos de todos.

É evidente que nos nossos tempos nom há lugar para manter cerimoniais deste tipo. As instituiçons civis galegas devem manter-se neutrais em qualquer controvérsia religiosa polo que resulta bastante absurdo que um representante público, exercendo como tal, vaia anualmente à catedral de Lugo a certificar que o Reino de Galiza continua sendo leal ao dogma da transubstanciaçom.

É evidente que nos nossos tempos nom há lugar para manter cerimoniais deste tipo. Mas a memória da açom mancomunada como unidade política si que é um valor a reivindicar

Mas a memória da açom mancomunada como unidade política si que é um valor a reivindicar. De facto a nossa história tem mais exemplos, para além da Junta do Reino, nos que a través de assembleias de representantes municipais a Galiza exprimiu a sua vontade de ser e fazer país.
Das Juntas da Irmandade até a assembleia de concelhos que em 1932 elabora o anteprojeto do Estatuto republicano, passando polas Juntas que organizam a defesa contra a invasom napoleónica ou a revoluçom de 1846, foi a través da mancomunidade de concelhos como o povo galego conseguiu defender dumha forma mais acabada os seus interesses e organizar os seus recursos.

Pode que esteja aí o caminho para criar novos cerimoniais civis a través dos que afirmar a historicidade do nosso povo e a sua vontade de ser país

Pode que esteja aí o caminho para criar novos cerimoniais civis a través dos que afirmar a historicidade do nosso povo e a sua vontade de ser país. Mesmo a própria cidade de Lugo pode ser um magnífico lugar para encena-los já que nela nom só o Reino se reuniu para afirmar o seu submetimento à hóstia consagrada senom que também foi o lugar onde um 2 de Abril de 1846 começou a revoluçom a través da que “Galiza, arrastrando até aqui umha existência oprobriosa, convertida numha verdadeira colónia da corte, vai-se levantar da sua humilhaçom e abatimento”.

Acerca de André Seoane Antelo

Licenciado em História e membro da Comissom de História da Gentalha do Pichel. Candidato por En Marea ao Senado na provincia da Coruña.