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Teresa Moure

Nós, @s de Vamos junt@s

*Artigo de Teresa Moure, Séchu Sende e Igor Lugrís

Temos um país roto, atravessado por uma crise sem precedentes, envelhecido, castigado pelo poder que emudece a sua língua e a sua cultura e acossado por políticas decididas em benefício de outros. Temos um país acantonado num marco constitucional estreito e envelhecido. Eis o retrato da Galiza; um retrato que pode ser aceite por distintos marcos, por distintas posições políticas, das mais radicais às mais moderadas. Nesse contexto, no mês de junho de 2015, três pessoas decidem convocar um evento de facebook sob o lema “Vamos junt@s em 25?” que, em poucas horas, conseguiu nem só um número considerável de apoios, mas especificamente, o que é mais significativo no país da sopa de letras, de pessoas associadas a distintas fações e preferências políticas. Eles e ela –Séchu Sende, Igor Lugrís e Teresa Moure– escrevem, participam habitualmente em atividades culturais, fazem parte da sociedade que se move, que critica, que participa. Mas não se reclamam com as nomenclaturas habituais para defender uma participação política entendida como multidão, quer dizer, desestruturada ou manipulável. Nem pretendem ser um lobby nem jogam a elites culturais. Aliás, são partidários da organizar-se politicamente, são membros de tantas associações, entidades e redes de ativismo que não corresponde pensar neles como gente neutra. E, embora serem apenas três, como corresponde num retrato significativo deste país, levam mochilas diferentes. Por isso é que nunca pensaram em convocarem ou em coordenarem uma auto-convocatória: ao contrário, instavam naquele evento de facebook às organizações políticas a sentar-se e debater para que, após as suas pertinentes negociações, nos convocassem ao povo galego inteiro numa data emblemática como é o Dia da Pátria.

Tal proposta, por muito que gozasse de grande impacto nessa realidade paralela do ciberespaço, cuja importância hoje não pode ser negada, foi recebida de diferente maneira pelas organizações políticas nestes tempos convulsos e delicados: algumas não a atenderam, outras criticaram a sua procedência alheia a uma organização e outras aplaudiram-na em privado. Tudo ficou aí. Finalmente, @s três do evento assistimos como espetador@s a uma convocatória tardia, apresentada com certa apatia pública, e formulada por um comité disso que se chama a sociedade civil que –com todo o respeito que nos merecem os seus membros– achamos auto-censurada porque evita dar corpo político a uma reivindicação que, necessariamente, tem que ser transgressora e rebelde. Porque se nos convocarem em 25 de julho, será para retesar a corda; se nos manifestarmos, será para declararmos explicitamente que Galiza é uma nação.

Durante estas semanas, tivemos oportunidade de falar com gentes variadas que demonstram algo interessante: que a existência de pontos de vista diferentes não deve evitar que possamos trabalhar junt@s. Igualmente, analisamos como nalguns dos tecidos políticos em que se moveu a nossa militância, a existência de pontos de vista idênticos ou semelhantes não garante que flua o diálogo. Que as organizações são maquinarias lentas já sabíamos dantes, que é preciso reinventar os mecanismos de participação e de organização é uma experiência desta época. Nós os três participamos ativamente no ativismo em favor da língua, no associacionismo cultural, no feminismo, no movimento ecologista. Nós as três partilhamos a experiência de tant@s militantes que acabaram sendo ex-militantes. Nós os três acreditamos em que vivemos numa situação de emergência, em que a Galiza é um sujeito político e que, portanto, deve decidir por si própria. Nós as três pensamos, como pensávamos meses atrás, que deve ser promovida uma plataforma supra-partidária, integradora de energias, que não compita nas eleições para debater os problemas deste país. Não para perder-se em debates escolásticos, mas para incidir na realidade de imediato. Nós os três acreditamos que Independência, Socialismo e Feminismo –a ordem cá pode alterar-se a vontade– são os referentes ideológicos que podem mover Galiza da posição subsidiária que ocupa. Talvez muitos temam que isso dá apenas para atrair um sub-conjunto reduzido, que não pode conter muitas forças. Aí negamos com toda a contundência. A olhada feminista é imprescindível para deslocar as mulheres, tradicionalmente excluídas, de posições secundárias: ninguém no século XXI pode acreditar no contrário. A olhada socialista é imprescindível para dinamitar as diferenças de classe e construir uma sociedade justa, especialmente num momento histórico em que o capitalismo arrasa. A olhada independentista, a mais estigmatizada nos poderosos alto-falantes do estado espanhol, poderá ser amplamente seguida o dia em que consigamos que deixe de ser vista como um guetto para dissidentes.

Uma comparação basta para argumentar. As mulheres de idade, que constituem uma parte importante deste país envelhecido, sabem que foram as primeiras do seu sexo em votar e lembram vidas onde nada era decidido e controlado por elas. Essas mulheres, as nossas velhas, hoje estão felizes de viver vidas onde as portas se abrem. Se elas obtiveram benefícios de serem sujeitos de pleno direito, o país também pode obter. Fora de todo prejuízo, a Galiza precisa que as portas se abram e, simplesmente, decidir o que lhe compete. Como corresponde.

Os três do evento de Vamos junt@s reconhece-mo-nos aí. Não pretendemos sair de festa à rua em 25 de julho, mas irmos com um ideário geral e básico: independentismo, socialismo e feminismo. Não somos uma organização. Somos um corpúsculo mínimo, um micro-retrato da sociedade galega atual que se expressa abertamente. Mas, como estamos na rua, como levamos toda a vida a participar nos 25 de julho, sabemos que connosco caminha muita gente que se move em torno a estas ideias, desenvolvidas em maior ou menor grau ou desgastadas em batalhas diversas. Por isso consideramos fulcral que a manifestação que percorra as ruas de Compostela seja nutrida, que visibilize a vitalidade da nossa sociedade e que desate a sua capacidade de contagiar de entusiasmo combatente. A história escreve-se com vontade coletiva. Vamos junt@s?

Acerca de Teresa Moure