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Isabel Rei

Centenários do presente

Ninguém mais que nós tem culpa do que nos passa;
ninguém mais que o nosso trabalho nos há de salvar.
E se não dizei-me: A quem botamos a culpa
do abandono impiedoso em que deixamos o idioma?
Que gigante no-lo tem encantado?...
Pois o mesmo nos sucede com tudo.

Luís Porteiro Garea, 1916

 

Diagnose da situação (2016)

Como neste ano se celebra o centenário da criação das Irmandades da Fala, a maior rede de ação cultural e política de que temos notícia na nossa história, alguns setores da sociedade galega têm organizado eventos à volta deste assunto. Num desses eventos calhou-me assistir a uma palestra em que o orador explicou com conhecimento e singeleza o contexto social e político do nascimento das Irmandades e o seu percurso. O orador expôs os dados académicos desenvolvendo, sem querer, o discurso lusofonizante que inequivocamente os irmandinhos estavam a estabelecer na altura. Quando no momento das perguntas comentei este facto, o orador, sempre respeitoso e cortês, respondeu-me que 'sim' e que 'não'. Que 'sim' porque era evidente que não ía desdizer aquilo que ele mesmo acabava de dizer: Os dados que ele próprio tinha referenciado sobre os quais eu propunha traçar uma linha de continuidade para trazer à luz de maneira mais clara aquela posição do galeguismo histórico a favor da confluência linguística com o português. E a seguir acrescentou que 'não', e com isto rematou a sua intervenção (o qual é significativo) porque havia ideias para as que a cidadania não estava preparada e a do lusismo era uma delas, ideias que são boas mas que estão fora do seu tempo e por essa causa não têm sucesso. O orador preferia não marcar aquela linha temporal de afirmações lusofonizadoras que o galeguismo vinha realizando claramente já desde o século anterior. Enquanto desenvolvia o seu discurso, muito bem traçado, o orador sentiu-se à vontade para enunciar estes factos, mas deixou de estar à vontade no momento em que alguém lhe fez notar a relação entre eles. O bloqueio frontal à ideia de que o galeguismo histórico encarnado nas potentes Irmandades era pró-lusista revelou-se-me evidente. O mais grave disto é que esse bloqueio -uma reação visceral nada científica e por desgraça bastante frequente entre uma certa intelectualidade galega- dava-se em 2016.

 

Discurso do Dr. Porteiro

No passado sábado 28 de maio realizou-se um outro evento organizado pela nova câmara municipal compostelana que consistiu numa mesa de oradoras a desenvolver a situação política atual com base na proposta de um texto de Lois Porteiro Garea, membro das Irmandades de Compostela, publicado com data de 28 de maio de 1916 e do que a câmara tinha realizado uma bela edição fascimilar que partilhou com as assistentes ao ato. Ainda que o texto cumpria naquele dia justamente os 100 anos, o certo é que não foi o centro dos discursos que as oradoras tinham preparado. Sendo pessoas imersas no turvilhão político atual, nesta época em que tudo se está a movimentar, as integrantes da mesa dedicaram mais tempo a desenhar os projetos políticos para o futuro do que a reler os do passado. Concordo em que a releitura não é suficiente, porém na minha opinião a análise dos textos clássicos revela-se imprescindível para entender os caminhos que se transitaram e o modo em como chegamos ao presente. É por isso que me dei à tarefa de apresentar este texto como homenagem às Irmandades mas também como advertência para navegantes atuais: E se Porteiro tinha razão e a culpa era quase toda nossa?

 

Debuxo galaico com música

O Dr. Porteiro, grande orador entre os grandes oradores, traçou no seu discurso de inauguração das Irmandades de Compostela um debuxo da futura Galiza, do seu ideal de país e os caminhos que levariam a conseguir este objetivo que ele entendia partilhado por todos os irmandinhos. E começou a falar da língua, fazendo notar, igual que Rosalia no século anterior, que:

Escribo en galego, e escribo mal. Qué queredes!... Nunca hastra hoxe escribín. Xamáis mo ensiñaron nin eu me coidéi dô deprender! E agora, pergúntobos: si poido escribir -mal, todo o mal que vós queirades- no idioma que non aprendín nas escolas, nos epítomes, nin nos dizonarios, n'é verdade qu'isa lingua debe ter raíces moi fondas no meu peito, na y-alma da miña raza cando non-a enterraron pra sempre os abandonos alleos e os propios?
Discurso do Dr. Porteiro ô fundarse a Hirmandá en Santiago, p. 5-6.

Parece lógico que umas Irmandades da Fala, mesmo que estejam a desenhar um quadro político global, demonstrem interesse pela língua. Porém, o curioso das manifestações de Rosalia (no prólogo dos Cantares, 1863) e esta de Porteiro Garea é que se referem à escrita, à sua falta de conhecimento não para falar mas para escrever em Galego. É inevitável, numa leitura atualizadora deste texto, reparar em que fariam falta hoje umas Irmandades da Escrita a traçarem o plano de ação e desenho linguístico ideal para uma Galiza do século vinte e um.

A seguir Porteiro explica o contexto de emergência e movimentação política do seu tempo, continua a fazer autocrítica e insta a respeitar a Espanha e o próprio como duas caras da mesma moeda, insistindo na ideia de que o mal galaico tem mais a ver com o comportamento dos próprios do que com o dos alheios:

E si en Madrí se desconece a alma andaluza -con Sevilla a quince horas- e a levantina -con Valencia a trece- e a aragonesa -con Zaragoza a oito- cómo querés que sepan de nós, con Santiago a 29 horas, dándoll-a espalda a Castela e c-a ollada e a vida e o porvir máis alá das olas?...
Ibidem, p. 13.

Porteiro continua o discurso a estabelecer a situação da Galiza no mundo e analisar alguns efeitos internos dessa situação. Dedica um apartado a falar do capital galego, outro à indústria e ao trabalho, temas todos abordados no contexto prévio às duas guerras mundiais e, naturalmente, à globalização que hoje é central nas nossas vidas. Reivindica uma justiça em galego, a potenciação das artes e da música e descreve a sua primeira audição da Negra Sombra, a famosa obra de João Montes sobre o poema de Rosalia:

A pirmeira vez qu'oín cantar n'un teatro "Negra Sombra"... foi n-o Real de Madrí a un coro catalán.
Ibid., p. 25.

O Dr. Porteiro acaba por invocar a força da poesia e reclamar para @s poetas e em especial Ramon Cabanelas [Cabanillas] um espaço de honor nas Irmandades e na cultura galega, espaço que a poesia deverá saber ocupar numa Galiza livre e dona de si mesma.

 

Atualização do discurso

Já que não nos contentamos com uma releitura nostálgica que arrefece a vontade revolucionária, apliquemos as bases de Porteiro ao momento atual. Como teriam de ser umas Irmandades da Escrita do século XXI, plenamente lusófonas como herança e reflexo de uma galeguidade normalizada e normalizadora?: Feministas e femininas, promotoras duma economia alternativa, da produção de alimentos para auto-abastecimento, dos cuidados do terreno e das pessoas, das férias e comércio a pequena escala. Desenvolveriam todo tipo de atividades humanísticas em campo e cidade, a autonomia energética e desvinculação progressiva do petróleo, potenciariam as pequenas empresas, a exportação de bens de primeira qualidade especialmente aos lugares com vínculos galegófonos fortes, a importação desses lugares dos materiais e bens necessários dos que carecemos. Articulariam unidades organizativas em comarcas, ligadas por boas comunicações e uma junta assemblear de todos os concelhos, com autonomia universal sobre os temas que nos afetam e relação fluida com as outras comunidades do nosso entorno peninsular. Estariam em diálogo constante com os países lusófonos e também com os hispanófonos, estabeleceriam a oficialização do português e o seu estudo como língua nativa, junto com o castelhano como língua afim e o inglês como terceira língua. Decrescimento, sustentabilidade, harmonização linguística e internacionalismo seriam os instrumentos para uma vida mais digna, mais respeitosa com a terra, mais amável com as pessoas, mais prometedora para as gerações vindeiras e mais conhecedora do seu lugar no mundo.

 

Compostela Aberta

O mérito de ter reunido Teresa Moure (independente), Anton Gómez-Reino (Podemos), Joám Facal (independente) e Adrián Dios (BNG) num evento para falar de política galega deve atribuir-se ao centro social A Gentalha do Pichel. A re-edição do discurso de Porteiro Garea e a inserção do ato numa série maior de eventos por toda a cidade que tiveram lugar da manhã à tarde, a conter teatro, música, intervenções artísticas, palestras, recitais poéticos, regueifas e marionetas, é dos atuais inquilinos da câmara municipal, os membros de Compostela Aberta, atores da mudança política compostelana e sofredores dos mais variados vitupérios por parte da imprensa conservadora, conhecida hoje na Espanha como pantuflismo*. Os discursos das quatro oradoras foram, ainda que diferentes, tão compatíveis e suscetíveis de tecerem um conjunto ordenado que a inevitável pergunta é: Por que não se consegue a unidade de ação política? Será que arranjamos todo tipo de desculpas, sempre todas muito motivadas, para reafirmar a pergunta: E se Porteiro tinha razão e a culpa era quase toda nossa?

 

Novos tempos, novas vontades

Porque desta vorágine que se levanta após dous anos de intensa atividade eleitoral e da aparição duma nova maneira de entender a política, terá de sair também uma nova maneira de entender a política cidadã e camponesa, das pessoas e da gente, dos coletivos e dos indivíduos. E também dos atuais estados cuja função terá de mudar e deixar passo às comunidades locais, que são os agentes próprios para a elaboração de soluções locais aos problemas globais da crise do capitalismo. Perante a necessidade de uma nova organização social, os estados nas mãos dos poderes financeiros perderão legitimidade e terão de saber adaptar-se às novas situações, abandonar as políticas "de estado", de fronteiras e de guerras, e servir como veias de comunicação entre o local e o global. Nessa reconfiguração do papel dos estados na vida política das pessoas Portugal terá uma nova relação com uma Espanha que necessariamente será diferente, e como galeg@s deveremos assumir o protagonismo dessas relações, mediar entre as partes e trabalhar para construir a nossa soberania junto a uma aliança democrática entre todas as nações peninsulares.

Os tempos reclamam mudanças que temos de fazer em nós mesmas para além de nas instituições. Não ponhamos mais desculpas e avancemos o que nos corresponde após cem anos. Sejamos capazes de vencer os medos dos nossos maiores, de não repetir os traços mais escuros da nossa história. Sejamos capazes de não nos bloquear mais, de lavrar umas renovadas Irmandades, fraternais e duradouras, que nos debuxem com música, que nos falem na língua que sabemos escrever, que nos ensinem a respeitar a terra e os nossos vizinhos, que nos orientem no amor à dignidade, que nos centrem no mundo a conviver com esse mundo que é muito maior do que nós.


*Pantuflismo: (cast.) Neologismo que refere um tipo de ação coordenada de jornalismo enganoso e manipulador, inspirado naquilo que Umberto Eco chamou de 'macchina del fango' [máquina da lama] cujo objetivo é formar uma opinião acrítica no leitor subsidiária de uma ideologia oculta que serve interesses não informativos. Vem do termo 'pantuflo', adaptação do nome próprio Don Pantuflo, antigo personagem de banda desenhada que se tornou em apelativo dum hoje conhecido jornalista espanhol e representante máximo da máquina da lama.

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