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Joám Lopes Facal

Pragmatismo e dissidência

A pragmatismo é, junto com o seu irmao menor, o commom sense, umha virtude inveterada do povo británico. Como o é a desconfiança pola petuláncia e a retórica altissonante, vícios que consideram nas Ilhas simplesmente de mau gosto. O relativismo británico casa bem com o humor céptico, com o amor polas plantas e os animais e com o gosto polos contos de fantasmas. Admirável país a pérfida Albiom. Os galegos partilhamos algumhas virtudes com os británicos, a tendência para o relativismo céptico e o sentido do humor como instrumento defensivo estám entre elas. A altissonáncia épica que impregna o discurso nacionalista nom concorda, em cámbio, com tam saudável parentesco cultural.

Os galegos partilhamos algumhas virtudes com os británicos, a tendência para o relativismo céptico e o sentido do humor como instrumento defensivo estám entre elas. A altissonáncia épica que impregna o discurso nacionalista nom concorda, em cámbio, com tam saudável parentesco cultural

Timothy Garton Ash é um eminente analista político, ensaísta e historiador do presente. Professor de Estudos Europeus na Universidade de Oxford, europeísta e agudo observador do continente, Ash colabora assiduamente no The New York Times, o Washington Post a New York Review of Books, o The Guardian e em outros meios de prestígio como El País. Para os interessados na catalogaçom política de Ash -prática aduaneira muito apreciada e às vezes exigida- acrescentaremos que a qualificaçom que lhe atribui Perry Anderson -o brilhante intelectual marxista británico a quem tanto devemos os aficionados à crítica histórica e cultural- é a de atlantista pró-americano ancorado no clima da guerra fria. Esta opiniom nom impede a declarada admiraçom de Anderson pola audácia de Ash que se remonta aos recuados tempos em que exercia de investigador emboscado nos países comunistas da guerra fria.

Nom há muito tempo desfrutávamos do prazer de ler no jornal El País dous artigos de Ash relativos à eventual separaçom de Escócia e o Reino Unido (6-02-2012) e de Grécia e a Uniom Europeia (21-05-2012). A perspectiva do separatismo escocês era assimilado por Ash a outra possibilidade latente e nom menos ominosa para ele: a do abandono da Uniom Europeia polo Reino Unido.

Os perigos que ajejam ao desistente guardam proporçom directa com o dogmatismo da organizaçom matriz

Toda perspectiva separatista é inoportuna e mesmo insuportável para quem pretende ignorar as razons da dissidência: de traidores, hereges, tránsfugas, renegados, apóstatas, heterodoxos ou mencheviques som tachados os dissidentes pola grei devota e leal. Os perigos que ajejam ao desistente guardam proporçom directa com o dogmatismo da organizaçom matriz. O terror político e religioso foi companhia inseparável da dissidência de qualquer subordinaçom dogmática como a toleráncia sói acompanhar à desistência laica.

Nos artigos antes aludidos opta Ash por dirimir a espinhenta contraposiçom de razons encontradas de unionistas e separatistas e as suas inquietantes consequências cum procedimento tam simples como equitativo: a consulta democrática informada, inequívoca e vinculante. Com acento destacado nas consequências, talvez irreversíveis, da decisom adoptada. Cita a tal efeito o caso da ruptura de Checoslováquia por causa da insistência dos nacionalistas eslovacos no trespasso de competências ao nível máximo alimentada pola rigidez do nacionalismo checo ante as pretensons eslovacas, baixo a férrea direcçom de Václav Klaus. A formula de Ash para dirimir conflitos de interesses e identidade é simples: aplicar esse fastidioso invento dos antigos gregos chamado democracia.

A malevolência das intervençons é directamente proporcional à falta de ideias do emissário, é fácil de observar. Som efeitos secundários estes da democracia e o melhor remédio tolerar aos intolerantes como homenagem da razom à crença

Desde a clausura da última Assembleia do BNG e a cisom que a seguiu rugem os foros nacionalistas em todos os registos do vocabulário da ortodoxia e a dissidência, temperado às vezes com inícuas argumentaçons ad hominem que som as de qualidade mais ruim. A malevolência das intervençons é directamente proporcional à falta de ideias do emissário, é fácil de observar. Som efeitos secundários estes da democracia e o melhor remédio tolerar aos intolerantes como homenagem da razom à crença.

No entanto, parece despontar a luz sobre a interminável paralise que afligiu tantos anos a um discurso nacionalista incapaz de apreender ou esquecer algo. Vozes actuais como as de Manuel Barreiro ou Xoán Hermida soam novas e estimulantes porque parecem anunciar outra maneira de encarar o projecto nacional que Galiza espera. Reparemos em todo caso: nada parecido tem nascido nos áridos eidos dos partidos maioritários e turnantes. O nacionalismo é jovem, confirma-o a sua capacidade de mutaçom e a apariçom de viçosos renovos, frágeis ainda mas vigorosos no aspecto. A aspiraçom a confiná-lo numha única organizaçom demonstrou-se ilusória, incompatível em todo caso com a estrutura orgánica e a ideologia latente e inquestionada que o BNG custodia imperturbável.

O nacionalismo é jovem, confirma-o a sua capacidade de mutaçom e a apariçom de viçosos renovos, frágeis ainda mas vigorosos no aspecto

Galiza como projecto nom cabe já, por fortuna, na praça da Quintana. As eleiçons ao Parlamento galego anunciam-se iminentes. A opiniom pública galega tomará a sua decisom tacteando como puder em meio da entusiasta balbúrdia da grei nacionalista à qual, apesar de todo, pertencemos. Afinal vai decidir o fastidioso invento dos antigos gregos, como manda o pragmatismo democrático. Tis agoreuein bouletai?, disque berrava à cidadania o pregoeiro em meio da ágora: Alguém quer dirigir-se à assembleia?

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