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Valentim Fagim

Quem vai gritar que o rei está nu?

A ideia de que o português devia ser uma língua estrangeira e diferente do galego foi desenvolvida por um grupo de pessoas, muitas delas filólogas, na década de 1970.

Foram cargos políticos os que a implementaram no Parlamento Galego em 1983, por motivações de todo o tipo, uns achando que era o melhor para o galego, outras achando ser o melhor para o castelhano.

Foram pessoas do mundo empresarial e cultural os que rentabilizaram essa política linguística repartindo entre elas os diferentes capitais gerados.

E foram técnicos/as de normalização linguística os que tentaram que desse o melhor de si.

Passaram várias décadas e algumas destas pessoas já não estão connosco. Estamos em setembro de 2016, às portas de umas eleições que vão marcar a política linguística nos próximos anos e, ligada a esta, ainda outras políticas: culturais, educativas, económicas, administrativas...
Os dados, os frios dados, mostram que a ideia de estrangeirar a língua de Portugal e do Brasil não foi eficaz nem para o galego nem para a sociedade:

- Segundo os dados do IGE, ano 2013, apenas 13,20% das pessoas entre 5 e 14 anos falam galego sempre. Não é alentador.
- O objetivo central do plano de normalização linguística de 2004 era "servir para que calquera poida vivir plenamente en galego". Já sabemos que é impossível com a estratégia atual. Só as pessoas que vivem o galego como sendo uma língua internacional conseguem aproximar-se deste objetivo: traduções, sites, apps, software, desenhos animados, filmes, documentários...

Portanto, a ideia de estrangeirar o português e separá-lo do galego foi uma péssima ideia e cada vez há mais pessoas que gritamos que o rei está nu. Ora, não todos os gritos têm a mesma potência e o rei continua a passear diante da sociedade, risonho e alheio ao barulho. Fariam falta mais e mais poderosos gritos para lhe torcer o gesto. 

Os criadores da estratégia atual dificilmente vão aceitar e reconhecer publicamente que se enganaram. É humano. Por aí nada vamos ouvir.

O mundo cultural e empresarial já está a perceber que as contas não dão mas… vão ficar à espera. É o esquema aquele que se diz às crianças quando vão cruzar num semáforo: nem os primeiros nem os últimos. É mais seguro. Quem não gosta da segurança?

As equipas de normalização linguística são as que melhor sabem, porque o sofrem, que o rei está sem roupa mas é difícil quebrar os hábitos, como todas sabemos.

E só nos resta a classe política. Ela tem as alavancas para que a mudança ocorra, entre um bocado de ar e sejam ensaiadas novas formas de fazer as cousas. Temos uma lei aprovada por unanimidade, Lei nº 1/2014 para o aproveitamento da lingua portuguesa e vínculos coa lusofonía, que oferece as linhas básicas para transitar por outros caminhos e mudar o relato, começar a deixar de perder e começar a ganhar. Tudo isto aplicando a velha estratégia, laica e científica, de tentativa e erro, deixando a fé para outros aspetos mais banais.

Porque, afinal, cada dia que passa é menos um dia para reverter a situação atual… e não resta muito tempo.

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