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Tiago Peres Gonçalves

A volta às origens

Como em muitos outros processos de construção nacional acontecidos na Europa do século XIX, os galeguistas que empreenderam a tarefa de imaginar uma normativa para o galego estavam divididos em duas grandes tendências: foneticistas e etimologistas. Dois grupos que entraram em colisão à medida que se foi difundindo a tradição medieval. O maior conhecimento das “raiganhas do idioma”, por utilizar a afortunada expressão de Carvalho Calero, fez que aumentassem os debates linguísticos nas revistas literárias e que em pleno regionalismo o setor maioritário da Escola Corunhesa defendesse a opção etimologista. Começava a pôr-se em questão a Gramática Gallega (1868) de Saco y Arce, que tinha sido o modelo seguido pela maior parte dos escritores do Ressurgimento Literário. Lembremos como o seu autor, apesar de ser consciente da utilidade dos estudos etimológicos e a vantagem que estes tinham para conhecer a origem dos vocábulos, opinava que: “aquellos estudios están destinados a los eruditos, los cuales sabrán superar cualquier dificultad producida por la falta de conformidad entre la etimologia y la actual escritura; mientras que la ortografia debe ser del dominio de todos, por lo que conviene simplificarla y ponerla al alcance de la multitud”1. As palavras de Saco y Arce resumiam à perfeição o pensamento da tendência foneticista: o caráter erudito da ortografía etimológica, o empenho em simplificá-la para colocá-la “al alcance de la multitud”, lugares-comuns da que posteriormente será conhecida como a normativa isolacionista.

Não obstante, em finais do século XIX já Martínez Salazar, que editara um dos textos mais importantes da prosa galega medieval, a Crónica Troiana, culpava a Saco y Arce de dividir os escritores com a sua proposta equista e afirmava em 1888 nas páginas de Galicia. Revista Regional que: “Poniendo á salvo el respeto que me merece el erudito trabajo del Sr. Saco y Arce, creo que las conclusiones que sienta en su ortografía, relativas al uso de la g, j, y x, perjudicaron en gran manera la pureza del idioma y ahondaron profundamente la división que reina entre los escritores galicianos”2.  Também Eduardo Pondal era, nas suas palavras: “un etimologista sin eufemismos ni ambages” e em 1896, Otro Fernández assinalava como: “también el Instituto de Francia, si no me equivoco, al acusar recibo á la Gramática gallega del malogrado Saco y Arce, le dió una desconsoladora contestación al elogiar su trabajo pero al decirle también que ya todo aquello era conocido por existir la Gramática portuguesa”3.

Podería colocar mais exemplos, mas acho que os anteriores são bastante ilustrativos dos desencontros que existiram a finais do século XIX sobre a normativa mais adequada para o nosso idioma. Uns debates que continuaram na etapa nacionalista. Como é sabido, o galego não chegaria a ter uma normativa unificada até 1982 com as famosas NOMIGA, onde ficou excluído o reintegracionismo. E os confrontos normativos entre isolacionistas e reintegracionistas contaminaram os estudos académicos. Assim, se o reintegracionismo defendia que toda a tradição do galeguismo histórico sempre tinha sido lusista, o isolacionismo considerava que os debates linguísticos acontecidos no século XIX tinham sido somente simples divergências em torno a alguns signos gráficos, e não um debate sistémico. No entanto, uma das principais estudiosas do nacionalismo, a historiadora Anne-Marie Thiesse, autora do livro “La Création des identités nationales”, tem assinalado como estes debates ortográficos foram, na verdade, debates de carácter sistémico entre voltar às origens, isto é, aos antigos textos medievais, ou construir uma normativa nova. Talvez a parte mais original do seu livro seja o estudo em termos comparativos da construção cultural de algumas nações europeias. Pesquisou, por exemplo, os enfrentamentos na Noruega entre os partidários do riksmaal e o landsmaal, ou o acontecido na Grécia entre os defensores da normativa demótica (que se refere às falas populares) e a Kathaveroussa (língua “purificada” ou grego antigo). Paradoxalmente, ambos exemplos foram utilizados por alguns galeguistas como referentes de comparação. Foi o caso de Florencio Vaamonde, um dos grandes defensores da ortografía etimológica da etapa regionalista e que, numa carta a Vilar Ponte em 16 de maio de 1916  manifestava o seu pessimismo pelo futuro da Galiza:

“A los pocos años de la conquista de Portugal por el Duque de Alba, los escritores portugueses en su mayor parte, escribían sus obras en castellano y se burlaban de los que escribían en portugués. Unidos los noruegos a los daneses pierden el nórdico y hoy lloran en su literatura una noche fatal de cuatro siglos. ¿Qué diré de los rumanos, griegos y polacos? Es preciso desengañarse, lo oficial puede mucho, solo cuando la personalidad jurídica de los pueblos se rehalle, despiertan estos de su letargo y lucha contra cualquier injerencia externa. Hácese Grecia independiente y discute enseguida si debe adoptar como lengua oficial la corriente o la antigua. Sepárase Noruega de Suecia y tratar de adoptar el maal, acordando, por último, seguir con el danés, pero con distinta ortografía para diferenciarse en algo del antiguo dominador”. 

Como se pode observar, Florencio Vaamonde conhecia as ideias linguísticas presentes em muitos países europeus.  Não foi o único. Um outro galeguista, Johám Vicente Viqueira, de volta das suas viagens aos Países Baixos e à Grécia evocava nas páginas de A Nossa Terra a proximidade entre a variante flamenga (Bélgica) e o Holandês:

“Para conseguer o que antes digo fan falla duas cousas con respecto da nosa lingua. Primeiramente fai falla afirmar o noso linguaxe literario. Por isto debemos imitar ôs paises que se encontraron na nosa situación (a Grecia, a Flandes e Cataluña), debemos estudar os clásicos galegos e os cuasi nosos clásicos portugueses asi como a nosa literatura portuguesa, e non como algunhos fan trascribir a fâla de aldeias xa corrompida e que corresponde ao castelán d´e Lopez Silva! - Segundo, para adaptar a nosa literatura ôs leitores portugueses temos que admitir a sua ortografía, e decir a hoxe válida en Portugal sômente com aquelas modificaciós (ben pequenas por certo!) que esixen as diferencias da lingua. Ise camiño xa foi seguido pol -os flamigantes na Bélxica que houberon de tomar a ortografía holandesa o que lles aumentou de maneira considerable os leitores---Fagámolo pois!””4.

Veja-se como Viqueira escreve o seu artigo em 1917, o mesmo ano em que o Parlamento Grego decide que a sua língua oficial seria o demótico, é dizer, aquele composto de diferentes dialectos populares. Talvez por isso, e pela urgência de chegar à ansiada unificação ortográfica, toma um claro posicionamento em favor da opção reintegracionista.

Os anteriores parágrafos mostram como muitos galeguistas que iniciaram a tarefa de construir a ideia da Galiza como nação, estavam influenciados pelas ideias linguísticas presentes em toda a Europa. Uma influência sempre esquecida ou desvalorizada por muitos estudiosos do nacionalismo. O verdadeiro debate em torno à normativa do galego tanto no provincialismo, bem como no regionalismo ou no tempo das Irmandades da Fala fora entre voltar às origens, ou imaginar uma normativa nova. Um debate que chega até aos nossos dias.

Para os que nos situamos dentro corrrente modernista de entender a construção das línguas e das nações, não nos deixa de resultar paradoxal a emotividade com a que se aborda tudo o que tenha que ver com a normativa do galego. O processo de construção do galego moderno foi uma autêntica “invenção da tradição”. Uma invenção com enorme sucesso, pois conseguiu fazer desaparecer da história oficial os partidários da outra tendência, mas não chegou a derrotar o reintegracionismo. Se as línguas, tal como as nações, não são realidades objectivas, mas sim construções sociais, o debate em torno à validez de uma determinada normativa carece de sentido. As duas opções são perfeitamente válidas. A pregunta, então, deveria ser outra. Qual das duas opções está em posição de garantir um futuro para o galego? Eis a verdadeira questão!

 

Notas

  1. Em SACO ARCE, J.A. (1868), Gramatica Gallega, Imprenta de Soto Freire: Lugo.
  2. “En tela de juicio”, Galicia. Revista Regional, Ano II, nº 4, Abril de 1888, pp.159-167.
  3. Em TORRES FEIJÓ, E. (1996), A Galiza em Portugal, Portugal em Galiza através das revistas literárias (1900-1936), Tese de doutoramento (inédita): Universidade de Santiago de Compostela (III Tomos).
  4. Em “D´un novo irmán. Duas ideias”, ANT, 22, 20/06/1917.

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