0 Gardados para despois

Suso Moinhos

O esperanto, cem anos após a morte de Zamenhof

Neste mês fai cem anos que faleceu Lejzer Zamenhof, o autor do esperanto, e a UNESCO convida a comemorá-lo. Judeu nacido em Białystok, cidade multicultural da Rússia (atualmente na Polónia), Zamenhof era o filho dum professor de línguas estrangeiras e já nos anos do licéu, antes de começar os estudos de medicina, queria inventar um idioma que servisse como segunda língua para pessoas de todo o mundo. Aquela idea, que hoje nos pode soar ingénua, cumpre inseri-la numha tradiçom de línguas artificiais que parte do Renacimento e chega até os nossos dias.

Em 1887 saía do prelo o primeiro livro em esperanto, em que Zamenhof descrevia sucintamente a língua e engadia dous poemas da sua pluma e algumhas traduções. Aquel folheto, editado nom sem dificuldades económicas, constituiu tamém o nacimento da literatura em esperanto, precisamente quando na Galiza florecia o Rexurdimento: o ano anterior Curros publicava O divino sainete, e um ano despois, Pondal fazia o mesmo com Queixumes dos pinos. É por isso que a literatura em esperanto ocupa o mesmo tempo que a literatura galega moderna, umha vez que ambas nacêromno mesmo período. Nos anos anteriores à oficializaçom do galego, a quantidade de títulos editados anualmente na nossa língua, na Galiza (187 em 1980), era comparável à dos editados na atualidade em esperanto (172 títulos em 2015). A posterior oficializaçom do galego disparou consideravelmente o número de títulos e o tamanho das tirages.

Os falantes de esperanto, que já foram perseguidos pola Alemanha nazi e polas purgas estalinistas, tampouco desfrutárom do beneplácito do franquismo

Os falantes de esperanto, que já foram perseguidos pola Alemanha nazi (por ser considerado o esperanto umha língua de judeus) e polas purgas estalinistas (acusados de serem espiões de países capitalistas), tampouco desfrutárom do beneplácito do franquismo: aos mortos na guerra e os fusilamentos posteriores (pois grande parte dos esperantistas estavam ligados a organizações de esquerda) houvo que sumar as ameaças, o medo às represálias e os repetidos incidentes cometidos polas autoridades. Quando mais adiante a ditadura foi permitindo as publicações noutras línguas para além do castelhano, na nossa terra naceu a editora Galaxia, que em 1951 publicou o seu primeiro livro. Um ano mais tarde, aproveitando essa pequena abertura do regime, Juan Régulo Pérez, professor da Universidade de La Laguna, em Tenerife, fundou a editora Stafeto, iniciando umha atividade essencial para a literatura esperantófona que se iria estender até 1975. Desde os anos 90 os componentes do chamado grupo ibérico tenhem destacado como uns dos mais importantes renovadores do panorama das letras no idioma internacional.

Mais a literatura é apenas umha das manifestações culturais desenvolvidas em esperanto. Outras som a música, o teatro, as emissões de rádio (atualmente  emitem, entre outras, a Rádio Internacional da China, a Rádio Havana Cuba ou a Rádio Vaticana), pero sobretodo a cultura dos encontros pessoais: viages, jornadas, festas e tamém congressos, dentre os quais sobressai o universal, que reúne miles de falantes de todo o mundo, e que este ano irá ter lugar em Seul, na Corea. A presença do esperanto na rede é notável, e a Wikipédia neste idioma tem 238.730 artigos, algo mais que as versões dinamarquesa e búlgara e a muita distáncia da versom em galego nom reintegrado.

Aceitar esta realidade nem sempre é fácil. As definições do vocábulo esperantista nos dicionários galegos e portugueses falam de pessoas que "estudam", "praticam" ou "defendem" o esperanto, quase nunca que o "falam". Os dicionaristas nom só obviam os falantes que aprendemos o esperanto como segunda língua e que o utilizamos quotidianamente: desconhecem tamém a existência de falantes nativos, muitas vezes criados no seo de famílias multiculturais, bem como os frequentes casos de transmissom intergeneracional do idioma.

O conceito acerca do esperanto entre nós é muitas vezes, na verdade, um preconceito

De facto, o conceito acerca do esperanto entre nós é muitas vezes, na verdade, um preconceito. O parágrafo do Sempre en Galiza em que Castelao menciona os homes que defendem um idioma universal, e acaba falando do cam da Turquia e o cavalo das Pampas, reproduzido até a saciedade nos livros de texto das escolas e traído à tona abundantemente em ensaios e unidades didáticas, tem contribuído gravemente para a construçom essa idea errónea. Jamais ninguém propujo o esperanto como umha língua "única para toda a nossa espécie". Mais adiante, porém, (Livro Segundo, cap. XXV), Castelao defende umha língua auxiliar internacional, umha segunda língua de ensino obrigatório em todas as escolas, como reaçom ao que hoje chamaríamos o imperialismo linguístico. A que distáncia nos encontramos hoje dessa situaçom?

Ao ensinar esperanto, educa-se a rapazada na interculturalidade, desde o respeito pola diversidade de idiomas e culturas, valorizando a língua própia em pé de igualdade com as restantes línguas do mundo, quer dizer, desde a dignidade e a ecologia linguística

Atualmente dezenas de miles de pessoas no mundo aprendem esperanto com aplicações como Duolingo ou Memrise, ou em sítios na rede como lernu.net ou kurso.com.br. A língua é ensinada em várias escolas e universidades no mundo, e a sua implantaçom no ensino nom universitário ia ser discutida no parlamento brasileiro antes do golpe de estado de Temer. Tem-se escrito muito sobre os aspetos positivos de introduzir o esperanto nas escolas, pero aqui gostaria de falar apenas da minha própia experiência como professor desta língua em vários países. Em primeiro lugar, o esperanto marca regularmente as categorias gramaticais (os substantivos acabam em –o, os adjectivos, em –a, e assi para a frente), e isto redunda num maior conhecimento da língua materna e prepara para o aprendizado doutras. A estrutura da formaçom de palavras, que o emparenta com o japonês, o turco ou o guarani, e o caráter constante e combinável dos elementos das palavras, que o achega ao chinês e ao vietnamita, tornam o esperanto umha língua mui atrativa para ampliar os conceitos relativos à lingüística e para a criatividade. Pero sem dúvida o mais importante é que, ao ensinar esperanto, educa-se a rapazada na interculturalidade, desde o respeito pola diversidade de idiomas e culturas, valorizando a língua própia em pé de igualdade com as restantes línguas do mundo, quer dizer, desde a dignidade e a ecologia linguística.

Polo contrário, insistir no ensino indiscriminado do inglês (o qual nom é mais que o resultado dumha agressiva política linguística internacional dos países anglófonos, como tenhem denunciado Tobe Skutnabb-Kangas ou Robert Phillipson), outorgar ao inglês, que nom tem estátus de cooficial, mais privilégios que ao galego, colocar por riba das demais as culturas que se esprimem em inglês, é o equivalente a ceder perante a multinacional dos monocultivos, mais trocando as leiras polo quadro do ensino público galego.

Aula de esperanto numha escola pública da Sicília

Acerca de Suso Moinhos

Nacim em Vigo em 1970 e estudei Filologia Galega na Universidade de Santiago de Compostela, em cujo Instituto de Idiomas dei aulas de esperanto. Atualmente estou a tirar o curso de pós-graduaçom de Estudos de Interlinguística da Universidade Adam Mickiewicz em Poznań, Polónia. Escrevo em esperanto e alguns poemas meus tenhem recebido prémios em concursos e aparecido nas revistas Esperanto, Beletra Almanako, Rio Esperantista, Zagreba Esperantisto, Caja de Resistencia (em traduçom para o espanhol), bem como na antologia Nova mondo en niaj koroj (2016). O meu primeiro poemário intitula-se Laminarioj (2016) e foi publicado na editora eslovaca Espero. Estou a traduzir Memorias dun neno labrego para o esperanto. Desde 2015 fago parte da equipa de redatores da revista literária Beletra Almanako e redijo o módulo de literatura do curso em linha RITE para professores de esperanto.