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Joám Lopes Facal

Pode Feijoo mandar crescer o PIB?

Necessitamos crescer para gerar emprego, estamos à espera de que alguém aí fora dê a ordem e active o crédito. O PIB galego no entanto caiu 0,5 pontos percentuais no primeiro trimestre deste ano em relaçom com o mesmo trimestre do ano anterior enquanto o desemprego escala já até os 265.600 desocupados. A oposiçom, no seu papel, desqualifica a Feijoo pola incapacidade que manifesta perante a crítica situaçom mentres este tenta aparentar olímpica serenidade ante a adversidade. Engana-se o presidente em revestir de calma o que é resignaçom e engana-se a oposiçom em reclamar poderes taumatúrgicos onde nom existem.

Falta sinceridade num e noutro caso, e capacidade de liderado para solicitar coragem da cidadania e oferecer um programa verosímil de saída. Som vítimas, uns e outros, das práticas habituais da política, mais preocupada de sempre polos titulares da imprensa que polo mudo clamor social

Falta sinceridade num e noutro caso, e capacidade de liderado para solicitar coragem da cidadania e oferecer um programa verosímil de saída. Som vítimas, uns e outros, das práticas habituais da política, mais preocupada de sempre polos titulares da imprensa que polo mudo clamor social. Comportamentos que contribuem, em todo caso, a manter nessa perpétua minoria de idade da cidadania da qual pretendia resgatá-la o nobre discurso ilustrado desde Kant mesmo. A ingênua confrontaçom entre táctica de desgaste e pueril dissimulo carece de qualquer interesse, além de defraudar umha opiniom pública assediada pola ausência de perspectivas.

A hipótese de que o comportamento do PIB galego obedece ao desleixo governamental é tam ridícula como a pretensom simétrica de que qualquer melhora circunstancial deva ser agradecida ao governo

Paremos mentes na suposta responsabilidade da Junta polo deterioro do PIB e o emprego e assumamos por um momento que tal situaçom procede do seu péssimo manejo das contas públicas. A hipótese de que o comportamento do PIB galego obedece ao desleixo governamental é tam ridícula como a pretensom simétrica de que qualquer melhora circunstancial deva ser agradecida ao governo. O impacto das políticas públicas é sempre indirecto -a produçom e o emprego emanam da iniciativa privada- e, além disso, o hipotético impacto das políticas públicas requeriria meios suficientes, tempo e perseverança. Por nom falar da necessária decisom política, tam fora da intençom dum partido tam devoto do mercado como o que nos governa.

Observemos como as flutuaçons do PIB galego nos últimos anos se acompassam com as do PIB espanhol. Será preciso sublinhar ainda os vínculos da nossa economia com a espanhola e os desta com a economia europeia? A capacidade de Feijoo para movimentar o conjunto da nossa economia nom é mui superior à que tem para condicionar a espanhola. Espanha é, em qualquer caso, umha regiom de Europa -escusado lembrá-lo- e a hora económica desta aponta ortodoxia económica, como manda a CDU de Angela Merkel.

Teríamos que supor em consequência um crescimento de 1.000 ou 2.000 milhons do PIB para que o desemprego começasse a ceder

O PIB de Galiza no 2011 situou-se em 58,6 milhares de milhons de euros (21.700 euros/habitante) e o seu orçamento em 9,7 m.m. (3.600 euros/habitante): 17% do PIB, portanto. Umha centésima de crescimento do PIB, o 1%, requer das unidades produtivas a geraçom de 600 milhons de euros adicionais num ano, a distribuir entre salários, excedentes empresariais e IVA. O hipotético incremento do 1% poderia chegar a induzir 10.000 novos empregos: 1% da ocupaçom total que apenas supera o milhon de empregados de todo tipo. Este hipotético impacto sobre o emprego é mais que improvável, a produçom pode incrementar num 1%, 2% ou 3% sem por isso criar emprego, por causa da capacidade produtiva ociosa por nom falar da evoluçom da populaçom activa.

Teríamos que supor em consequência um crescimento de 1.000 ou 2.000 milhons do PIB para que o desemprego começasse a ceder. Mui longe da capacidade reactivadora do orçamento galego. Mais das suas ¾ partes vam a cobrir gasto sanitário (36,5%), educativo (23%) e assistencial (10,5%) e a atender os pagamentos da dívida contraída (6,4%). O resto tem muitos peticionários. E, o mais importante, o investimento anual da economia galega, fonte do seu crescimento, duplica praticamente o importe de todo o orçamento. Nada a fazer daquela desde o ámbito político?

Nada a fazer daquela desde o ámbito político? Tantas cousas! Poderíamos começar por um pacto parlamentário público e solene capaz de resgatar os grandes programas do jogo mesquinho de culpa-e-desculpa

Tantas cousas! Poderíamos começar por um pacto parlamentário público e solene capaz de resgatar os grandes programas do jogo mesquinho de culpa-e-desculpa: a ordenaçom do território e o litoral, a política de tratamento de lixo, a protecçom da água, o saneamento de rios e das rias, os programas de infra-estruturas, os grandes equipamentos públicos como os hospitais. Para seguir nom estaria mal um acordo sensato de simplificaçom do mapa municipal, de eliminaçom progressiva das Deputaçons, de alívio da burocracia insolente por médio da informática e a ajuda personalizada. Poderíamos continuar com acordos dirigidos a desactivar a demagogia dos poderes locais em assuntos de interesse geral como a ordenaçom universitária e aeroportuária ou a delimitaçom e quadro de competências das grandes áreas urbanas, sem esquecer a supressom da fidelidade política como mérito preferente na concessom de ajudas a entidades locais.

Seria também de agradecer a despolitizaçom dos meios de comunicaçom pública e o mais estrito controlo das dádivas orçamentárias destinadas a captar a benevolência ou entusiasmo -segundo o jornal- da imprensa polo governo reinante

Finalmente, se nom fosse muito pedir, seria também de agradecer a despolitizaçom dos meios de comunicaçom pública e o mais estrito controlo das dádivas orçamentárias destinadas a captar a benevolência ou entusiasmo -segundo o jornal- da imprensa polo governo reinante, sem esquecermos a dissoluçom da desconfiança instalada sobre a equidade e publicidade de convocatórias e concursos públicos.

O temário da construçom nacional, pois disso se trata, continua aberto. É a hora da política agora que o público foge da comédia

A nossa sociedade, assediada pola crise e atemorizada por um futuro incerto, assiste perplexa ao torneio de habilidosas cambadelas entre as forças políticas que já dérom origem à frutos tam mirrados como a convocatória supérflua e extemporánea dum concurso eólico finalmente fracassado e a comédia de enredos entre actores secundários que acompanhou o processo de extinçom do sistema financeiro galego. Como é costumado dizer: há direito a isto? O temário da construçom nacional, pois disso se trata, continua aberto. É a hora da política agora que o público foge da comédia.

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