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Ramiro Vidal Alvarinho

Nom calarám os scratches da verdade

Em boca dos próprios padrinhos do rap, aquela geraçom de músicos já lendária formada por Public Enemy, Afrika Bambaataa ou Run DMC entre outros, o rap (Rapsody and Poertry) é umha combinaçom entre poesia, política e tecnologia. A juventude procurava no lixo componhentes para as suas parelhagens, reciclagem tecnológica pura, para sonar mais potentes, para que se escuitaram com maior força esses discos rasgados e com os graves elevados ao máximo, para que se lhes ouvira a percusom e o baixo a esses discos de ska, de reggae, de soul. Eram tempos de luita, som tempos de luita. Nom há rap sem luita. Em Nova Iorque, em Philadelphia ou em Los Angeles, esta música está ligada à luita do povo afro-americano, da gente preta, polos seus direitos. Também há fenômenos ligados ou relacionados de algumha maneira com o hip-hop que nada têm a ver com a luita, a mercantilizaçom dos fenômenos musicais tem estas cousas.

Aquí, sob as leis e o ferro do falente estado espanhol, rap é luita também...rapea-se em línguas minorizadas, rapea-se contra a marginaçom, rapea-se contra a deriva autoritária do estado, contra a violência policial, contra a guerra suja, contra a corrupçom...e nom sai de graça. O aparelho judicial, sem absolutamente nengum rubor, envia a prisom ou impom multas astronômicas a artistas por criticar ao governo, a membros da oligarquia, ou à coroa, por exemplo, ou por manifestar solidariedade ou simpatia cara um coletivo de presos políticos. Isto último provoca a absurda situaçom de encarcerar por motivos políticos a pessoal que precisamente denuncia a realidade de que nas cadeias deste estado há presos que estám entre barrotes pola sua militância.

Dizia Pablo Hasel no último juízo ao que foi submetido: “a ver se vou ter eu a culpa de que o Rei (da Espanha) pague com fundos públicos as suas caçarias ou que se utilice também dinheiro público para comprar o silêncio das suas amantes”. O problema nom é sequer que pretensamente, quando se denunciam as vergonhas da monarquia, se esteja a injuriar ao monarca...o problema é que tu por ser tu, por teres-te significado ideologicamente, menciones sequer a essa figura praticamente intocável. As críticas à monarquia só as podem fazer as vozes autorizadas para exercer de críticas, e sempre por canles homologadas. Um rapeiro, nom tem nada que dizer a nom ser que aceite converter-se num bufom do sistema que se dedica a rimar bobagens machistas e a voziferar a sua superioridade artística sobre os demais. Um rapeiro que fala de política é umha impertinência, porque  o último que lhe interessa a um sistema que se quer perpetuar por cima de toda lógica e de toda justiça é que a juventude opine sobre política. A juventude tem tendência natural a pôr em causa o estabelecido e isso é um importúnio.

O rap é luita, nasceu nos bairros de maioria preta das cidades dos USA, tem reminiscências africanas e caribenhas...neste recuncho da Europa, o rap habita e cresce cultivado por vozes da juventude operária de lugares como Teis, Carança, a Sagrada Família, Vite, Vallecas, Nou Barris ou Tres Mil Viviendas. Mas essas vozes estorvam. A crítica política permite-se-lhe à farândula leal ao regime e a determinadas vozes do grêmio jornalístico também leais ao regime. A incorreçom política permite-se-lhe à direita. Agora os “rebeldes” som os reacionários, mas por decreto do poder...porque os artistas reacionários devem exercer de propagandistas da involuçom que pretendem que se dea na sociedade e nas instituiçons do estado. Politicamente incorretos som Bertín Osborne, Moncho Borrajo e Manquiña ou entom conversos como Ramoncín ou Loquillo aos que a sua fasquia post-rockeira parece-lhes fornecer de umha autoridade moral entre certas capas da opiniom pública. Os que realmente criticam aos poderosos e à ordem estabelecida, ou som trasnoitados, ou som mantidos, ou diretamente som terroristas,segundo o relato oficial.

Eu nom tenho o dom da música, se o tivesse nom estaria provavelmente escrevendo este artigo, nem publicaria livros de poemas e, em lugar de recitar (por chamar-lhe de algumha maneira) a duras penas, o que faria seria cantar ou rapear. Sei que por muito que o intentasse nunca o conseguiria. Admiro ao músico que nom se endeusa nem se abstrai da realidade. Admiro ao poeta que intervem na realidade e a denuncia. Nom acredito na arte que vive para os prêmios e o mercado exclussivamente, ainda que me parece respeitável pretender fazer de umha atividade artística umha profissom. Desde a minha modestíssima posiçom, já que eu só tenho os meus dedos para escrever, manifesto a minha solidariedade com estes artistas combativos agora em horas difíceis. Estou mais com eles do que com muitos que sobre o papel deveriam ser próximos a mim. Só poido acrescentar que no fundo, apesar do dano que esta repressom produz, ela é sintoma da debilidade de um regime que está na corda de bamba. Oxalá isto seja o começo do final.

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Acerca de Ramiro Vidal Alvarinho

Ramiro Vidal Alvarinho é escritor e ativista cultural, milita na esquerda independentista e colabora em vários méios digitais cultivando o artigo de opiniom. Também escreve relato curto e poesia.