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Joám Lopes Facal

Com vocaçom de maioria, hipóteses para um debate (e III)

No actual momento da Galiza, a vantagem do discurso raiz social-democrata estriba na sólida conexom com umha dilatada tradiçom política que vai das propostas do comunismo em liberdade ao sócio liberalismo que partindo de Stuart Mill chega a Keynes, Rawls ou Amartya Sen. Tal posiçom, altamente inclusiva, nada tem a ver por certo com qualquer hipótese de incorporaçom ao espaço social-democrata delimitado pola IS refundada em 1951. A melhor aproximaçom a este espaço, amplo e pouco conotado, está na tipologia política desenvolvida por Manuel e Pablo Moreno — pai e filho — no livro por eles dedicado à disjuntiva social-democracia ↔ liberalismo1 em que o discurso social-democrata fica como centro do triángulo nocional que tem por vértices o socialismo ↔ populismo, o comunitarismo ↔ ecosocialismo e o(s) liberalismo(s), individualizados polas suas diferenças respectivas em valores, objectivos, meios e critérios de justiça.

A dificuldade pratica para avançar na perspectiva de umha confluência estratégica capaz de inquietar o plácido exercício do poder afinca, sobre todo, no patriotismo orgánico inerente a toda organizaçom viva. O espectro político potencialmente concorrente vai do difuso ideário paleo comunista que inspira o núcleo rector do BNG à heterogeneidade política das Marés, unidas por um ideal de democracia participativa, de índole puramente procedimental. Onerosa carga de arcaísmo ideológico num pólo, levidade política no outro. Ortodoxia latente frente a experimentalismo constituinte.

O BNG custodia um sólido ideário nacional que pretende moldar o discurso de Castelao em formato vagamente comunista apoiado num tenaz corpo militante. A fluidez teórica, disseminaçom territorial e fragilidade organizativa caracterizam as Marés. Seria possível abrirem um debate interno, umha e outra força, com o objectivo comum de actualizar discursos e organizaçom para tentar dar canle às aspiraçons colectivas emergentes com expectativa de governar? Afinal, só a formulaçom e gestom do orçamento público garante umha agenda de mudança.

Sem intençom de simplificar, é tentador interpretar o BNG na esteira patriótica do Partido Galeguista de Castelao e as Marés na tradiçom cívica e popular do republicanismo de esquerda encarnada na ORGA de Casares Quiroga e Vilar Ponte. Hoje como ontem, a impossibilidade de coordenar agendas e ideários pode estragar o potencial mobilizador que agroma em demanda implícita de um programa regeneracionista digno de confiança.

O sentido da realidade avisa-nos que a inevitável lógica da competência e choque de culturas que frustrou a confluência do Partido Galeguista com a Orga aconselha abaixar as expectativas ao nível de cortês competência cooperativa em mútuo benefício. A perspectiva de confluência política e social, capaz de alimentar umha nova maioria parlamentar e social polo autogoverno nacional e o progresso social inclusivo é pouco congruente com a tradiçom inveterada de desconfiança e desqualificaçom mútua.

Contodo, a perspectiva está na ordem do dia. A crise dos equilíbrios que sustentam o Estado das autonomias é patente na franja galeuzcana, com a excepçom de Galiza, única nacionalidade histórica sumida em apática indiferença por desleixo e anestesia política aplicada. A inquietaçom social reprimida começa a espreguiçar-se depois de um decénio de deterioro das condiçons laborais e intolerável crescimento das diferenças sociais que abalam o incipiente ensaio de sociedade inclusiva. A situaçom parece reclamar um agente receptor capaz de formular a agenda adequada.

O espaço político evocado é o formado polas forças situadas extramuros do bipartidismo decadente, reconhecível pola preposiçom "de" alusiva à filiaçom externa: PPdeG e PSdeG. Sem por isso desmerecer a presença do PSdeG, imprescindível em qualquer cenário de mudança, caso seja capaz de neutralizar a doença crónica de cesarismo localista que o tolhe e o incapacita para configurar um espaço nacional alternativo.

O espaço disponível para a mudança está formado na actualidade polos grupos parlamentares do BNG (6/75 deputados) e das Marés (14/75 deputados mais 5/350 no Congresso mais 1/266 mais no Senado). O pólo patriótico do BNG conta agora mesmo com o laboratório de ensaio político em plena actividade do independentismo catalám com a cautelosa reserva transitória do nacionalismo basco. O radicalismo municipalista das Marés tem outro mui activo no Concelho de Barcelona, o Parlament e o Congresso (11/41 Concelho, 1/135 Parlament, 4/350 Congresso dos Deputados). Um rico campo experimental no sentido de Axel Honneth.

De naçom-cultura qualifica Ramón Villares a Galiza no se último livro; quaisquer que sejam as reservas que caiba fazer ao conceito, ele tem a grande virtude de magnificar a raiz eminentemente cultural, lingüística mesmo, do projecto nacional galego. Assumido como decisivo este vector do projecto nacional, acaso nom parece chegado o momento de avançar na constituiçom de um potente foro galego de entidades culturais, unitário e plural? Pensemos naquelas dedicadas á defesa da língua e o activismo social, nas de carácter lúdico e desportivo, de promoçom literária, de ensinança, de ediçom em galego e assi por diante. A fragmentaçom imperante em tempos de mobilidade fácil e internet imediata resulta tam arcaica como inoperante.

Ë preciso nom desatender, com certeza, a dimensom utópica apagada polas experiências distópicas do século XX; essas que Ernst Bloch evocava no princípio esperança remoído no seu exílio norte-americano. A sóbria chatice do projeto de raiz social-democrata deve apreender a competir no campo simbólico onde se tempera o ánimo activista. A imaginaçom emancipadora requer um imaginário aliciante. Dissolver o cepticismo reinante é um labor imprescindível. Podem ser de ajuda os cenários das utopias realizáveis evocados por Olin Wright2 num estimulante trabalho de recente apariçom. A voz autorizada de Ramón Máiz tem-nos leccionado de que a razom nom é a última instancia da política, que antes e depois estám as opçons éticas, as convicçons: a paixom.

Estamos em vésperas eleitorais, boa ocasiom para ponderar o peso social dos projectos prestes a impulsionar o projecto nacional. Depois de feito o reconto seria oportuno congregarem-se as forças regeneracionistas para pensar um programa de progresso social com objectivos precisos e compromissos explícitos. Um governo comprometido com umha mudança reflexiva e firme, sem gesticulaçons, de ampla base parlamentar.

Fica por diante um vasto programa de mobilizaçom e selecçom de quadros técnicos capazes e reconhecíveis. Há muito tempo que a democracia británica inventou a figura de governo na sombra; sem chegar a tanto, seria suficiente a socializaçom nos meios de figuras em que concorram competência técnica e lealdade galeguista. A sociedade volveu-se cautelosa e pouco inclinada a confiar em oradores sem programa e doutrinários acovilhados na sombra.

Pensar ao grande e proclamá-lo publicamente é umha precondiçom para superar a inércia timorata que mantem as forças de mudança acampadas nos seus exíguos refúgios identitários enquanto a sociedade exige respostas imediatas.

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