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Ramiro Vidal Alvarinho

Uma geração no banco dos acusados

Quando um tem muitos anos de música às suas costas, vai deixando atrás referentes; o que acontece é que no momento menos esperado surge um acontecimento que revaloriza aquilo que consideravas superado.

A repressão revaloriza a La Polla Record's, ao rock radical basco e ao punk

A repressão revaloriza a La Polla Record's, ao rock radical basco e ao punk. Porque La Polla caminha em paralelo a essas duas linhas que se encontram na sua trajetória de maneira necessária e geram uma interação muitas vezes polêmica, mas real. A começos dos anos oitenta em Euskal Herria aparecem bandas de rock em cada recuncho de cada localidade. Eskorbuto em Barakaldo, MCD em Bilbau, Potato em Gasteiz, Barricada e Tijuana in Blue em Iruña...e num povo que se encontra quase na raia entre Araba e Nafarroa, La Polla Record's. Por citar só algumas. La Polla nasce concretamente no ano 79, quando a morte de Sid Vicious converte aos Sex Pistols em lenda e marca um antes e um depois no punk. Quando nasce La Polla, The Clash é uma banda estandarte do rock mais político em Londres e bandas como Agnostic Front ou Ramones dão os seus primeiros passos no mítico CBGB neoiorquino. Por contextualizar.

Se há um facto que poderia marcar o particular antes e depois do rock radical basco é o encarceramento de Eskorbuto pelo seu polêmico tema “ETA”

Se há um facto que poderia marcar o particular antes e depois do rock radical basco é o encarceramento de Eskorbuto pelo seu polêmico tema “ETA”. Um lê a dia de hoje a letra desse tema e até lhe parecerá ingênua, mas é real que lhes custou uma temporada entre barrotes aos seus autores. Isto somado ao silenciamento mediático a respeito deste fenômeno social, político e musical converteu o material destas bandas numa espécie de fruta prohibida não apenas para o pessoal que gosta do punk...realmente converteu-se na canção protesto da penúltima década do S. XX ocupando o lugar que nos anos setenta tiveram os cantautores.

La Polla Record's foi um grito contra o autoritarismo e as contradições daquela sociedade que saia de uma ditadura autocrática para meter-se pela via em falso da constitução de 78, onde a igreja católica continuava a mandar demasiado, onde o exército condicionava a vida dos jovens obrigando-os a entregar um ano da sua existência, onde a heroína introduzida pelo aparelho de estado para financiar a guerra suja contra a esquerda abertzale levava vidas a diário. As letras de La Polla não deixavam convencionalismo social, instituição ou poder fáctico sem satirizar. Plagiavam melodias de temas conhecidos de bandas da primeira new wave e o punk britânicos, como Buzzcocks ou The Boys e acrescentavam letras em espanhol aludindo a factos e situações perfeitamente identificáveis pelo seu público. Provavelmente é a banda punk em espanhol mais influinte no mundo, já que tem fães em todo o estado espanhol e a América Latina.

Hoje o frontman indiscutível de La Polla é vocalista de Gatillazo. A minha opinião particular é que Evaristo Páramos é um dos melhores letristas do rock em espanhol; de facto o rock em espanhol não anda sobrado de bons letristas. Poderia dizer que “Barrio conflictivo” de Barricada e “Cucarachas” de Leño são das poucas músicas do rock em espanhol que poderiamos considerar hinos. Mas a ironia e o humor incissivos do Evaristo são inigualáveis. Depois há letras mais raivosas como “Salve” ou “La Tortura” que se enquadrariam na categoria dos “temas para cantar com o punho em alto”. Tanto antes os shows de La Polla como hoje os shows de Gatillazo vão tingidos invariavelmente da atitude provocadora e a incontinência verbal do Evaristo. Isto foi assim desde os começos, durante décadas.

Ao amparo da “Ley Mordaza”, acabam de identificar e provavelmente multar (ignoro se há algum precedente) ao Evaristo Páramos. Há tempo que se leva dizendo: há trinta anos as letras de Cicatriz, MCD, Distorsión, Eskorbuto, La Polla, Vómito...diziam o que diziam de uma maneira explícita, sem metáforas nem nada parecido. E numa tarde-noite de Maio de 2018 aparece a Guardia Civil num festival e identifica e denuncia ao Evaristo, ao parecer não pelo conteúdo das suas letras, mas porque chamou aos polícias “filhos da puta” desde o cenário. Por muito que o motivo oficial for esse, eu intentando olhar mais aló dos factos pontuais, não posso evitar pensar que se quer fazer cair o peso da “Ley Mordaza” com caráter retroativo sobre alguém que é todo um símbolo para muita gente, ainda que não saia nunca na televisão. Que isto não vai parar aquí, e que irão a por Evaristo e a por outros.

Era visto que este dia tinha que chegar. É demasiado tempo escutando aquilo de “Somos los nietos de los obreros que nunca pudísteis matar”

E se julgam ao rock radical basco julgam a todos os que no seu dia tivemos nele uma referência musical e, nalgum caso, mais aló do musical. Julgam aos que tivemos em “Generales anormales” de Distorsión todo um hino anti-militarista, em “Squatters” de MCD um alegato em favor da okupação ou em “Terrorismo policial” de RIP um berro anti-repressivo.

Era visto que este dia tinha que chegar. É demasiado tempo escutando aquilo de “Somos los nietos de los obreros que nunca pudísteis matar”.

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Acerca de Ramiro Vidal Alvarinho

Ramiro Vidal Alvarinho é escritor e ativista cultural, milita na esquerda independentista e colabora em vários méios digitais cultivando o artigo de opiniom. Também escreve relato curto e poesia.