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Miguel Anxo Abraira

Marxismo e Decrescimento

*Refutando “A natureza e os limites do capitalismo” de Maurício Castro.

Caro Maurício vou dar por feito que sabes algo de marxismo mas permite indicar, sem intenção de ofender, que pouco ou nada sabes de Decrescimento. Este feito fica claro nos ataques gratuitos e sem fundamento que fazes ao Decrescimento. Tampouco me colhem por surpresa os ataques e as insinuações de traição, já que por desgraça está atitude é algo bastante habitual nas entornas de purismo verbal e praxe pouco concreta que tende a dar-se em determinados entorno políticos da Galiza.

Dizes no teu artigo “Marx afirma estar no trabalho e na natureza a origem de toda a riqueza social” e está afirmação é a que me permite chegar a conclusão do grão desconhecimento que as tuas palavras terem sobre Decrescimento. Se tiveras profundado um pouco sobre Decrescimento saberias que o nosso discurso faz finca-pé justamente na segunda parte desta ideia. Muitas entendemos que é preciso analisar o momento atual do capitalismo global colocando o foco na riqueza que tem a origem na natureza e nos recursos do planeta em detrimento da importância que noutra hora teve a riqueza produzida por médio do trabalho. O modelo capitalista de crescimento continuo sobardou, há tempo, a capacidade de regeneração do planeta. Chega com dizer que nos primeiros dias deste mês de agosto a humanidade terá consumidos todos os recursos renováveis que o planeta é quem de gerar em todo o 2018. Também é preciso destacar que o momento atual (o que começa no ano 2005 que é quando se dá o peak oil do petróleo convencional) tem como característica principal a introdução duma variável inversa a que se deu durante toda, ou case toda, a época industrial. Estou a referir ao feito que desde o 2005 a humanidade e, pelo tanto, o seu mecanismo de produção de bens conta cada dia com menos energia disponível para o seu uso que o dia anterior.

Entendo que não deveria ser necessário destacar que o sobordamento da capacidade de regeneração dos ecossistemas  do planeta, que deu lugar ao que hoje se denomina a “Grão fatura do metabolismo universal da natureza” foi possível as fontes energéticas fósseis. As energias fósseis terem uma grão importância para a nossa sociedade que é altamente dependente desta energia   pois conforma  a base do processo produtivo de bens e serviços. Também e fundamental para o mantimento do equilíbrio do status quo vigente e,  sobre todo configura de tal forma as características fundamentais da nossa sociedade que permite falar da civilização fossilista capitalista.

Outra coisa que é preciso ter em conta e que o capitalismo ao ter sobardado a capacidade de regeneração do planeta e esgotado os seus recursos não renováveis mais acessíveis, provocou um importante declive na capacidade de produção e pelo tanto de acumulação (fim último do capitalismo) da riqueza social extraída à natureza. É por esta razão que o capital (grão capital) iniciou há poucos anos uma nova fase de acumulação baseada, agora, em roubar uma percentagem maior do valor acrescentado  produzido com o trabalho e também roubar parte dos direitos às classes trabalhadoras que são costeados com os impostos, para deste jeito suprir a perda de benefícios que ate o de agora se extraia da natureza e dos recursos do planeta. Neste ponto, as pessoas Decrescentistas chegamos a dizer, a modo de alerta e a quem queira escutar, que a abolição da escravatura em ocidente se deu em boa medida por mor da aparição da tecnologia que permitiu usar as energias fósseis.

Dizes, também, no teu artigo que o problema não são os limites físicos do planeta, os cais reconheces, (algo é algo) senão a maneira em como lidamos com a fim desses recursos. Seria bom que explicasses qual é a alternativa que propões para, quando menos, equilibrar o consumo atual desses recursos em excesso sem apostar pelo Decrescimento. O Decrescimento defende a redução global de consumos supérfluos e também a redução do consumo voraz dos recursos por parte das sociedades e  dos sectores sociais  que consumirão e consumem em excesso esses recursos finitos. Outra apreciação que tenho que fazer é que resulta bastante evidente e que  tendes a confundir o Decrescimento com o movimento ecologista  e pensas que  a teoria da  fratura no metabolismo universal da natureza de Marx explica com mais atino a rotura do equilíbrio ecológico que produziu a atividade humana e industrial. Dizer, que muito me temo, que Marx ainda que compreendeu perfeitamente muitos dos perigos de romper o vinculo das relações humanas com o médio natural  nunca chegou a imaginar que a atividade humana ia ter a capacidade de provocar a sexta extinção massiva de plantas e animais e cambiar tanto a face do nosso planeta como para provocar de jeito artificial o passo do holoceno ao antropoceno. O antropoceno é  produto do complexo produtivo industrial da humanidade (permite que neste caso não carregue as culpas exclusivas no modelo capitalista) baseado na queima massiva de energias fósseis. Esta queima, com outros usos dados aos recursos de origem fóssil, que começou no 1750 aproximadamente, deu lugar ao cambio de paradigma social e económico conhecido como revolução industrial. Dado que tanto o carvão, como o petróleo e o gás natural são produtos finitos, dos quais, se leva ou se está a piques de ter consumido o 50 % das existências mundiais com um consumo de crescimento  exponencial desde o principio– entorno ao 25 % da existência total do petróleo mundial foi consumida nos últimos 25 anos- cabe pensar que a sua fim esta perto. Tendo em conta a grande importância que terem estas energias na atualidade e lógico pensar que a sua desaparição da sociedade e das cadeias produtivas industriais, vai provocar um novo cambio de paradigma social e económico da importância ao tido lugar nos séculos XVIII e XIX.  Chegado a este ponto que pensas que é melhor fazer: seguir a falar das contradições duma sociedade que já não existe por ter começado a sua decadência, agonia e desaparição ou fazer uma analise intentando antecipar acontecimentos, para colher vantagem?

O Decrescimento não se contrapõe ao pensamento marxista mais bem analisa desde uma visão marxista o que vai acontecer nos vindouros anos (25-50) com o esgotamento de todas as fontes energéticas não renováveis (carvão, petróleos, gás natural e urânio) e coa incerteza climática e alimentar produto da mudança climática e, ademais, chama a repensar a sociedade desde abaixo, para evitar a aparição de governos eco-fascistas promovidos pelo grão capital.  Muito me temo que o atual cambio de paradigma esta parindo  uma nova escravatura que tem a ponta do seu icebergue numa nova classe social que é a classe despojada (de propriedades, de bens produtivos, de trabalho, de prestações sociais, de direitos, ….). Se queremos evitar esta situação temos que repensar, antecipar e atuar.

Penso que entendemos que o capitalismo é, muito mais que um sistema económico de acumulação baseado na produção em crescimento continuo da riqueza social produzida pelo fator trabalho e a espoliação da natureza com o uso massivo de energias fósseis, pois o capitalismo é também um conjunto de crenças e condutas que deu lugar ao individuo capitalista à par que à sociedade fossilista capitalista. O Decrescimento, também é muito mais que um movimento ecológico ou naturista, já que as suas contraproposta à sociedade fossilista capitalista terem como intenção aproveitar o cambio paradigma na que esta imersa a humanidade para superar a cultura da dominação em qualquer das suas vertente; restabelecendo as relações e condutas humanas  entre si e com o território e o entorno natural, modificando a escala de valores individual e coletiva para situar no centro da mesma as coisas que terem que ver com o mantimento da vida e as relações sociais satisfatórias baseando estas na colaboração e os cuidados.

O Decrescimento, não é pelo tanto um simples movimento ecologista e muito menos defende um regresso ao passado. Não defendemos um regresso ao passado em primeiro lugar porque não somos donos de nenhuma máquina do tempo que permita esta ações e em segundo lugar porque somos muito conscientes que todo avança cara adiante. Que avance não quer dizer que esse avance tenha que estar baseado no crescimento continuo. Sabias que um crescimento continuo do 3% anual faz que a economia se duplique em 24 anos e que pelo tanto os recursos necessários para esse crescimento tenha que duplicar também. Não vou deixar de citar, neste ponto, que o próprio Marx (Tomo I “O Capital”) entendia que a produção social e as necessidades autenticas da humanidade deveriam estar submetidas a unha sorte de lei biológica ou ecológica. É também no Capital (Tomo III)  e donde Marx introduz ideias como a “sustentabilidade e o principio de precaução” antecipando, ate certo ponto, as recomendações do Clube de Roma (1970).

Os ataques nos que argumentas que o Decrescimento tem raízes no “materialismo vulgar” é sem dúvida uma falha de formação e leitura e por isso interpretas que a parte do discurso Decrescentista que defende a necessidade de realizar um cambio interior individual da escala de valores se assenta numa conceção mística ou religiosa da natureza das coisas e das relações. O discurso do cambio interior do Decrescimento  tem a ver com rachar com os valores inculcados em nós pela sociedade fossilista capitalista, desde que somos crianças por médio do sistema educativo, os médios de comunicação e a publicidade. Tendo em conta que o capitalismo procura conformar os nossos valores e princípios éticos desde recém nascidos (identidade sexual e as suas características naturais, ritmos de amaduração física e emocional, competitividade absoluta e eliminação dos instintos de apoio e colaboração, capacidades por sexo e pertença a classe social, …) bem se pode entender que para DESAPRENDER esses valores e princípios capitalistas é preciso formação, debate, apoio e um trabalho interno com a escala de valores nas que está conformada a nossa pessoalidade capitalista. Em definitiva o capitalismo tem uma escala de valores que se introduz a modo de programação em todas as pessoas procurando que esta conformem a pessoalidade capitalista individual e da coletividade. Está escala de valores chega a ter princípios case religiosos em muitos indivíduos e coletivos que entendem como uma aberração a postura critica coa mesma dando lugar a ataques irreflexivas como por exemplo: A crítica que desde o Decrescimento se faz ao conceito de progresso e modernidade defendido pelo capitalismo como o avance natural e necessário da humanidade no caminho da sua existência “superior” tende a basear-se em gerar a confusão intencionada dizendo que o Decrescimento  deseja um regresso ao passado e as cavernas; coisa que para nada é certa. A modificação da escala de valores tem duas vertentes uma coletiva e social e outra individual e interior. A individual  precisa sem dúvida um câmbio profundo que algumas pessoas podem atribuir a aspetos místicos devido a intensidade vital que produz romper com o modo de vida e os valores que conforma a pessoalidade capitalista-consumista, mas isto não signifique que o Decrescimento seja uma corrente baseada no materialismo vulgar.

Sem dúvida o Decrescimento tem por diante muito debate  e deve procurar afastar de postulados que falam de transição interior e espiritual como o jeito de evitar o debate e ao mesmo tempo fugir da confrontação de classes; mas também é certo que desde os marxistas atuais e preciso uma maior leitura e debate, sobre as próprias achegas de Marx e as  reflexões que sobre elas fizeram    distintos estudosos -Foster e Burkett entre outros- para compreender melhor o momento atual  do capitalismo global e da grão quebra do metabolismo natural. Depois de todo há importantes elementos do discurso do Decrescimento que foram antecipados por Marx.

O Decrescimento é simplesmente um berro contra este capitalismo voraz, inumano, hetero-patrical que baseia a sua existência na cultura da dominação de povos, territórios, natureza, mulheres, crianças, animais, recursos, tempo, felicidade,…. Já sei, que  há muitos “bons marxistas”  que não gostais falar de felicidade, de gozo e , mesmo criticardes o “direito a pereça” por que para vós os aspetos não materiais não existem e corrompem a “revolução”. As Decrescentistas justamente queremos falar dessas coisas; porque queremos fugir do prototipo do individuo capitalista dominante  que denominamos BBVA (branco, burguês, varão e adulto) e porque sabemos que o importante são as coisas que terem que ver com o mantimento da vida e as relações sociais e porque são estes dois aspetos os que dão sentido a vida mesma, contrapondo estes aspectos com o trabalho, os negócios, o poder,... O Decrescimento rejeita o crescimento como a solução aos problemas sociais e económicos porque o crescimento é parte do problema. O Decrescimento põe o acento no REPARTO porque entende que num mundo finito o crescimento continuo é ademais de impossível  uma barbárie e, ademais porque compre o REPARTO da riqueza para que exista justiça social. É certo que tem muita importância quem ostente o controle dos bens produtivos mas neste caso direi que nunca ouvi a um decrescentista defender as grandes empresas e a não socialização desses bens como o melhor jeito de fazer o REPARTO que propugnamos. Penso que a razão mais potente para defender a dia de hoje que os bens produtivos e o aproveitamento dos recursos  dos  territórios e do planeta terem que ser socializados pelo conjunto das pessoas, duma ou doutra maneira, e argumentando que ter deixado os mesmos em mãos do grão capital e dos estados capitalistas tem  provocado danos médio-ambientais e uma espoliação tão extrema que atualmente corremos o risco de estar entrando numa fase onde perigue a mesma supervivência da humanidade.

Remato dizendo que a crítica que desde o Decrescimento podamos fazer a esquerda tradicional não é porque sejamos anti-marxistas e porque a esquerda tradicional há tempo que deixou de pensar e atuar como  marxista.

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Acerca de Miguel Anxo Abraira

Político e activista social