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Cruz Martínez

Vivendo entre as fagulhas duma ditadura não extinta

A  memória, só traz episódios nos que afigura impossível  viver num sistema de igualdade social. Isto parece indicar que não há equanimidade. Ou talvez, permanece ausente, ligada à indiferença.

O tempo fica ancorado noutra época, na que seguem estabelecendo divisões entre as pessoas, numa classificação brutal, que continua sendo sectária, na que o povo reside baixo o submetimento dos grandes poderes:  “una grande y libre!..” e  “la santa madre iglesia”.

Vivemos ainda entre as fagulhas duma ditadura não extinta. E este facto manifesta-se na evidente hesitação de demasiadas pessoas e políticos de direitas, que duvidam e rejeitam a exumação. Não obstante foi aprovada finalmente com 172 votos a favor, com uma elevada abstenção de 164 e unicamente 2 em contra. Parece incompreensível, mas a múmia do ditador permanece enterrado num mausoléu ao carão das suas vítimas e  só agora, 43 anos depois da sua morte, vai ser possível desenterrá-lo desse sepulcro  sumptuoso e impróprio para um tirano.  Lamentavelmente, os factos que estão a acontecer são a mostra visível da opressão  que sofre um povo, que nesta altura continua submetido. Ainda que a subjugação seja assolapada e subtil.

Esta realidade exibe a inquietação que percebemos muitos cidadãos, já que não existem indícios suficientes que acreditem uma pronta e  garantida liberdade real. Ao contrario, em ocasiões os acontecimentos tomam um cariz indesejado. E isso, é algo que ocorre com demasiada assiduidade. Case todos os dias nos encontramos com situações inauditas, caímos de bruços contra a frieza da indiferença. Sobretudo, quando observamos com estupor algumas assombrosas sentenças emitidas, entre as que compre destacar: A violação da manada a uma mulher indefesa, que  estranhamente os juízes acordaram que só foi abuso. Nesta sentença a vítima passa a ser a única culpável da sua própria agressão. Incluso, parece que nas redes a vítima foi perseguida, acossada, insultada. Arrebatando-lhe desse jeito o seu direito de privacidade, ficando em total desproteção. Isto é intolerável mas, acontece e semelha que não sabem, ou não interessa procurar  médios para reparar estas injustiças. Irremediavelmente,  continuamos dormindo nos leitos de antigas leis patriarcais, as de sempre.

Assim que, aguardemos que na maior brevidade possível consigam atualizar o código penal e adequá-lo para que não existam exceções  e que todas as vítimas de violência de género dentro ou fora duma relação, possam amparar-se na lei, de jeito real e eficazmente. Para que, de uma vez por todas neste estado retrógrada, deixe de existir a cultura da violação.

Por outro lado, a igreja perde a empatia quando o dinheiro pulula dentro dos petos de ánimas. Esta é uma instituição que está no ponto de mira nos últimos anos, e nalguns casos por factos muito graves, entre os que se topa a pederastia. Não obstante, em vez de centrar-se em temas que são de vital importância, a justiça dá cabida a denúncias disparatadas. Como a detenção duma pessoa não crente, por cagar-se em deus e na virgem. Ao parecer, acreditam em alegações provenientes duma entidade, que pertence à parte mais casposa da religião católica espanhola. Incrivelmente, a legislação atual segue tendo num lugar privilegiado à igreja. O que ajuda a mantê-la aposentada na opulência, na acumulação de bens, totalmente isenta de impostos. Assim que, irremediavelmente a coexistência com a religião sustentada pelo estado parece  inevitável.

Enfim, há coisas que não se entendem. Existem ocasiões nas que a legislação semelha  permanecer no interior dos confessionários e nós, os esquecidos habitamos no assombro. Varados nos corredores  tapizados de “ora pro nobis” e  “améns”. Assim, como adeptos amordaçados pelos versículos,  supeditados ao tribunal de penitência.
Somos viandantes  titereados, transitando  pelas rotundas giratórias dos desatinos.

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Acerca de Cruz Martínez

Cruz Martínez (Armenteira 1960) escritora.
Blog pessoal: http://noollardunbufoverde.blogspot.com.es/