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Ramiro Vidal Alvarinho

Foucelhas, memória de umha resistência

No 8 de Agosto de 1952 (isto é, treze anos depois de oficialmente acabada a Guerra Civil Espanhola) era executado a garrote Benigno Andrade Foucelhas. Foi na antiga cadea sediada nas proximidades da Torre de Hércules. Como era de prevêr, o regime fascista nom se apiadou do bravo guerreiro que tivo em xeque mate durante tanto tempo aos esquadrons da morte do Somatén e à Guardia Civil, que protagonizou tantos ajustiçamentos de confidentes e membros das forças repressivas e que tivo os montes por fortaleza e ao povo como silencioso cúmplice.

O seu nome inspira rebeldia e é umha metáfora daquela Galiza que ainda pervive na memória genética daquelas pessoas que temos umha consciência anti-capitalista e anti-fascista

Foucelhas é a figura ainda hoje mais carismática e popular da resistência anti-fascista galega, e é lógico que assim seja. O seu nome inspira rebeldia e é umha metáfora daquela Galiza que ainda pervive na memória genética daquelas pessoas que temos umha consciência anti-capitalista e anti-fascista. Umha Galiza que se revoltava contra a injustiça e contra a barbárie, antitética com essa outra Galiza do eterno tópico, sempre submissa e resignada. Contra o pesado tormento desse lugar comum, um bom antídoto é a evocaçom do companheiro Benigno Andrade.

Benigno Andrade nom sei se foi um herói, mas eu diria que sim. E ainda nom sendo assim, é sem dúvida um mártir da nossa classe. Por muito que certo revisionismo histórico o risque de simples pilha-galinhas. A própria maneira em que foi perseguido e posteriormente torturado, julgado e executado, invalidam qualquer intento de refutar o carácter de mártir da causa operária do Foucelhas.

Porque o Foucelhas, Benigno Andrade, o labrego, o mineiro, o anarquista, o guerrilheiro… nom estivo fugido durante anos, nom foi brutalmente torturado, e, ante tudo, nom lhe foi celebrado um conselho de guerra porque roubara galinhas, ou coelhos, ou patacas, ou repolos, ou porque atracara tabernas, ou porque matara a certo número de pessoas em açons de expropriaçom, ou de repressália, ou simplesmente de combate polo monte arriba…esse nom é o motivo central polo qual o estado fascista culmina o ato de condenaçom e puniçom pública do Foucelhas com umha execuçom a garrote. Esses som os ribetes, a guarniçom do motivo essencial, que nom é outro que a motivaçom política do Foucelhas para adoptar a vida guerrilheira como forma de resistência e insubmissom contra a ordem fascista. Na época na que Foucelhas é executado, existe o bandoleirismo em forma de delinqüência comum nos montes da Galiza, mas bem sabe o poder fascista naquela altura que nom é esse o caso do Benigno Andrade e, nessa consciência é que se age à hora de aplicar a repressom. O Foucelhas morreu a garrote porque era anarquista e porque era guerrilheiro. E porque assumia a sua forma de vida desde essa condiçom de rebelde ao regime nascido do golpe militar de 36.

O Foucelhas morreu a garrote porque era anarquista e porque era guerrilheiro. E porque assumia a sua forma de vida desde essa condiçom de rebelde ao regime nascido do golpe militar de 36.

Na memória coletiva deste povo permanecerá a imagem do Foucelhas às portas da Corunha, com os mineiros de Lousame dispostos a matar aos facciosos a barrenaços; a estampa do Foucelhas a intercambiar disparos com Guardia Civil e falangistas polos montes de Arçua, Irijoa, Sobrado, Curtis; ou a anécdota simpática, popular, do Benigno Andrade disfarçado de crego para entrar de graça no Estádio de Riaçor e olhar os jogos do Deportivo.

E o monte que foi morada e fortaleza para ele e armadilha mortal tantas vezes para os seus inimigos também lhe guarda memória. Os bidueiros que se calhar lhe derom sombra, as nogueiras e castinheiras que se calhar lhe derom no seu dia sustento, o rio que apagou a sua sede, o rechouchio das aves que povoam a fraga e que pugérom arrolo natural ao seu sono, as pedras e penedos que lhe derom assento, hoje recordam  o seu passo, a sua presença furtiva, enquanto se resistem a desaparecer sob as lapas do lume bárbaro dos filhos e netos dos que matárom ao seu outrora hóspede.

Mais aló da névoa e o orvalho, ainda adivinhamos o seu passo; sem dúvida porque a senda que deixou nem a lume nem a sangue se apagam.

Acerca de Ramiro Vidal Alvarinho

Ramiro Vidal Alvarinho é escritor e ativista cultural, milita na esquerda independentista e colabora em vários méios digitais cultivando o artigo de opiniom. Também escreve relato curto e poesia.