0 Gardados para despois

Ramiro Vidal Alvarinho

“Se fóssedes trabalhar…” (Um problema de falsos contrapostos)

“Se fóssedes trabalhar…” é a frase condenatória, definitiva, dos elementos representativos da parte reacionária, conservadora da sociedade ante as teimas reivindicativas dessa outra parte que persiste nos seus anseios por transformar em parámetros mais justos a sua contorna. O curioso é que muitas vezes essa teima transformadora vai mesmo em benefício da parte refratária. Porque as linhas divisórias às vezes nom som nem de traço grosso, nem diáfanas, nem definitivas.

Esse é o mapa social que desenha na sua mente a direita…estám os que trabalham, por um lado, que som discretos, humildes, pulcros, honrados, bons cidadaos, gente de ordem, e, polo outro lado, estám os que passam a vida detrás da faixa, berrando polas ruas

Havia o outro dia greve geral em Euskal Herria com umha manifestaçom de impressionantes proporçons em Gasteiz, e havia simultaneamente duas manifestaçons em Madrid até o prédio das Cortes Gerais. O folhom colheu a Mariano Rajói, presidente do governo espanhol, a fazer turismo diplomático; estava na Assembleia Geral da ONU, parece ser que a falar de Gibraltar e outras prioridades indiscutíveis (ai, as feridas do imperialismo espanhol…!) E tivo na rolda de imprensa posterior umha lembrança para aquelas pessoas que nom se manifestavam. Para essa imensa maioria que nom saiu à rua a manifestar-se mas que ia todos os dias trabalhar para ajudar a sair da crise.

Esse é o mapa social que desenha na sua mente a direita…estám os que trabalham, por um lado, que som discretos, humildes, pulcros, honrados, bons cidadaos, gente de ordem, e, polo outro lado, estám os que passam a vida detrás da faixa, berrando polas ruas, que vivem do conto, que som sujos, ruidosos, anárquicos, hedonistas, libertinos, vándalos… e que o que necessitavam era mais disciplina e mais trabalho, que o tempo livre, já se sabe, malea e dá pé a pensar demasiado.

Nom todos os assistentes a umha manifestaçom, ou nom todas as pessoas secundantes de umha greve respondem ao mesmo perfil

Os que se manifestam e os que nom se manifestam, nom som contrapostos plantejáveis. Primeiro porque muita gente que simpatiza no essencial com a manifestaçom de Madrid, ou seja, identifica-se com a percepçom de podrémia na classe política e nas instituiçons do regime, nom assistiu por impossibilidade de se deslocar a Madrid ou porque a manifestaçom a apanhou em horário laboral. Porque muitos que temos umha simpatia com essa greve geral em Euskal Herria, nom somos bascos nem bascas, e a nossa tarefa está noutras latitudes, concretamente nos nossos respeitivos países e cidades, nos nossos centros de trabalho, intentando criar consciência da necessidade da greve “também aquí”. E segundo, porque nom todos os assistentes a umha manifestaçom, ou nom todas as pessoas secundantes de umha greve respondem ao mesmo perfil, ainda que evidentemente haja um elemento de cohessom que os fai agir unitariamente, que é nom já ter o mesmo problema, mas ter um grao mínimo de consciência partilhada desse problema.

A divisom que traça Rajói é irreal; ser de esquerdas nom é pertencer a umha tribo urbana. Ter consciência de classe nom é um vício. Ir às cinco da manhá de piquete, nom é como ir à discoteca e as assembleias na fábrica ou na rua nom som um “botelhom”. A imensa maioria daqueles e daquelas que protestam nas ruas nos tempos que correm, tenhem as mesmas aspiraçons que aqueles que nom o fam e achantam, pensando que se calhar isto é transitório e que se nos sacrificamos, num futuro virám tempos melhores.

Ser de esquerdas nom é pertencer a umha tribo urbana. Ter consciência de classe nom é um vício. Ir às cinco da manhá de piquete, nom é como ir à discoteca e as assembleias na fábrica ou na rua nom som um “botelhom”

Muitos e muitas dos que se manifestam nom som revolucionários, ainda que o tempo e a necessidade pode que os convirta em tal cousa. De partida, desejariam um estado de placidez social no que eles puideram desenvolver a sua vida de casa para o trabalho e do trabalho para casa e, polo meio, ócio, consumo, vida social…tudo numha roda perfeita e imutável, sem sobressaltos. Igual que os que calam e nom se manifestam. A fractura está em como afrontam a situaçom.

A enorme diferença está em que enquanto uns obedecem a palavra de ordem do líder e se dedicam a agachar a cabeça e a produzir mais cobrando menos e pagando mais por absolutamente tudo, aquilo que é necessário para viver e aquilo que nom o é tanto, para contribuír “devidamente” ao equilíbrio das trucadas contas do capital e do estado e assim reconquistar o prometido bem-estar, outros nom acreditam no conto. A diferença é que mentres uns “acreditam para serem recompensados”, outros percebem que som desposuídos de direitos que parecia impossível que perdéssemos nesta altura da história, e que se aproveita a crise para rapinar. Que se penaliza aos que produzimos e que se prémia aos que especulam e roubam. E que como isto o decidem a porta fechada umha dúzia de senhores e senhoras, que cada sexta feira se reúnem para decidir por onde é que metem a tesoura desta volta, e nom há marcha atrás, porque aritméticamente é impossível que por via parlamentar se lhes freem as decisons, há que saír à rua, que a fim de contas é onde a classe trabalhadora sempre alcançou as suas conquistas.

A principal fractura é a de classe, como sempre. Quem tiver algumha dúvida, que olhe as declaraçons de património de cada um dos membros do governo espanhol, ou os seus currículos vitae. Essa sim que é umha divisom real

Os que nom estamos conformes, as que nom acreditamos nos dogmas do capitalismo, os que ficámos sem casa, as que ficámos sem trabalho, os que fomos despojados das nossas poupanças polo banco que teoricamente no-las custodiava, as que estám zangadas porque lhes reduzírom o salário, nom somos indivíduos à margem da sociedade; formamos parte dela. A estudante que nom se vai poder matricular na universidade neste ano, o filho de umha mulher dependente à que lhe negárom a ajuda económica, a trabalhadora que fica na rua porque lhe fecha a empresa, nom som seres estranhos que moram nalgum lugar oculto, abduzidos por umha seita. Simplesmente somos os que estamos a levar a pior parte.

Com eles, nom apenas nom há nengumha empatia, mas inclusso nom existe a piedade. Cada sexta-feira, umha nova navalhada. E é que, a miragem eleitoral fai que pensemos que se escolhe beira política como quem escolhe equipa de futebol, e nom é assim.

Mas a principal fractura é a de classe, como sempre. Quem tiver algumha dúvida, que olhe as declaraçons de património de cada um dos membros do governo espanhol, ou os seus currículos vitae. Essa sim que é umha divisom real e clarifica os motivos polos que nem Rajói, nem nemgum dos seus ministros e ministras, tenhem a menor empatia real com essa parte da populaçom do estado espanhol que se manifesta, ou nom; que acredita nas suas promessas, ou nom; que votou nas últimas eleiçons gerais PP, ou nom…mas que tem em comum que tem que viver do seu trabalho e que tem que cruzar os dedos cada dia para nom cair na maldiçom do desemprego. Com eles, nom apenas nom há nengumha empatia, mas inclusso nom existe a piedade. Cada sexta-feira, umha nova navalhada. E é que, a miragem eleitoral fai que pensemos que se escolhe beira política como quem escolhe equipa de futebol, e nom é assim.

Acerca de Ramiro Vidal Alvarinho

Ramiro Vidal Alvarinho é escritor e ativista cultural, milita na esquerda independentista e colabora em vários méios digitais cultivando o artigo de opiniom. Também escreve relato curto e poesia.