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Ramiro Vidal Alvarinho

O ato heróico de exercer um direito

Nom exercer um direito implica renunciar a ele, e mais quando se trata de língua. Manter-se nos níveis minimamente exigíveis de coerência e dignidade, á hora de exercer o direito de utilizar a língua galega na Galiza é um ato de heroicidade quando se fai conscientemente, máxime num momento no que o supremacismo espanholista passou definitivamente ao ataque, encontrando se calhar mais resistências das que calculavam, mas seguindo a sua folha de rota a passo decidido.

Nom exercer um direito implica renunciar a ele, e mais quando se trata de língua. Manter-se nos níveis minimamente exigíveis de coerência e dignidade, á hora de exercer o direito de utilizar a língua galega na Galiza é um ato de heroicidade quando se fai conscientemente

Circula muito polas redes sociais estes dias um audio de um ataque supremacista no transcurso de um programa da Radio Galega (Pensando en ti) É o típico programa de testemunhos, dedicatórias e demais que se pom para cobrir as horas da noite e a madrugada. Naturalmente há umha maioria e ouvintes de idade avançada, como costuma acontecer com este tipo de espaços radiofónicos. E já sabemos o perfil ideológico da imensa maioria das pessoas maiores de setenta anos neste país…nom ter cultura democrática nem experiências democráticas passa fatura.

Paga a pena fazer um breve ressumo de como se produz o ataque…o marco, um momento do programa Pensando en ti da Radio Galega. Num momento deste programa, passam um telefonema de umha senhora de Ferrol, que fala em espanhol com um marcadíssimo sotaque galego. Di que chama para protestar, ao que o condutor do programa lhe responde que avante, que expresse o que gostar. A senhora di que os profissionais da Radio Galega som maleducados porque falam sempre em galego, e que se ela fala em espanhol há que lhe responder em espanhol. A isto, o condutor do programa responde paciente e didácticamente explicando que na Radio Galega a língua vehicular é o galego, porque assim o marca o estatuto de autonomia, a lei de fundaçom da CRTVG os estatutos da empresa e mesmo o contrato de trabalho dos profissionais. A isto acrescenta que só faltava que na Radio Galega se falasse outro idioma que nom for o galego e que para rádio em espanhol já estavam todas as demais (esta última parte, sem dúvida amolou especialmente à mulher)

A senhora galegófoba insistiu várias vezes no seu argumentário: o trabalhador da RG era um maleducado por falar-lhe em galego

A senhora galegófoba insistiu várias vezes no seu argumentário: o trabalhador da RG era um maleducado por falar-lhe em galego. Pouco menos que sugeria que para falar-lhe em galego a ela havia que pedir permissom. O condutor replicava, evitando o máximo possível cair no terreno da opiniom, que ele falava no que tinha que falar e que nom obrigava a ninguém a falar em galego, simplesmene agia conforme as leis (ainda que também dava a entender que ele entendia lógica e justa a situaçom)

No ataque, que o locutor resolveu com dignidade, sem perder os papéis, a supremacista ferrolana deixou cair umhas quantas pérolas tais como: “Os estatutos! Quais estatutos? Aquí vamos acabar com na Catalunha!”, “Eu sei o francês e mais o inglês, mas o galego nunca me interessou”, “Os senhores som uns maleducados porque esta rádio a pagamos todos e se eu falar espanhol tenhem que me falar em espanhol”, “Eu falei antes, portanto esta conversa tinha que ser em espanhol”, “Eu conheço a Feijó e vou-lhe dizer isto”. A toda esta chúvia de estupidezes o locutor replicou que ela podia ir dizer-lhe o que quiger a quem quiger, e que mesmo lhe poda dizer com quê locutor estivera falando, ao que o elemento galegófobo respondeu que nem pensava molestar-se em dar o nome do locutor.

No ataque, que o locutor resolveu com dignidade, sem perder os papéis, a supremacista ferrolana deixou cair umhas quantas pérolas tais como: “Os estatutos! Quais estatutos? Aquí vamos acabar com na Catalunha!”

Enfim, aspetos destacáveis do lance para termos em conta e analizar: Primeiro, despreço absoluto pola legalidade, os meus desejos e as minhas apetências estám por cima de qualquer lei. A insistente referência ao marco legal por parte do trabalhador, desde logo que serviu para colocar as cousas no seu contexto para o resto do público mas nom valeu de nada para que a senhora reconsiderara nengum aspeto da sua argumentaçom. Simplesmente o Senhor é maleducado porque me fala em galego. Segundo, despreço absoluto também polos direitos do interlocutor. Mais aló de que se me respeite a liberdade para eu falar espanhol, eu nom quero ouvir ao meu interlocutor falar-me em galego. Em ressumo, além de ter a liberdade no que di respeito da minha conduta lingüística, reivindico o poder sobre a conduta lingüística dos demais, que terám que amoldar-se à minha.

Terceiro, supremacismo étnico-lingüístico. Os privilégios dos indivíduos de umha comunidade estám por cima dos direitos e mesmo dos deveres dos indivíduos da outra comunidade. Nom há reciprocidade, eu nom tenho que saber galego, nom tenho porque deixar de falar espanhol ainda que me falem noutro idioma, ninguém me pode obrigar a falar em galego, ainda que os galegofalantes sim que devem falar em espanhol comigo. Quarto, o amigo do poderoso tem direito a utilizar essa condiçom para intimidar a quem lhe incomode.

Os fascistas som como som; a lei é sagrada quando me dá a razom, e quando nom ma dá simplesmente ignoro-a

Nom tem desperdício todo o material que se pode tirar deste ataque supremacista. Sem dúvida algumha, há contextos onde a defesa dos direitos daqueles que somos galegofalantes de maneira consciente passa por argumentaçons legalistas, ainda que tal como se evidencia neste ataque, a razom da lei nom é umha razom observável nem plausível para estes elementos. Os fascistas som como som; a lei é sagrada quando me dá a razom, e quando nom ma dá simplesmente ignoro-a. Quero dizer que no contexto do mundo do emprego público um tem-se que cingir ao marco legal por insuficiente que este parecer, já que por imperfeito que for, é infalível. Um trabalhador público se se cinge à lei é intocável, salvo que o poder político pretenda manipular. Na rua, a cousa já nom pode ir por essa via.

Quando quem tem o poder e todas as vantagens passa ao ataque, quem joga com desvantagem deverá ser também agressivo. Essa agressividade terá que ser inteligente, mas terá que manifestar-se

Quando quem tem o poder e todas as vantagens passa ao ataque, quem joga com desvantagem deverá ser também agressivo. Essa agressividade terá que ser inteligente, mas terá que manifestar-se. E nom vou pontificar, mas deixo aí essa pequena reflexiom. Nom se pode jogar a um jogo ao que ninguém joga, respeitar umhas regras que ninguém respeita. Desde logo que necessitariamos mais empregados e empregadas públicas nas administraçons que fossem capazes de defender o terreno que a nossa língua foi ganhando nesse ámbito, ainda que a luita está também fora das administraçons. Continuamente estamos expostos a agressons por parte de quem abusa do seu poder, ou de quem pretende antepôr os seus pretensos direitos sobre os nossos direitos reais.

Quando alguém que exerce umha atividade pública e defende com clareza e firmeza a legitimidade de falar em galego, sem ter que dar explicaçons nem ceder aos caprichos de ninguém, é de agradecer, porque me está a defender a mim e a todos e a todas as pessoas que luitamos por isso todos os dias…

O empresário que nom tem em conta a tua demanda de emprego por estar escrita em galego, o polícia que te reclama para expressares-te em espanhol porque di nom perceber-te, ou simplesmente por te provocar, o empregado daquele estabelecimento hotaleiro que nom te atende ou que necessita confirmar que o café com leite é com efeito “café con leche”. Som situaçons da vida quotidiana, que convertem em heróico viver com normalidade o facto de sermos galegofalantes, e galegofalantes porque queremos, nom porque “nos tocara em sorte”, ainda que som motivos que podem confluir. Quando alguém que exerce umha atividade pública e defende com clareza e firmeza a legitimidade de falar em galego, sem ter que dar explicaçons nem ceder aos caprichos de ninguém, é de agradecer, porque me está a defender a mim e a todos e a todas as pessoas que luitamos por isso todos os dias…na rua, a batalha luitada hoje, será luitada de novo amanhá. Haverá que lêr a Martin Luther King e a Malcolm X…

Acerca de Ramiro Vidal Alvarinho

Ramiro Vidal Alvarinho é escritor e ativista cultural, milita na esquerda independentista e colabora em vários méios digitais cultivando o artigo de opiniom. Também escreve relato curto e poesia.