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Joám Lopes Facal

O dragom milenário sai da cova

Muito mais do que o episódio da compra dos estaleiros vigueses Rodman Polyships polo magnate chinês, actualmente encarcerado no seu país, Sam Pa — quê bom nome para umha história de Emílio Salgári! — ou de outras adquisiçons anteriores, a alarme geral polo expansionismo chinês deflagrou de repente quando se difundiu o rumor de que os chineses pretendiam comprar-lhe o Celta ao senhor Mourinho. Palavras maiores, meus amigos, com a pátria nom se joga!

Um recente informe meu ao Foro Económico de Galicia relativo aos movimentos de capitais efluentes e afluentes a Galiza, deu pé para ser requerido por algum meio acerca do inquietante fenómeno que já era conhecido em tempos do meu pai como “o perigo amarelo”. Muito antes das incursons de extraterrestres que de vez em quando se deixam cair por aí.

O crescente protagonismo da China nos fluxos de mercadorias e de capitais no mercado mundial é um assunto maior, talvez o mais significativo disso que entendemos por globalizaçom. Qual é razom, nos perguntamos, de que novamente La Cina è vicina?   

Convém examinar previamente algumha questom. A primeira, a da capacidade de financiamento que alimenta a potência investidora de alguns países. A intensificaçom dos movimentos de capital que observamos revela a crescente força da globalizaçom em curso e, especialmente no tocante à intensificaçom dos fluxos de capital transnacional, quer sejam estes de tipo financeiro — compra e venda de activos financeiros, como acçons em bolsa e títulos de dêveda pública — quer de carácter real, como a adquisiçon de activos imobiliários e empresas.

Porque é que a China monstra tanta actividade em operaçons de investimento internacional? A resposta mais simples é: porque lhe sobram meios. A abastança de que a República Popular desfruta provém do facto de a China ser o segundo país do mundo por saldo positivo na balança com o resto do mundo por conta corrente (BCC). Recordemos que a BCC é a soma do saldo comercial (exportaçons menos importaçons) mais o saldo por rendas afluentes e efluentes como remessas laborais e rendimentos empresariais e de capital. Reparemos de passagem na ubiquidade dos produtos chineses que enchem as lojas receptoras daquela procedência (informática, roupa, joguetes, artigos domésticos) e nas transferências a aquele país dos ganhos aforrados por milhares de pequenos empresários chineses espalhados mundo adiante em restaurantes e bazares.

Repassemos as cifras de 2013. A Alemanha encabeça o ranking mundial polo excedente de saldo da BCC com 257.100 milhons de dólares, seguida da China com 182.800 milhons. Nom pode causar surpresa que os países a seguir nesta listagem de BCC excedentárias sejam a Arábia Saudita, Rússia, Kuwait e Noruega. O ouro negro ajuda muito a engolir divisas. Tampouco deveria estranhar demasiado que os países que cerram a listagem das BCC por saldo negativo sejam o Reino Unido com -93.600 milhons de dólares e, sobretudo, os EUA com -360.700 milhons. Estes importadores compulsivos de produtos alheios podem permitir-se tam confortável situaçom de balanças sistematicamente negativas graças ao privilégio que lhes outorga aos EUA a emissom de dólares que o mundo acumula com avidez e à City londrina a venda massiva de activos e serviços financeiros. Que este privilégio poda perdurar é assunto controverso, mais bem improvável.

Os saldos excedentários por BCC permitem financiar investimentos externos e alimentar os saldos de moeda estrangeira em reserva nos cofres dos respectivos bancos centrais. O da China registra 3,44 bilions de dólares, três vezes o PIB de Espanha. Dous terços das reservas em dólares: a China é o maior credor externo de dêveda pública norte-americana; o Departamento do Tesouro do país faria bem em nom incomodar em excesso o cauteloso dragom chinês.

Outra questom de ionteresse é a da estratégia investidora chinesa, orientada à adquisiçom de empresas e fontes de provisionamento de matérias-primas e alimentos em claro contraste com o comportamento da Alemanha e dos grandes exportadores de energia mais propensos a investirem em activos financeiros. A preferência chinesa por activos reais, em especial de tipo empresarial, responde com certeza às directrizes económicas emanadas do PCCh. O partido único e supremo. A diferença dos países com preferência por activos financeiros e carteiras de valores, a China prefere portos estratégicos, recursos naturais, tecnologia e empresas. À parte do investimento externo, a República Popular dedica importante volume de recursos a instrumentar a política monetária: estabilizaçom da taxa de cámbio do yuan (¥) e do tipo de juro em vigor, que pode consumir ingentes volumes de reservas. Comprar ou vender dólares é o procedimento.

O gigante chinês pretende cobrar força e influência no mundo e assegurar o ritmo de desenvolvimento do que depende, além do bem-estar social, a estabilidade política. O programa das corporaçons chinesas emergentes formula-se com a brilhante retórica metafórica em uso naqueles lares. Em 2003, o presidente da TCL Corporation — a empresa chinesa que comprou 67% da francesa Thompson para criar a primeira produtora mundial de televisores — de nome Li Dongsheng, anunciava o lançamento do Plano Tigre e Dragom destinado a promover companhias tigre no mercado interior e dragom nos mercados internacionais. Espectacular coreografia do celeste império para anunciar que o dragom estava prestes a levantar voo.

O gigante chinês nom dá esquecido o êxito das grandes corporaçons multinacionais da sua desafiante vizinhança: os Samsung, da Coreia do Sul, os HTC da República de Taiwan, as grandes marcas nipónicas. A partir do 2000, o PCCh proclamou um novo salto adiante, o da internacionalizaçom empresarial e da ocupaçom de espaços estratégicos para garantir a expansom económica e a paz interna.

Foi por isso que a companhia chinesa TLC comprou a líder francesa Thompson no ano 2004 para convertê-la em campeoa mundial de fabricaçom de televisores e electrónica de consumo. E pola mesma razom adquiriu em 2005 a divisom de computadoras de IBM para dar passo ao primeiro fabricante internacional de electrónica de consumo sob a marca Lenovo. É apenas o início. A indústria automotriz tem na China o seu primeiro produtor e demandante. Em 2014, apenas três países ostentavam o 50% da produçom mundial: a China (26%), os EUA (13%) e o Japom (11%). A Alemanha, pátria da Mercedes, da BMW e da VW, nom superava o 7% do total e a Coreia do Sul o 5% 2. Espanha o 3%.

A cultura chinesa tem raiz confuciana, a paciência, a modéstia e o respeito ao superior fam parte dos seus valores, como também a frugalidade e a resistência à adversidade. Prometeu nom passou por ali. A colectividade, a começar pola própria família, prevalece sobre os valores de autonomia individual e auto-realizaçom. O empresário chinês gosta de adaptar-se ao entorno, de observar e apreender dos comportamentos alheios. Há algo de inquietante na enigmática cautela com que o dragom explora o ancho mundo e na perícia com que desenha um novo modelo do capitalismo de Estado onde as liberdades rendem tributo ao êxito. Talvez seria oportuno lembrar que a Ilustraçom entrou em Rússia e na China através de Marx lido por Lenine.

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