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Ramiro Vidal Alvarinho

Humor e liberdade de expressom: esse campo minado

Um bom indicador de como evolui umha sociedade é o humor. O que resultava engraçado e engenhoso há umhas décadas hoje pode resultar de um gosto discutível ou mesmo objeto de censura pública e até de penalizaçom. Lembramos o humor que imperava entre os anos setenta e noventa do passado século e compreenderemos a quê me refero quando fago tal afirmaçom. As piadas de ciganos, homossexuais ou indivíduos com dificuldades de dicçom do Arévalo; os relatos machistas de Gila ou Eugenio, ventríloquos que no seu elenco de personagens sempre incluiam o indivíduo rural, de idade avançada e instruçom deficiente; isso tudo causava umha hilariedade geral indiscutível entre a populaçom sem distinçom de idades, ideologias ou classes sociais. Hoje muitas das chaves humorísticas que tinham o sucesso assegurado entom seriam qualificadas de ser próprias de discursos descriminatórios (nom quer dizer que desapareceram)

A dia de hoje os grupos de pressom, de interesse, os coletivos sociais, tendemos a receber o humor com maior atitude crítica, ainda que afinal quem marca pauta, mal que nos pese, é o poder. O humor é umha ferramenta muito eficaz para elaborar discurso, isso bem o sabe a oligarquia. Por isso nom renunciam a ele. A oligarquia tem as suas particulares chaves de humor, que se baseiam em marcar a linha entre ganhadores e perdedores. O perdedor é sempre humilhado, ridiculizado e caricaturizado até o esperpento. O ganhador é quem encarna o ideal de correçom, dignidade, inteligência e todas as qualidades que lhe som negadas ao perdedor.

Quem som os perdedores? Os pobres, as mulheres; os sexual, inteletual, funcionalmente diversos; os feios, aqueles que têm ideologias extravagantes ou nom corretas; o imigrante, o habitante do mundo atrassado ou subdesenvolvido sócio-economicamente; as minorias étnicas e culturais; os que nom tenhem o privilégio do conhecimento e da instruçom; os que nom tenhem gostos acordes com as modas do momento...os que por algum motivo som excluídos ou se auto-excluim. Esse humor exerce umha pedagogia muito potente entre as massas: ser normal, correto, ortodoxo achega-te aos ganhadores; ser marginal ou marginalizado converte-te em perdedor. Ser perdedor é triste, ninguém quer ser o alvo das burlas, ser ganhador é relativamente singelo, avonda com nom ousar sair dos limites éticos, morais, estéticos, ideológicos que che marcam os que mandam...e dá-che lizença para rir dos perdedores. Estar com os ganhadores dá muita segurança.

O humor rebelde é o que está na picota. Burlar-se do poder; burlar-se do governo, das forças de segurança, do exército, da igreja, isso é um ato que che pode reportar duras sançons económicas ou penas de perda de liberdade. Se um fai paródia ou simples humor branco a conta dos poderes imperantes converte-se num terrorista. Quando o humor se mete em política um pode burlar-se dos líderes internacionais, mesmo incluídos Merkel e Trump; mas olho, nom o Papa. Polo geral, a mídia espanhola promove a burla contra os países que som inimigos ou potenciais inimigos...aí dá rédea solta ao seu racismo. Nom é a mesma forma de burlar-se de Anjela Merkel que a de burlar-se de Hugo Chávez, Maduro, Evo Morales ou os irmaos Castro. Acho que o líder mundial que foi destinatário dos insultos racistas mais brutais foi o Hugo Chávez. Insultos que mesmo punham em causa a sua condiçom humana. Ninguém se refere nesses termos a Obama, por pôr o exemplo de um mandatário que coincidiu com a sua etapa no podere que nom é de raça branca.

O humor deve ter limites? Os limites legais que se lhe queiram pôr ao humor vam ser sempre controvertidos. O que parece claro é que quando ultimamente se julgam determinados atos como constitutivos de “delito de ódio” ou “contra os sentimentos religiosos”, nom se pretende proteger nem a dignidade dos coletivos ou pessoas pretensamente afetadas mas os interesses de determinados grupos de pressom. Os limites devem ser éticos, por parte de quem realiza o ato (conta a piada, escreve o tweet...etc) e por parte dos receptores, ou seja as testemunhas do ato.

Quando se julgou a Guillermo Zapata, o primeiro vereador de Cultura de Madrid da atual corporaçom, por uns tweets que faziam mofa das práticas de extermínio dos nazis, nom havia nengumha intençom de defender a dignidade das vítimas do holocausto; havia simplesmente vontade de neutralizar a um inimigo valendo-se da lei. Nunca um verdadeiro nazi no estado espanhol foi julgado por manifestaçons similares ou piores. Quando se julgou ao vereador de Cultura da Corunha por um cartaz alusivo ao entruido corunhês, a pessoa demandante sabia perfeitamente que aquele cartaz nom ofendia aos católicos nem a ninguém...nunca nengum católico se disfarçou de Papa ou de bispo? Sabemos perfeitamente a resposta a essa pregunta.

O que é preocupante é que nom subscite nengum debate a exploraçom sem limites do fenômeno frikie, sabendo que falamos de utilizaçom abussiva da imagem de pessoas que tenhem direito a preservar a sua imagem pública como todo o mundo, para além da sua intimidade. Vou abster-me de pôr nomes de pessoas concretas; simplesmente comentarei que na comarca onde eu vivo correm como a pólvora a travês dos wassaps vídeos de um conhecido personagem (ultimamente levado ao celuloide) opinando sobre temas diversos, nomeadamente política e futebol. Há uns sujeitos que tomarom por afeiçom levá-lo a comer a diferentes lugares da comarca e perguntar-lhe na mesa por temas de atualidade. O protagonista dos vídeos opina sem complexos, sem saber aparentemente que o estám a gravar. Isto à parte de nom ser legal é umha prática que acho especialmente cruel e indecente. Os imbéciles que fam isto seguramente verám o seu ego reforçado vendo como o vídeo circula polos telemóveis de toda a comarca, causando a risa de todos os vizinhos sem distinçom, mais umha vez, de ideologia, de condiçom social, ou idade. Já digo, preocupante que umha pessoa com umha percepçom da realidade distorsionada e que dificilmente se pode defender do que lhe fam (nem sequer é consciente) seja repetidamente submetido ao mesmo escárnio. Opinando sobre Catalunya ou sobre os alinhamentos da equipa local para o próximo jogo. O mais significativo é que o pretenso frikie tem umhas ideias igual de reaccionárias do que os elementos que o gravam a traiçom e rim dele...só que claro, esta pessoa polas suas caraterísticas está destinada a ser frikie...tem evidentes problemas mentais e físicos. O inferior nom tem direito a ter critério nem a opinar ao mesmo nível que os normais. A sua maneira de expressar as opinions resulta engraçada, claro.

Fabricar frikies é sempre reaccionário. Divulgar imagens de alguém sem conhecimento nem consentimento do afectado, além de ser delito deveria envergonhar a quem o fai. Todos estariamos escandalizados se em lugar de tratar-se de umha pessoa de idade avançada opinando (de umha maneira muito caraterística) de qualquer tema fosse o vídeo de umha adolescente em atitude mais ou menos sensual (ou mais ou menos sexual) no seu quarto ou na casa de banho da sua casa. A virtude da minha menina, ou das nossas meninas, nem tocá-la, a dignidade de alguém a quem consideramos louco, isso nom importa nada.

Temos que começar nós a nom cair nas armadilhas da reaçom. Depois que nom nos admire ver a nossa liberdade ameaçada...ou ver-nos no lugar que ninguém quer ocupar...o lugar do perdedor, o que leva todos os disparos.

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Acerca de Ramiro Vidal Alvarinho

Ramiro Vidal Alvarinho é escritor e ativista cultural, milita na esquerda independentista e colabora em vários méios digitais cultivando o artigo de opiniom. Também escreve relato curto e poesia.