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"É tal a brutalidade da repressão, que é um insulto que os repressores tenham o direito de permanecer no anonimato"

Montse DopicoMontse Dopico | @montsedopico


seique, o novo livro de Susana Sánchez Arins, é uma história familiar. E, além disso, uma microhistória da repressão. Un relato descarnado da brutalidade franquista. Contado, por uma vez, desde o lado da família dos vitimários. Sem concessão. Com toda a dureza. seique (Através editora) reflexiona sobre o jeito em que a história se desescreve. Sobre a violência. Sobre a repressão fascista que ficou agachada por exercer-se no ámbito familiar próprio e, subretudo, contra as mulheres. E sobre a necessidade de reivindicar que quem caussou tanto dano não têm direito ao anonimato. Mesmo que seja da família de uma. Porque de nada serve o silêncio.

Quando começas a ler parece só um relato de história familiar. Mas é mais do que isso. Um livro ademais muito valente, por tratar-se da tua própria família, que poderia incomodar-se, e muito.

Poderia passar, sim. Bom, eu sou da família indireta, e nem sequer conhecim o tio Manuel, polo que não sinto essa empatia ou pudor familiar. A valentia aí não é tanta. E sim, aos descendentes diretos pode incomodá-los, suponho. Mas acho que também têm que falar as famílias dos vitimários. Não podem ficar caladas para sempre, nem guardar informações que podem ajudar às descendentes das vítimas. Porque há que dar um passo adiante e resolver o tema da memória histórica. Não pode ser que só falem as famílias das vítimas, e sempre com medo de incomodar.

O único que encontraste escrito sobre ele é que foi presidente da Câmara. Reconstruiste a história, então, com fontes orais.

O que conhecia era a história oral porque é a história da família, com as suas lacunas e silêncios. Fui atando cabos e a história incompleta aumentou a minha curiosidade. Sobretudo quando soube do caso dos desenterrados no Curro. Pensei que este meu parente pudera ter que ver, porque a casa familiar estava muito perto, de caminho entre as casas dos passeados e o lugar em que foram assassinados. O meu plano era escrever este livro partindo de fontes documentais. Mas a surpresa foi outra: não havia absolutamente nada escrito. Nem em livros, nem em arquivos, nem em imprensa. Falei com historiadores, reviram as suas notas, e nada. Tinha, por isso, dúvidas porque, como ia escrever a história sem as provas que “oficialmente” são exigidas? E, claro, o que me passava a mim é um reflexo do problema que temos para escrever a história da repressão na Galiza. Isto acontece em cada recanto do país no que há alguém a querer saber da guerra e dos anos da fome.

Explicas no livro, ademais, que não querias que ficasse no anonimato alguém como o tio Manuel, que causou tanta dor.

A história familiar apresentava-o como responsável por situações muito duras, mas sempre dentro da casa, com a parentela. Ao tempo, circulava uma cantilena repetida: E se fora assim de mau com a família, que não faria com os de fora? E isto levou-me a transpor a sua conduta não só fora da família, mas a outras comarcas. Não podia deixar de imaginar quantos haveria coma ele. Gente que fez tanto dano e que foi quem de agachá-lo. Quando fui aos arquivos da Falange, não encontrei nada. Porque os arquivos foram “limpados”. Do ano 45 para atrás não há nada. E do 45 para diante qualquer pode escusar-se nisso dos tempos e as circunstâncias. Assim, comprovar como houve gente que teve o privilégio de ocultar a sua história de ruindade, enchia-me de raiva. Tiveram bom cuidado de não anotar, de queimar papeis, de furtar-nos a verdade...

"Quando fui aos arquivos da Falange, não encontrei nada. Porque os arquivos foram “limpados”

Já dizes que não é só que escrevessem a história os vencedores...

Porque não é só que escrevessem a história os vencedores, tal como se diz. Não é só que escrevessem a história dando a sua versão. É que a inescreveram, ocultando o que não lhes convinha e negando-lho ao futuro. Em 2016 serão 80 anos desde o golpe de 36. Nós pertencemos à terceira geração, e há muitas coisas que já não poderemos saber nunca. Muitas das testemunhas estão já mortas. E quando puderam falar, não foram quem, de tão machucadas. A história continua a ser-nos furtada nesta suposta democracia em que vivemos.

Salientas, por outra parte, a força do agrarismo, do anarquismo, do sindicalismo em geral. A história do povo galego que lutou pelos seus direitos.

Passara-me há anos, ao conhecer um livro que escreveu Xosé Carlos Garrido Couceiro sobre Manuel García Barros. Por esta obra soube do movimento agrarista na comarca de Taveirós. Eu tinha a ideia de que o da Estrada era um povo apoucado, de direitas, -é o que tem ler o mundo nas contas eleitorais- e dei-me conta de que na entrada do século XX lutara muito. Depois encontrei o mesmo no Salnés. A câmara municipal de Meis era também um espaço agrário fortemente sindicalizado. E havia canteiras, ademais de lavradores, o que afortalava o associacionismo operário. Agora trabalho na Arouça, e sei pelas investigações de Dionisio Pereira que o sindicalismo marinheiro era muito forte. A questão é que a repressão foi um genocídio programado contra a força enorme de um povo trabalhador que estava a lutar pelos seus direitos. Querem convencer-nos de que somos um povo dormido que preferiu emigrar que lutar. Mas não é verdade.

"A repressão foi um genocídio programado contra a força enorme de um povo trabalhador que estava a lutar pelos seus direitos"

Ao falar de repressão, salientas também o componente de género que tinha. Mulheres rapadas, violadas, passeadas nuas em público...

A repressão teve essa dimensão de género, sim. Se vivesse a minha avó, provavelmente eu não poderia escrever este livro. Aliás a história foi saindo à luz quando os avôs morreram. A avó nunca se definiria como vítima da repressão. Mas para mim é um protótipo de mulher represada. Só que como pertencia a uma família poderosa, a repressão que sofreu ficou oculta dentro dos muros familiares. Quando é na casa que se exerce o poder fascista, não se considera que tenha conteúdo político. Já as mulheres implicadas politicamante são silenciadas, como as guerrilheiras, que reivindicou Aurora Marco e que também estão no meu livro, para mais as filhas de, as irmãs de, as esposas de. Sempre são reduzidas ao papel de parentes, mas é por esse papel parental que muitas, também, sufriram o indizível sem ser recolhidas como vítimas. O tio Manuel pudo fazer tanto dano à minha avó porque era a sua irmã e ninguém questionou o seus direitos sobre ela, nem sequer ela própria. E eu lembro a avó falar mal dos comunistas. E agora percebo que por trás das suas palavras estava toda a repressão vivida e a conduta franquista aprendida para sobreviver.

Na tua família houve também, então, vítimas. Como as suas mulheres que casam do lado do “bando” que não devem.

A avó Glória e a bisavó Elena. O avô Ramiro esteve no cárcere, segundo a história familiar porque tinha uma relação extramatrimonial cujo conhecimento o tio Manuel aproveitou, seique, para ir roubar na casa da mulher com que ele estava. O avô foi ao cárcere acusado de ladrão, diz, por não descobrir a senhora. Preferiu carregar com a culpa e abandonar a avó. O que me fez pensar é que se calhar nas casas eram inventadas histórias românticas, sarilhos de saias, para esconder a realidade. Se calhar foi ao cárcere por ser republicano. E a família preferia dizer que era ladrão e mulherengo a que era de esquerdas. Ou quem sabe, ao melhor aquela é a história certa. Mas isto é algo que não pudem comprovar, pois outra vez não encontrei papelada.

O tio Manuel é um cacique de livro. O tio Pepe, o tio emigrante que parece tirado dos desenhos de Castelao.

É uma coisa que me dava medo, que parecessem personagens, tipos, e não as pessoas que foram. O tio Manuel é um mau de livro, sim. Mas não é um mau inventado. Eu trabalho com os meus próprios recordos também e, claro, na nossa memória intervém a nossa formação, as nossas leituras, pudem ter deformado as suas figuras... Mas o que eu queria não era ficcionar a história, era contá-la como a vivemos. É possível parecem os tipos de Castelao, o qual não é intencionado, porque Castelao escreveu essa mesma época. Porque existiam pessoas assim nessa sociedade.

"O que eu queria não era ficcionar a história, era contá-la como a vivemos"

Quando falas de caciquismo, falas de escravatura. E acáe-lhe bem.

É que eu acho que há muita relação. Essa maneira de destruir a consciência de um povo e convencê-lo da sua inferioridade, até da sua animalidade, como salientava Celso Fernández no lançamento do livro. As pessoas que descem dos escravos ainda hoje estão a recuperar-se dessa aprendizagem. É o mesmo modo de proceder do caciquismo e do fascismo. Todo o mundo é inferior a eles e tem que servi-los. Quando nos dizem que o galego é um povo fraco e apoucado, esquecem não só a repressão franquista mas a anterior: as caseiras, a redenção de foros... tudo o que suportaram as galegas. Por outra parte, a mim também me incomodava muito o do fascista bom, fascista mau. Tinhamos outro tio, o tio Ramom, alcunhado na família como o fascista bom porque não matou como, disque, o tio Manuel. E aí comparo com aquela ideia do escravagista bom que não malhava nos escravinhos e dava-lhes bem de jantar e deixava-os descansar os domingos. Mas sem nunca questionar o seu direito à propriedade, a possuir a liberdade de outrem. Porque o tio Ramom participou do mesmo regime de terror que o tio Manuel. E também tirou proveito desse regime.

A violência vai tendo mais presença à medida que avança o livro. E, além da repressão, aponta a isso: a violência humana, que mistura as tendências individuais com as do sistema.

Há muita violência no livro, mas a realidade foi mais brutal ainda. Está suavizada, não porque eu o decidisse mas por tê-la narrado partindo de fontes documentais, não orais. A Ramón Barreiro não lhe cortaram um dedo, como conto no livro. Cortavam-lhe um dedo cada dia, e escrevia notas para seus pais dizendo que estava vivo e que estava bem com os dedos que lhe restavam. E isto sei-no porque ainda não há dez dias que lho escutei contar à sua sobrinha Elena, que lho narra a Montse Fajardo no livro Un cesto de mazás. É tal a brutalidade da repressão, que me parece um insulto que os repressores tenham o direito de permanecer no anonimato. Eu não quis ser sádica nem exibicionista na exposição da violência, era uma cousa que me preocupava ao escrever e buscar o tom da narrativa, mas também não queria ocultar a realidade.

Penso que há condicionantes que favorecem ou apagam a violência. Há gente que tem tendência ao mal, mas depende do entorno no que se desenvolve e constrói como pessoa fomentá-lo ou impedi-lo. Por isso é muito importante que haja sistemas democráticos, com as liberdades e direitos garantidos. Porque o que fazem os sistemas autoritarios e ditatoriais é facilitar que as pessoas ruins exerçam a ruindade. E isso passou com o tio Manuel. Pôde exercer no campo político a violência que exercia já contra a sua família. Uma democracia com liberdades, direitos e justiça garantidos pode conter a violência que todas as humanas levamos dentro. O franquismo deu-lhe o poder a quem levava dentro a brutalidade e a vontade de dominar as outras.

"O franquismo deu-lhe o poder a quem levava dentro a brutalidade e a vontade de dominar as outras"

A noiva é o navío, o teu livro anterior, é a historia duma viagem por mar. Mas parece, en realidade, uma metáfora da viagem que é a vida.

a noiva e o navio é um livro que fala de amor e mar, como bem transparenta o título. Quigem fazer meu aquele tópico clâssico do Homo viator, mas centrado no amor e mudando os caminhos polas rotas marítimas. Porque se algo têm em comum o amor e o mar e que ámbos provocam dificuldades, medos, dúvidas, paixões e desamores. Mas em realidade essa foi a segunda escolha: a primeira foi lingüística. No começo o que quigem foi apropriar-me duma língua que me era desconhecida mas que é minha desde sempre, pois faz parte do património galego: a lingua marinheira, neste caso do Mar da Arouça. E o mar da Arouça reaparece em seique, no final, na parte mais rude e violenta, atravês dessas dornas que são tobos de fugidos e esse mar que vomita assassinados.

A tripulação quer fazer uma carta nova de navegar, volver situar o mar e a terra. Buscar outro caminho. No teu primeiro livro contavas o processo de construção duma casa, e fazia-lo para reivindicar a possibilidade de um outro jeito de construír o futuro, individual e colectivo.

quem sabe se [de]construçom não nasceu em realidade do que se conta no seique: esse arrancar a casa matriz a uma família. Lá falava da necessidade de contar com um porto refúgio, um lugar que simbolizasse isso: a construção de um futuro próprio. a noiva e o navio é a possibilidade duma travessia feita realidade. Se o primeiro livro pedia seguridade e firmeza, o segundo aposta polo risco e a aventura. Tes claro quem és e como és: busca o encontro com outros eu, mas de uma maneira nova. E aí a reflexão centrava-se nos conceptos de amor e de como socialmente estamos obrigadas a estabelecer as nossas relações sentimentais. A nossa sociedade só concebe como normal uma relaçom sentimental heterosexual, estável, de parelha e destinada à reprodução. Penso que uma aprendizagem bem inoculada durante o franquismo. A tripulação da minha dorna reivindica o seu direito a construir uma relação sentimental com normas próprias. O seique, pola sua parte, reclama a necessidade de saber dónde vimos, quais são as nossas raízes, e por isso as árvores, a madeira, têm presença. Mas também aparecem os carros de bois. Porque saber dónde ves é básico para saber que futuro queres oferecer às que venhem atrás.

"Em realidade quigem escrever a história que ninguém me aprendeu"

Pandora leva a culpa de todos os males. E a súa figura coneta-nos con aquiltadas, e tambén com o teu primeiro poemário, no que a preocupação pola mulher já estava presente: mulheres ignoradas, exploradas, humilhadas, represadas.. pero tamén mulheres fortes e rebeldes, "da caste de mulheres indecentes").

Pandora leva a culpa de todos os males na história oficial; no poema que eu lhe adico é uma mulher apaixonada que provoca um temporal para que o seu amante não vaia ao mar e volte à cama com ela. E sim, Pandora podia fazer parte das mulheres aquiltadas. Dediquei o meu primeiro livro às casas das que provenho (eiras, portaris, arines) e caim na conta de que faltava uma, porque uma das minhas avós não tem casa nomeada. A minha bisavó era lavandeira e mãe solteira, o que a condenou ao anonimato até na história familiar. Ao não ter casa e não colher num poemário de casas, decidim adicar-lhe um livro inteiro a ela e a todas as mulheres que ficaram fora, na margem ou com uma imagem deformada na história que aprendemos. Em realidade quigem escrever a história que ninguém me aprendeu. Uma história que desse espaço a todas essas mulheres que eu gostava de ter conhecido na escola, nos jogos, na casa, na tevê, e que puidessem ter-me servido de modelo para eu construir-me como pessoa. Gostaria de ter sabido da vida da minha bisavó; gostaria de ter sabido de Hipatia de Alexandria antes dos 25 anos em que a conhecim; gostaria de que alguém me tivesse falado de Erzebet Báthory... E isto coneta com o seique, porque outra vez busco construir a história que ninguém me aprendeu quando nena. E nessa história volta ter espaço a bisavó elena. E as outras avós.

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