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Joám Lopes Facal

Com vocaçom de maioria, hipóteses para um debate (I)

O panorama político actual da Galiza nom deixa muita margem à complacência. A impotência que revela o discurso nacional frente a sua exaltaçom em Catalunha e ao medido silêncio do PNV — nom obstante, convém nom esquecer, a manifesta hegemonia das forças soberanistas bascas: PNV (37,6% de apoio eleitoral, 28/75 escanos), EH Bildu (21,13%, 11/75 escanos) — interpela sem possível evasiva a esquerda nacional galega. Próximos a cumprirmos quarenta anos de autonomia, parece mais do que oportuno submeter a reflexom colectiva o progressivo esvaecimento do património político legado polo Partido Galeguista de Castelao.

Entretanto, um xordo mal-estar social adoenta o país: colapso demográfico, desequilíbrio territorial crescente, que condena a franja oriental do país ao abandono massivo de lugares, sacrifício cruento da geraçom mais nova, impedida do acesso ao mercado de trabalho e à sociabilidade que ele comporta, degradaçom de expectativas, desigualdade e resignaçom colectiva.

Os indicadores macroeconómicos marcam, no entanto, bonança como repetem com insistência os órgaos do poder. O produto meio por habitante, 21.358 euros em 2016, supera já ligeiramente o de 2008, embora o desemprego se mantenha ainda em 182.000 demandantes de trabalho em cifras de 2017: 14,7% da populaçom activa, 35,1% entre os menores de 25 anos. Os soldos marcam níveis mínimos, empurrados pola política económica promovida polo governo central que castiga com dureza as famílias a começa a mobilizar os perceptores.

A actividade do Parlamento Galego nom chega à rua, esmagada como está polo exercício da maioria mecánica aplicada polo partido no governo e à fragmentaçom e impotência da oposiçom. A estabilidade institucional, tam precária em Madrid, marca níveis óptimos em Galiza graças ao vigoroso pacto implícito subscrito entre timorato conservadorismo da maioria social e o autoritarismo tecnocrático imperante nas instituiçons autonómicas. Oficialmente, reina a satisfacçom geral só interrompida polos dissidentes de ofício como nom se priva de repetir a imprensa amiga.

No verao de 1947 rematava Castelao o Sempre em Galiza reclamando um status de cosoberania para a Galiza, numha república federal hispánica aberta à confederaçom com Portugal numha Europa unificada. Depois de setenta anos o testamento segue transmitindo o seu incitante apelo, mais realista hoje talvez, na Europa sem fronteiras que habitamos, do que nos atribulados tempos da derrota em que foi escrita. A sombra da Galiza projecta-se hoje de maneira incipiente nas instituiçons europeias e mesmo em Portugal, garantia permanente da vitalidade da nossa cultura e parceiro indispensável, junto com a França, da nossa economia. As pre-condiçons para abordar um futuro de prosperidade e confiança nas próprias forças aí estám, digam o que dixerem os pregoeiros da inibiçom derrotista.

Quanto nom teria feito a generosa geraçom republicana de Castelao com a autonomia que agora temos na sala de espera! Umha resignada impotência parece impregnar o impulso emancipatório e identitário latente na sociedade. Quê fazer com legado de nacionalidade histórica reconhecido no texto constitucional? Legado reversível, por certo, caso cair em desuso.

Na opiniom persoal deste observador do comum seria oportuno e mesmo imperativo, abrir a debate social a questom da mudança política inadiável numha dupla direcçom: reactivaçom do projecto nacional galego e desenho de um programa ambicioso de progresso e equidade social. Convocar a sociedade, em definitivo, a umha revoluçom de expectativas capaz de sacudir o marasmo fatalista que a tolhe. A proposta requer como mínimo dous requisitos preliminares: actualizar o discurso político para libertá-lo do óxido que lhe foi cegando o gume e acometer umha operaçom de consolidaçom das forças de renovaçom capaz de revocar a dinámica de fragmentaçom indefinida por localidades, tribos e tendências que obnubilam o impulso renovador e confirmam o plácido discurso do poder. Retirar os retratos dos bisavôs pendurados na sala é o preceito mais que assisado.

É inevitável lembrar as notas finais da Teoria Geral de Keynes: "... As ideias dos (economistas e filósofos) políticos, tanto quando correctas como quando erróneas, tenhem mais poder do que comummente cremos. De facto, o mundo está dominado por elas. Os homens práticos, que se crêem isentos de qualquer influência intelectual, som usualmente escravos de algum (economista) defunto. Dementes com autoridade, que escuitam vozes no ar". Cancelar de momento as vozes da tradiçom para que todos falem parece razoável.

Vindicar umha versom actualizada da tradiçom social-democrata como espaço de encontro pode ser um bom caminho para depurar os organismos políticos dos excessos ideológicos passados que ainda ecoam no ar e condicionam os discursos. Somos conscientes do desdém pola simples mençom da perspectiva social-democrata, tanto polo pesado legado difamatório da tradiçom marxista-leninista como pola revelhida atmosfera acomodatícia que arrasta ainda o PSOE por anos de adicçom ao poder institucional. O último episódio confirmatório é o recente abandono do partido por J. A. Perez Tapias, destemido paladim da opçom republicana de esquerdas no PSOE, hoje estigmatizada.

Pareceu-nos oportuno abordar a funcionalidade da opçom socialista actualizada em boa companhia: a da Escola de Francoforte, herdeira da rica tradiçom crítica que apousa no pensamento de Hegel, Marx e Freud. Nom seria pertinente intentar resumir a posiçom actual da respeitada Escola alemã quanto à virtualidade da opçom socialista, o meu propósito é muito mais modesto: ensaiar a defesa da opçom social-democrata como ponto de encontro plural com ajuda de um manual de recente publicaçom de Axel Honneth (1949, Alemanha), filósofo social discípulo de Habermas e enquadrado, por tanto, na terceira geraçom da prestigiosa Escola de pensamento crítico1.

 

NOTAS

1- Axel Honneth (2017): La idea del socialismo. Una tentativa de actualización, Katz Editores, Buenos Aires, Madrid.

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Acerca de Joám Lopes Facal