Leitura construtiva do artigo de Henrique Monteagudo ''A estandarización do galego'

"Se o que pretendemos é re-significar o galego como sendo parte do diassistema português, é preciso de ajuda psicológica para mudar a consciência de cada indivíduo" © AGAL

Vou partilhar aqui algumas reflexões sobre a padronização do galego. Esta é a questão que me obcecava há mais de dez anos e que ressurgiu de novo nestes dias a partir da leitura do artigo "A estandarización do galego: vellos debates e novos horizontes", de Henrique Monteagudo, dentro da compilação editada polo próprio Monteagudo: "A estandarización das linguas da Península Ibérica"

Para me distrair um pouco dos modelos de linguagem, que é o tema que me tem obcecado ultimamente por ser a minha área de trabalho académico, vou partilhar aqui algumas reflexões sobre uma questão mui diferente, a padronização do galego. Esta é, em realidade, a questão que me obcecava há mais de dez anos e que ressurgiu de novo nestes dias a partir da leitura do artigo "A estandarización do galego: vellos debates e novos horizontes", de Henrique Monteagudo, dentro da compilação editada polo próprio Monteagudo: "A estandarización das linguas da Península Ibérica", publicada polo Consello da Cultura Galega, e de acesso livre nesta ligação. Gostei dalgumas ideias —dumas mais do que doutras— e, para expor a minha análise, vou tentar organizar um fio argumentativo baseado em vários temas do artigo, especialmente os ligados ao reintegracionismo. 

Achei mui útil e interessante a secção sobre o castrapo, nomeadamente quando o autor descreve como as novas gerações de galego-falantes estão a apropriar-se do termo e a dar-lhe um novo significado positivo. É uma pena, no entanto, e este detalhe não foi mencionado no texto do artigo, que haja cada vez menos novas gerações de galego-falantes que podam dar uma re-significação ao castrapo. Se a tendência à baixa se mantém, em breve, este grupo será uma minoria social e, como tal, o seu discurso será enquadrado na radicalidade da periferia, junto com outras minorias que bem conhecemos. Em relação ao castrapo e à língua oral, deve-se salientar que o processo de padronização da língua falada não foi desenvolvido com o mesmo empenho que o da escrita. Ao contrário do que se pensa comummente, a fala é, na perspetiva reintegracionista, um elemento fulcral na padronização, mesmo mais relevante que a escrita. Desde o reintegracionismo, vem-se defendendo que o padrão falado tem que construir-se a partir das falas vernáculas, é dizer, a partir do castrapo oral. Esta construção teria que proceder respeitando a entoação, ritmo, acentuação, abertura de vogais, sintaxe, expressividade colocacional e idiomática da língua oral vernácula. No entanto, infelizmente, o padrão oral do galego foi construído com base na prosódia espanhola, uma prosódia que sempre foi a pronúncia das elites e que, já agora, graças a, entre outras cousas, esta (des-)padronização do galego oral, o acento espanhol está a ser transversal ao galego falado em todas as classes sociais. É por isso que a reinvidicação do castrapo de Monteagudo, que é a mesma reinvindicação histórica do reintegracionismo, coloca a prosódia galega vernácula —muito próxima das falas do norte de Portugal— como o cerne, semente e eixo que vertebra o processo de padronização. Se o padrão oral atual estivesse baseado na prosódia do castrapo vernáculo, a descastelhanização lexical (uso do galego sem "ayer", "siempre", "gallego",  "abuela", etc.) teria sido possível sem grandes debates, pois haveria uma identificação muito mais natural entre o registro formal e as falas informais e populares. 

Aqui devo discordar do meu amigo e camarada Eduardo Maragoto, quem, quando fala de binormativismo, situa a norma autonomista como mais próxima das falas populares. Suponho que se está a referir à relação entre a norma escrita e a fala popular, uma distância que sou incapaz de medir e, consequentemente, não podo pronunciar-me a esse respeito. O que estou a argumentar é que a norma oral reintegracionista é uma abstração da fala popular mesma, do castrapo próximo das falas minhotas portuguesas, embora descastelhanizado lexicalmente. E é aqui onde está a grande diferença entre o reintegracionismo e o autonomismo, pois este não soubo ou não foi quem de construir esse padrão oral que o reintegracionismo historicamente reivindica. Lembro-me bem quando um bom amigo reintegracionista, José Ramom Pichel, me confessou que era reintegracionista precisamente por causa da semelhança entre as falas populares galegas e o português minhoto que escutava nas feiras de Valença do Minho, polo que a padronização do galego oral deveria ser construída a partir desse núcleo comum irradiador. Em consequência, entre as medidas a tomar para elaborarmos um novo padrão oral baseado no castrapo que corrija a terrível deriva atual, acho que é essencial promovermos a discriminação positiva nos médios de comunicação públicos dos/as paleofalantes e dos/as neofalantes que consigam reproduzir com rigor a prosódia paleofalante. Ao mesmo tempo, terá muito sentido desenvolvermos modelos de voz com IA que aprendam das variedades ainda vivas da nossa língua. Para quando um modelo de linguagem que fale com pronúncia de Mazaricos, ou do Grove? Espero que o Projeto NÓS, focado em fornecer modelos de IA para o galego, continue a trabalhar para garantir maior soberania digital desenvolvendo este tipo de ferramentas.

Desde o reintegracionismo, vem-se defendendo que o padrão falado tem que construir-se a partir das falas vernáculas, é dizer, a partir do castrapo oral

No tocante ao debate identitário, há alguns parágrafos um pouco confusos que não vou abordar em profundidade, mas que não podo deixar de comentar. Nomeadamente, refiro-me a este excerto onde se cita um texto do meu caro colega Xosé Luís Regueira: "O uso de elementos lexicais reintegracionistas forma parte dunha «estratexia de distinción», xa que “permite simbolizar un rexeitamento tanto do español (da lingua e da estrutura política do estado español) coma do ‘galego oficial’ das institucións autonómicas e dos grupos nacionalistas que aceptan [...] o xogo político institucional”, opóndolles unha identidade ideolóxica independentista, radical, avanzada (Regueira 2020: 42-47)." Nunca pensei que quando digo ou escrevo "percurso" ou "equipa" estivesse a desmascarar uma ideologia independentista e uma profunda rejeição tanto do espanhol como do galego RAG-ILG. Se alguém me psico-analisasse, seica também encontraria uma relação inconsciente entre estes usos lexicais e o desejo de matar simbolicamente o meu pai, como manifestação do meu Complexo de Édipo. Consultarei isto com a minha psicóloga. Sempre pensei que usava as palavras convergentes com o português para tentar ser coerente com o meu modelo de língua dentro do espaço lusófono. Se calhar, estava enganado e sempre estivem controlado polo meu sub-consciente radical. Como membro duma minoria linguística, as minhas decisões lexicais semelham mais bem estar motivadas por um impulso inconsciente cujo intuito essencial é o de opor-se ao que fala a maioria. Se levarmos esta argumentação ao extremo, caracterizar uma minoria qualquer polos traços negativos que a opõem à maioria social, equivale a caracterizar os indivíduos veganos como inimigos das pessoas que comem carne, ou as pessoas homosexuais como um grupo que se opõe frontalmente aos heteros. Defender os animais, proteger a natureza e apoiar a diversidade sexual não seriam as motivações reais destas pessoas. Não é isso o que transparece na citação acima? Ou eu entendi mal aquela argumentação? Se calhar, querem-nos (os e as reintegratas) caladinhas e ainda dentro do armário.

Proponho que as instituições galegas e portuguesas potenciassem um sistema oficial de certificação do nível de galego na Galiza especial para as pessoas de países lusófonos, permitindo-lhes obter um C1 ou CELGA 4 com um curso de três meses adaptado às suas características

Continuemos agora com aspectos mais positivos do artigo de Monteagudo. No que di respeito ao binormativismo, concordo no essencial: "sería admisible e ata desexable outorgar unha certa oficialidade ao portugués en Galicia, tanto en versión brasileira como en versión portuguesa. Unha oficialidade, por dicilo así, receptiva, isto é, que non impuxese o emprego do portugués a ningunha institución, empresa ou particular, pero si que permitise admitir o seu uso nas comunicacións coas institucións e as empresas. En todo caso, o máis importante sería avanzar con máis decisión do que se ten feito pola senda marcada pola chamada Lei Paz-Andrade, e tomar iniciativas ambiciosas de promoción da aprendizaxe do portugués no sistema educativo galego, de fomento da difusión dos medios audiovisuais e da circulación de produtos culturais en portugués en Galicia". Sim, já é hora de tomar iniciativas ambiciosas nesse sentido. Força e avante! 

Além das já expostas, proponho também que as instituições galegas e portuguesas potenciassem um sistema oficial de certificação do nível de galego na Galiza especial para as pessoas de países lusófonos, permitindo-lhes obter um C1 ou CELGA 4 com um curso de três meses adaptado às suas características. E do mesmo jeito, nesses países deveria também existir um mecanismo análogo em relação às pessoas que fórom escolarizadas na Galiza. Não é utópico. Com esta medida, ganha toda a sociedade em todos os países envolvidos e teria, portanto, um impacto social mui importante. Deste jeito, sugiro às reitoras e reitores das universidades públicas galegas que implementem um sistema de integração que permita ao estudantado lusófono poder comunicar-se e avaliar-se na sua língua nativa nas nossas universidades. Isto é o que eu entendo por começar a implementar um binormativismo realista e útil.

Sem assumirmos a unidade linguística, o pluricentrismo na Galiza fica só na esfera do debate teórico e intelectual. É um tema que não se pode materializar em ações e estratégias concretas de normalização sem um prévio ato performativo comunitário em que se valide a equação Galego = Português

O artigo de Monteagudo também trata de jeito interessante o pluricentrismo e as línguas pluricêntricas como o português, com vários padrões nacionais: "o sistema portugués tería que deixar de ser un sistema monocéntrico e fortemente xerarquizado, e tería que dar cabida á pluralidade e reconfigurarse nunha orde menos xerárquica e máis horizontal." Eu próprio tratei há vários anos este tema no seguinte artigo, onde sugerim a relevância de "promover um modelo realmente pluricêntrico, com vários centros interactuantes [entre Portugal, Brasil, Angola, Galiza, Mozambique...] que se situem ao mesmo nível num processo dinâmico de cooperação mais horizontal e, portanto, sem dominações". Alegro-me de concordar com Monteagudo neste assunto. No entanto, a seguinte afirmação é mais confusa: "o reintegracionismo galego ten que reflexionar sobre a cuestión do pluricentrismo do portugués e á luz desta perfilar as súas propostas, a risco de que estas carezan do necesario apoio na realidade.

Ora bem, se o estado mental da maioria das pessoas não situa o galego como parte do diassistema lusófono, não sei que tipo de ações baseadas na realidade se podem levar a cabo relacionadas com o policentrismo. Por enquanto, só podemos teorizar, reflexionar sobre a questão e debater se apoiamos, por exemplo, um processo simétrico horizontal orientado cara à endornormatividade, que é o que eu proponho, ou hierárquico orientado cara à exonormatividade e a relações de dominação. Os debates são sempre divertidos e enriquecedores, mas só terá sentido definir medidas concretas para levarmos a cabo ações a nível internacional uma vez recuperada a unidade do galego e português. Sem assumirmos a unidade linguística, o pluricentrismo na Galiza fica só na esfera do debate teórico e intelectual. É um tema que não se pode materializar em ações e estratégias concretas de normalização sem um prévio ato performativo comunitário em que se valide a equação Galego = Português.

No mesmo sentido, não percebo bem por que os reintegracionistas, que não temos nenguma capacidade de decisão nas instituições, temos que ter já claras as nossas propostas.  Monteagudo sugere que "paira unha seria indefinición sobre a norma dita “internacional”, [ ] mentres que na corrente reintegracionista continúan a existir distintas concepcións e propostas normativas." Considero que é normal e esperável esta diversidade de opções numa situação de precarização. A mesma dispersão tende a acontecer quando uma língua minorizada não tem ainda um padrão unificador. Todas as minorias, longe do poder institucional, tendem a dividir-se ainda mais. Isto está mui bem formulado pola velha brincadeira francesa dos dous troskistas que se encontram e formam um partido, mas quando chega um terceiro, o partido divide-se em duas fações. Eu estou disposto a adotar a norma reintegracionista, seja qual for (com -çom, pré-acordo, pós-acordo, AGAL pré-Maragoto, AGAL pós-Maragoto, mínimos maximizados, máximos minimizados,...), uma vez que nos confirmem que vai ter carácter oficial e vai utilizar-se no ensino obrigatório. Prometo ser disciplinado e apoiar o que diga a maioria. Enquanto isso, enquanto não houver nenguma consideração oficial, vou —e vamos— navegando entre diferentes normas, dependendo do contexto.  

Se o que pretendemos é re-significar o galego como sendo parte do diassistema português, é preciso de ajuda psicológica para mudar a consciência de cada indivíduo. Não é necessário um debate lingúístico nem político, mas um boa terapia psico-analítica em grande escala que mude o estado mental dos e das falantes

De todas as ideias expressas por Monteagudo, a que mais me impressionou, por ser o cerne da argumentação reintegracionista, é a seguinte: "Pero, en certo sentido, moi real, aprender portugués é (re)aprender galego, igual que aprender galego tamén é aprender portugués. Para quen escribe estas liñas, isto é evidente: a experiencia mostra que canto máis portugués aprendemos, máis recursos temos para mellorar o galego, individual e colectivamente. Na mesma liña, no cabe a dúbida de que o aproveitamento masivo e sistemático do léxico portugués é un recurso abundante, barato, acaído e sumamente eficaz para a modernización do galego, especialmente nos distintos ámbitos terminolóxicos." Não poderia concordar mais com o que foi exposto acima. É um dos principais argumentos que eu próprio utilizo para explicar os benefícios do reintegracismo.  É importante ter em conta que este reaproveitamento acontece quando falamos de duas variedades do mesmo sistema linguístico. Não conheço nengum caso em que esta situação de reaproveitamento linguístico se materialize entre variedades de diferentes diassistemas. Quando isso ocorre entre línguas diferentes, falamos de interferências, empréstimos, contaminação, e não de reaproveitamento. Digo isto porque uma linha depois, Monteagudo afirma: "Pero de aí a resignificar o portugués, europeo ou brasileiro, como galego internacional vai un longo treito, que non é doado que percorramos no futuro previsible." Depois do dito anteriormente, onde se pressupõe que as duas variedades pertencem a um mesmo sistema, já agora parece que não são a mesma língua. É dizer, no mesmo parágrafo o autor afirma que o galego e o português são e não são a mesma língua, quebrando assim o princípio do Terceiro Excluído —para qualquer proposição, ou ela é verdadeira, ou a sua negação é verdadeira—, pois considera que ser e não ser a mesma língua são ambas as duas proposições verdadeiras. Isto lembra-me o célebre quebra-cabeças de Bertrand Russel que, a partir desse mesmo princípio, não podia admitir que as duas proposições "o rei da França é calvo" e "o rei da França não é calvo" fossem as duas falsas. O alcance da negação sobre o quantificador existencial resolvia o problema —na verdade, a restauração monárquica também teria resolvido o problema. 

Segundo esta reflexão, as portas só se abririam uma vez tenhamos atingido o objetivo de todas e todos, autonomistas e reintegratas: normalizar o galego. Se depois de 40 anos de normalização autonomista, observamos que os resultados colocam o galego num estado de declínio crónico, então provemos uma nova estratégia

Mas no nosso caso, o quebra-cabeças só se pode resolver se consideramos dous níveis concetuais que não entram em contradição. Um primeiro nível situa-se na materialidade e realização da língua, é dizer, nas sua realidade linguística. A esse nível, o galego e o português são duas variedades do mesmo sistema e reaproveitam-se mutuamente. É o que di Monteagudo na primeira parte da citação. Um segundo nível situa-se na dimensão psicológica da língua, no estado mental dos e das falantes, na re-significação dos símbolos. Esta é a segunda parte da citação. A este segundo nível, de acordo com o autor, galego e português são e provavelmente serão para sempre línguas diferentes. Portanto, se o que pretendemos é re-significar o galego como sendo parte do diassistema português, é preciso de ajuda psicológica para mudar a consciência de cada indivíduo. Não é necessário um debate lingúístico nem político, mas um boa terapia psico-analítica em grande escala que mude o estado mental dos e das falantes.

Quase no fim do artigo, surge esta interessante questão: "Ten sentido erguer un réxime de normatividade para o galego análogo ao das vellas linguas de estado-nación? Repensar a padronização do galego não significa renunciar à qualidade nem à rigorosidade científica, mas abrir o campo para uma governança linguística mais plural, dialogada e democrática

Dentro da mesma argumentação, Monteagudo volta a abrir as portas a uma possível aproximação ao português:  "Ora, tampouco se pode pechar a porta a que máis adiante, co galego asentado socialmente, co seu porvir asegurado como lingua dos galegos e as galegas, exista a posibilidade de reformar o seu código normativo, especialmente no plano gráfico, para aproximalo ao portugués. Mais apresurarse nese camiño pode ter efectos contraproducentes." Segundo esta reflexão, as portas só se abririam uma vez tenhamos atingido o objetivo de todas e todos, autonomistas e reintegratas: normalizar o galego. Devo dizer que, se conseguimos finalmente normalizar o galego com a estratégia autonomista e converti-lo em língua hegemónica na Galiza, não teria problema nengum em continuar do mesmo jeito, sem mudar cara ao português. Para que mudar nada se tudo já está a funcionar bem? Isso não impediria que eu e o meu círculo social mais próximo  continuássemos a aproveitar as vantagens do português, tanto no âmbito profissional como cultural. Ora bem, o reintegracionismo é essencialmente uma estratégia para normalizar o galego. E se as coisas não estão a correr bem com o método autonomista, por que não mudamos de estratégia abrindo o espectro cara ao português? Todo método científico tem como base a experimentação prova-erro: se alguma cousa não funciona, provamos uma outra. Se depois de 40 anos de normalização autonomista, observamos que os resultados colocam o galego num estado de declínio crónico, então provemos uma nova estratégia. Não foi assim que o homo-sapiens evoluiu?

Devemos procurar um modelo que não submeta a criatividade dos e das falantes a um único centro de poder. Se o galego é património coletivo, também a sua orientação normativa deve ser o resultado duma inteligência coletiva, construída desde baixo, horizontal e em rede, alimentada pola diversidade e onde o português seja um dos vetores de transformação

Quase no fim do artigo, surge esta interessante questão: "Ten sentido erguer un réxime de normatividade para o galego análogo ao das vellas linguas de estado-nación? Teremos capacidade de imaxinar outro menos ríxido, menos xerárquico, menos excluínte e autoritario, máis aberto, máis dinámico, participativo e integrador? Quede a pregunta, como un desafío, no ar". Recolho o desafio e respondo: sim, podemos imaginar uma súper-estrutura linguística sem Real Academia Galega, à maneira luso-brasileira e anglo-saxónica, onde a autoridade se distribui entre diferentes agentes. Podemos conceber uma comunidade de falantes que, em vez de subordinar-se a uma única instância normativa, dialogue criticamente com as diferentes propostas lexicográficas e gramaticais, valorizando a diversidade de usos e registros. Neste novo contexto, dicionários como Estraviz, se a comunidade assim o considerasse, seria uma das ferramentas de normativização lexical, junto com outras possíveis, como o dicionário da RAG —ou da associação herdeira uma vez esta extinta. Seria um ecossistema no que universidades, editoras, coletivos culturais, professorado e a cidadania organizada contribuam —em pé de igualdade— à reflexão sobre a língua, sem que ninguém reclame para si próprio o monopólio da correção e da padronização. Um modelo, em definitiva, que aposte pola co-responsabilidade partilhada e pola autoridade que nasce do prestígio intelectual e social, e não da imposição institucional.

Espero que a resposta dada à pergunta colocada acima ajude a enxergar o caminho que temos que percorrer juntas. Repensar a padronização do galego não significa renunciar à qualidade nem à rigorosidade científica, mas abrir o campo para uma governança linguística mais plural, dialogada e democrática. Devemos procurar um modelo que não submeta a criatividade dos e das falantes a um único centro de poder. Se o galego é património coletivo, também a sua orientação normativa deve ser o resultado duma inteligência coletiva, construída desde baixo, horizontal e em rede, alimentada pola diversidade e onde o português seja um dos vetores de transformação.

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