Som as 10 da manhã. Fai pouco que comecei a rutina dos meus últimos dezaoito dias: às 9 a.m. passarom as enfermeiras a tirar-me sangue pra umha análise; logo deixarom as mudas pra trocá-la roupa e, nestes intres, começo a almorçar ao tempo que umha das auxiliares de enfermaria fai a minha cama
Som as 10 da manhã. Fai pouco que comecei a rutina dos meus últimos dezaoito dias: às 9 a.m. passarom as enfermeiras a tirar-me sangue pra umha análise; logo deixarom as mudas pra trocá-la roupa e, nestes intres, começo a almorçar ao tempo que umha das auxiliares de enfermaria fai a minha cama.
No meu móbil há umha chamada perdida que aguarda por mim dende as 8:15 da manhã. Quando miro o móbil, som já as 12. A chamada era do encargado do projeto no que estou a trabalhar, inda que agora, ante a minha demora em atendê-la, também tenho um guasap dele. Leo-o e, no seu texto, acho intuir umha mistura de sensaçons: por umha banda, certa inquedança real polo meu estado de saúde e, pola outra, umha grande ansiedade polos prazos do projeto.
Nom quero pensar mal. Porém, o certo é que nom chego a diferenciar se é que é umha mensagem de preocupaçom sincera ou umha forma educada de lembrar-me que o trabalho segue aí, aguardando por mim. Que devo cumprir coas exigências do contrato. Tampouco podo culpá-lo, nem quero tirar-lhe de enriba todo traço de humanidade. Nom o merece. Pois até o de agora nom deu sinais do contrário: é umha boa pessoa e está a ser um bom encargado. Mas o problema é que essa ambiguidade, que poderia semelhar inofensiva, pesa. Pesa porque revela coma interiorizamos que estar disponível é umha obriga constante, mesmo quando o corpo marca um limite claro.
A pressom dos mercados laborais e a obediência aos ritmos da produçom estam a passar por riba das nossas próprias necessidades —e mais das comunitárias— de saúde, descanso e bem-estar. Coma se o mundo do trabalho tomasse possessom do corpo, do tempo e da atençom, deixando apenas migalhas pra vivermos de verdade
Nom podo culpá-lo, digo, porque ele nom é o único que exterioriza até que punto estamos alienados polo mundo laboral. Já que, ao observar-me, tampouco saio indemne. As necessidades económicas, o dever social, a cultura da responsabilidade, os medos à perda da autonomia… configuram umha espécie de prática moral individual, um dever ético autoimposto, que vai contra o meu próprio bem-estar.
De cotio já sinto essa necessidade de responder, de estar sempre disponível, de dar mais de min, inclusive mais do que me obriga o meu contrato laboral. Secassim, até o de agora nom fum consciente do grão em que estava infestado pola cultura da produçom em massa. Mesmo nos dias prévios ao meu ingresso, entre vómitos, febres com calafrios, tremores e alucinaçons, o pensamento mais recorrente que tinha era o do ver quando poderia atender às responsabilidades do trabalho. Até mesmo despois de jornadas hospitalizado, já sabendo que tenho umha infecçom de fígado e com três drenagens saindo-me do corpo, a exigência de reincorporar-me segue aí, misturada co medo ao despido e coas mensagens aparentemente inocentes dos responsáveis da empresa.
Ao final, a doença coa que ando a brigar nestes intres também trouxo à tona umha afecçom moito mais profunda: a perda da cultura do autocuidado. Ou dito doutra jeito, a pressom dos mercados laborais e a obediência aos ritmos da produçom estam a passar por riba das nossas próprias necessidades —e mais das comunitárias— de saúde, descanso e bem-estar. Coma se o mundo do trabalho tomasse possessom do corpo, do tempo e da atençom, deixando apenas migalhas pra vivermos de verdade.