Um necessário projeto de país: O transporte marítimo

Imagem do ferry Galicia, propriedade de Britanny Ferries, que navega regularmente entre o porto de Bilbau e o de Portsmouth (Reino Unido) ©

Semelha sensato, como um jeito de potenciarmos a atividade económica galega, o nosso comércio, as exportações e o turismo, pensarmos em restabelecer linhas regulares marítimas com os países ilhéus do Reino Unido e de Irlanda, dous dos países mais desenvolvidos do mundo e que contam com populações com uma elevada renda per capita

Se quisermos melhorar o estado da economia galega, conseguirmos mais postos de trabalho e aumentarmos os salários dos trabalhadores e os habitantes da Galiza seria imprescindível incrementarmos as nossas produções, o número de empresas, os seus mercados e as suas exportações.

E ainda que tenhamos uma situação periférica no âmbito das comunicações terrestres peninsulares e europeias não sucede o mesmo no relativo às possíveis que se possam estabelecer no setor do transporte marítimo, onde ocupamos uma posição geográfica privilegiada, como se pode comprovar com a nossa localização próxima às Ilhas Britânicas, à França e a Portugal, e como ponte entre a fachada ocidental de Europa e os continentes americano e africano. 

E assim, desde a mesma pré-história, quando as comunicações por terra eram assaz complicadas e perigosas, os habitantes das costas galegas se relacionaram por meio das navegações com outros povos do Norte e do Sul do nosso continente.

Vista aérea do porto da Coruña © Porto da Coruña

No setor do transporte marítimo ocupamos uma posição geográfica privilegiada, como se pode comprovar com a nossa localização próxima às Ilhas Britânicas, à França e a Portugal, e como ponte entre a fachada ocidental de Europa e os continentes americano e africano

O porto da Corunha, por exemplo, ativo desde a época romana, já tinha um carácter internacional na Idade Média, quando os peregrinos britânicos e outros mais nortenhos arribavam a ele para fazerem o chamado Caminho Inglês, como contou, entre outros, o viageiro e cronista William Wey, que peregrinou desde o seu país a Compostela em 1456. As visitas habituais dos navios ingleses permitian também um trânsido fluido de mercadorias em ambos os sentidos. 

No século XVII começou a linha de correio naval regular com Falmouth (Cornualha-Reino Unido), que se prolongou até mais da metade do XVIII. Além dela, houve naquele período um tráfego naval constante com os portos ingleses de Plymouth, Portsmouth e Southampton. Chegou-se mesmo a radicar na cidade herculina uma numerosa comunidade de comerciantes anglo-saxões, vendedores na Galiza de lenços, panos e bacalhau. No século XVIII e XIX também existiram conexões regulares transoceânicas com A Habana, o Rio da Prata (Buenos Aires e Montevidéu), Veracruz (México) e San Juan de Porto Rico.

 

Na nossa área geográfica atua desde há tempo a companhía da Bretanha francesa Brittany Ferries, que dispõe de treze grandes e modernos barcos e que efetua travessias regulares semanais com passageiros e mercadorias desde os portos de Santander e de Bilbau com Plymouth, Portsmouth, Saint-Malo (Bretanha-França) e Rosslare (Irlanda)

Lembre-se que a projeção atlântica da Galiza ou atlantismo galego -nada a ver com a OTAN- era considerada como estratégica para o nosso país pela nobreza galega dos séculos XIV e XV, mais partidária das relações económicas com Inglaterra, Portugal e Flandres, pelos benefícios derivados, que com a meseta castelhana. Esse posicionamento atlantista, mas num plano cultural e de defesa do celtismo, foi mantido por intelectuais regionalistas e galeguistas como Murguia e Vicente Risco. Na atualidade, infelizmente essas interessantes propostas económicas e culturais, compatíveis com outros relacionamentos, parecem esquecidas.

Porém, no tempo presente semelha sensato, como um jeito de potenciarmos a atividade económica galega, o nosso comércio, as exportações e o turismo, pensarmos em restabelecer linhas regulares marítimas com os países ilhéus do Reino Unido e de Irlanda, dous dos países mais desenvolvidos do mundo e que contam com populações com uma elevada renda per capita

Imaxe áerea do Porto de Ferrol © Autoridade Portuaria de Ferrol

Um barco seu, como o Galicia, com 3.100 m para a carga, pode transportar 1.050 passageiros, centenares de carros e 150 grandes camiões, alén de contentores

Na nossa área geográfica atua desde há tempo a companhía da Bretanha francesa Brittany Ferries, que dispõe de treze grandes e modernos barcos e que efetua travessias regulares semanais com passageiros e mercadorias desde os portos de Santander e de Bilbau com Plymouth, Portsmouth, Saint-Malo (Bretanha-França) e Rosslare (Irlanda). Como dado ilustrativo da relevância da sua atividade, só dizer que a linha Santander-Plymouth levou em 2025 -entre os meses de junho e setembro- 75.263 passageiros. Os centos de camiões transportados nela carregaram muitas mercadorias galegas, entre outras, peixes e mariscos, que em só 24 horas de navegação chegam ao porto de destino. Esta empresa de navegação manifestou várias vezes o seu interesse por estabelecer linhas regulares desde portos galegos. O da Corunha e o de Ferrol seriam dos galegos os ideais, por mor da sua localização setentrional.

Um barco seu, como o Galicia, com 3.100 m para a carga, pode transportar 1.050 passageiros, centenares de carros e 150 grandes camiões, alén de contentores. Sería preciso que no porto galego correspondente se realizasse previamente a instalação de um sistema Ro-Ro, que permitiria a entrada e saída pelos seus próprios meios dos veículos do ferry.

O estabelecimento de umas linhas de transporte marítimo regulares e mistas -passageiros, camiões, contentores, carros e autocaravanas- desde o porto da Corunha e o de Ferrol teriam de ser uma prioridade desde há muitos anos para as autoridades portuárias, municipais e autonómicas galegas

O estabelecimento de umas linhas de transporte marítimo regulares e mistas -passageiros, camiões, contentores, carros e autocaravanas- desde o porto da Corunha e o de Ferrol teriam de ser uma prioridade desde há muitos anos para as autoridades portuárias, municipais e autonómicas galegas, e mesmo do Eixo Atlântico. Com elas abririam-se muitas possibilidades de exportação e de importação para as empresas galegas e portuguesas, criariam-se empresas de logística, desenvolveria-se mais o setor turístico da Galiza e de Portugal e recuperariam-se as viagens históricas dos peregrinos do Norte de Europa.

As autoridades municipais e autonómicas galegas negociam cada certo tempo com as companhias de aviação as linhas aéreas dos seus aeroportos e com as empresas de transporte terrestre as que lhes afetam. Da mesma forma deveriam começar a fazê-lo com as empresas de navegação internacional, para a implantação de serviços de transporte marítimo desde a Galiza. E cada vez resulta mais imperdoável que não o façam.

Grazas ás socias e socios editamos un xornal plural

As socias e socios de Praza.gal son esenciais para editarmos cada día un xornal plural. Dende moi pouco a túa achega económica pode axudarnos a soster e ampliar a nosa redacción e, así, a contarmos máis, mellor e sen cancelas.