A inversão é um dos mais produtivos aproveitamentos de qualquer herança cultural: para Yeskov, homens e meigos impuseram um regime obscurantista e tirânico na Terra Meia, fronte uns orcos -vilmente difamados por Tolkien- amantes da paz e a razão; uns poucos filmes exaltam a dignidade dos povos originários da América do Norte, primeiro aniquilados e depois demonizados no western como arquétipo de “mau” de cinema; Torres-García debuxa uma América invertida para que a ponta do seu continente assinale insistentemente o Sul, “o nosso Norte”; Michel Tournier expõe qué é Sexta-feira, e nom Robinson Crusoe, enchido de racismo, quem resgata o outro da ignorância; numha das mais formosas propostas, Borges e Cortázar assomam-se a um mito que acendeu a imaginação por milénios, e sonham o Minotauro como uma vítima inocente, um poeta brutalmente assassinado por um defensor da ordem estabelecida. E não podemos esquecer o fetichismo da mercadoria marxiano: o capitalismo é o mundo da inversão entre sujeito e objeto, na que os produtos do trabalhador escapam ao seu controle, aparecem cheios de vida e controlam o seu criador.
Os vencedores não só acostumam escrever a história, senão também muita literatura, guiões cinematográficos, planos, mitologia e, com certeza, páginas e páginas de jornais
Se calhar, se estas descrições iluminam mais que os relatos originais é porque ali é onde tudo estava ao revês: os vencedores não só acostumam escrever a história, senão também muita literatura, guiões cinematográficos, planos, mitologia e, com certeza, páginas e páginas de jornais. Enquanto a reviravolta do vigente é por essência explícita e chamativa, o multifacetado pensamento dominante cobre-se com roupagens de neutralidade, inelutável como a gravidade, capaz de imprimir marcas profundas para nos obrigar a amar os opressores e odiar os oprimidos.
Assim, a extravagante realidade não impediu o sucesso desta recente mudança de lugar: a nossa língua é um monstro encerrado num labirinto de leis no que a gente é sacrificada; uma besta que devora direitos e liberdades, analfabetiza e arrepanha insaciavelmente fundos públicos, apesar da sua manifesta inutilidade para o progresso social, cultural e económico; a ignorância é um direito humano e a educação um menu à carta para as famílias. Se não podemos subestimar tantas insensatezes é só porque alcançaram a hegemonia para determinar o leme do executivo galego, que tem um paradoxal fundamento na existência da língua. Poderíamos perguntar, maliciosa e bretchianamente, se não iria tudo mais rápido de reclamarmos a dissolução do povo que criou o galego e fazer com que o governo elegesse outro.
Se por argumentos fosse, documentaríamos a marginação histórica, debulharíamos mais uma vez a miúda oferta em galego nos mais diversos âmbitos fronte a língua ubíqua, resgataríamos de novo tétricas e recorrentes estatísticas -como as últimas do Instituto Galego de Estatística- que confirmem a dimensão do furacão enquanto o governo dinamita diques e queima livros, não só de forma figurada. Mas a inversão oficial não funciona por razões aquilatadas em balanças, senão por mera tautologia, por elevação dos megafones. Esta batalha não a ganharemos se a travamos no terreio escolhido por quem domina a arte da guerra.
Só mudando os pontos cardinais poderemos orientar-nos num mundo tão desbussolado
No entanto, sabemos que não é o galego anomalia antropófaga nem agressor selvagem e primitivo, senão aprazível animal de pel de veludo e olhos infindos, insubstituível no ecossistema; não fortaleza e armadilha para estrangeiros, senão cidade aberta a quem chega; não erro entretecido entre milheiros de muros, senão memória, vozeiro e guia para evadirmo-nos de tantos labirintos, também o tormento económico. Também nós teremos que insistir -e não precisamos de mentiras- e romper muitos megafones, á vez que construimos os nossos próprios. É o relato censurado, e sem embargo próximo, acessível para quem o buscar, o único que conta a verdade. Será a soma de tantas ausências reverberantes a que nos permita construír um movimento popular quem de debuxar um mapa ao revês, um plano para repartir por toda a parte e exibir em todas as paredes do imaginário coletivo. Só mudando os pontos cardinais poderemos orientar-nos num mundo tão desbussolado.