O anti-imperialismo “vazio” e a materialidade do império

A carta publicada no Guardian por Angela Davis, Judith Butler, Alberto Toscano, Michael Löwy, Jairus Banaji e outras figuras da esquerda internacional quer escapar à alternativa conhecida de silenciar a repressão da República Islâmica porque o Irão é atacado pelos Estados Unidos e Israel, ou transformar a oposição ao regime iraniano em legitimação da guerra

A carta publicada no Guardian por Angela Davis, Judith Butler, Alberto Toscano, Michael Löwy, Jairus Banaji e outras figuras da esquerda internacional quer escapar à alternativa conhecida de silenciar a repressão da República Islâmica porque o Irão é atacado pelos Estados Unidos e Israel, ou transformar a oposição ao regime iraniano em legitimação da guerra. O problema não está nessa recusa do campismo, mas na forma como, em plena guerra, o erro político de uma parte da esquerda e a materialidade do imperialismo acabam aproximados dentro do mesmo «falso binarismo». A controvérsia aberta por Vijay Prashad permite colocar a questão noutros termos: o anti-imperialismo pode ser um significante vazio ou flutuante; o imperialismo sionista-norte-americano não é, por isso, um referente vazio.

A 20 de agosto, The Guardian publicou uma carta de solidariedade com os presos políticos iranianos assinada por intelectuais, ativistas e antigos presos políticos provenientes de tradições marxistas, anticoloniais, feministas e abolicionistas. O texto aproxima duas memórias: as execuções de presos de 1988 e o golpe de 19 de agosto de 1953 contra Mohammad Mosaddegh, preparado com participação britânica e norte-americana. Mas é escrito numa terceira conjuntura, que não constitui simples pano de fundo: desde 28 de fevereiro o Irão vive uma guerra iniciada por ataques de Estados Unidos e o estado sionista de Israel. Nesse dia António Guterres condenou o uso da força contra o Irão e, perante o Conselho de Segurança, falou de ataques militares massivos norte-americanos e israelitas contra cerca de vinte cidades. O manifesto reconhece expressamente essa guerra, denuncia a destruição de infraestruturas e as mortes civis e termina exigindo que Washington e Israel ponham fim aos ataques e às sanções.

Nada disso elimina a outra realidade de que parte a carta. A República Islâmica encarcerou, torturou e executou opositores, perseguiu trabalhadores e movimentos sociais e reprimiu mulheres e minorias. Nenhum anti-imperialismo consequente exige transformar Teerão em força emancipatória simplesmente porque Washington o combate. A dificuldade aparece quando os presos iranianos são descritos como pessoas colocadas entre «duas lâminas de uma tesoura» (“between two blades of a scissors”): de um lado, um regime que afirma resistir ao imperialismo enquanto reproduz «a sua lógica de dominação» através da prisão, tortura e execução; do outro, as potências norte-americana e israelita que bombardeiam o país em nome da liberdade. A carta amplia depois a analogia através de uma «lógica dos Estados carcerários em toda a parte» e conclui rejeitando «the false binary of imperialism and hollow anti-imperialism».

O problema não está nessa recusa do campismo, mas na forma como, em plena guerra, o erro político de uma parte da esquerda e a materialidade do imperialismo acabam aproximados dentro do mesmo «falso binarismo»

Convém não atribuir a hollow anti-imperialism um sentido que provavelmente não possui. Os autores não parecem estar dizendo que a resistência iraniana à agressão seja em si mesma vazia. O alvo são setores campistas da esquerda para os quais a posição de um Estado diante de Washington acaba funcionando como critério político suficiente: se os Estados Unidos atacam um governo, denunciar os seus presos, greves reprimidas ou minorias perseguidas, passa a parecer uma concessão ao inimigo. Essa crítica é necessária. Também no Irão há uma diferença decisiva entre defender um país contra uma agressão externa e oferecer confiança política ao aparelho que o governa.

Cihan Tuğal formulou essa distinção, meses antes do manifesto, em International Viewpoint. Critica a esquerda ocidental que entende o anti-imperialismo como apoio incondicional a regimes atacados pelo Ocidente e considera qualquer crítica uma traição. Mas começa estabelecendo a premissa inversa de qualquer país do Sul Global submetido a uma agressão imperialista deve ser defendido e, em caso de guerra ou ocupação, essa defesa não deve ser diluída. Portanto, o dilema não precisa ser anti-imperialismo seletivo, «campismo ou equidistância». Pode-se reconhecer uma hierarquia entre as contradições sem apagar nenhuma delas.

O campismo, porém, é um problema mais complexo do que uma escolha equivocada de aliados internacionais. Ele desloca o próprio lugar a partir do qual o marxismo pensa a política. Em vez de partir das relações de classe, da natureza dos Estados e dos sujeitos sociais existentes em cada formação, tende a organizar o mundo segundo a posição dos governos perante os grandes blocos geopolíticos. A pergunta sobre quem explora quem ou que forças podem transformar uma sociedade é progressivamente substituída por outra mais simples: de que lado está determinado Estado perante Washington? Movimentos operários, feministas, estudantis ou nacionais podem então tornar-se suspeitos quando desafiam governos situados no campo considerado anti-imperialista, e a possibilidade de instrumentalização externa passa facilmente a substituir a análise das causas sociais da própria revolta.

Alex Callinicos vê neste mecanismo mais do que um erro de análise. Em 2024 descreveu o campismo contemporâneo como uma «confissão de fraqueza», na medida em que deposita nos Estados rivais dos Estados Unidos a tarefa de resistir ao poder norte-americano que a esquerda já não acredita conseguir realizar através da luta «de baixo» dos trabalhadores e dos restantes explorados e oprimidos. Para Callinicos, isso corresponde também a uma versão empobrecida da teoria marxista do imperialismo, reduzida à dominação dos Estados Unidos sobre o resto do mundo. O resultado é perder de vista tanto os interesses capitalistas perseguidos pelos rivais de Washington como a própria natureza do imperialismo enquanto sistema de rivalidade entre poderes capitalistas. A pertinência dessa crítica reside em recentrar o foco naquilo que o campismo tende a deslocar: em vez do Estado apresentado como adversário do imperialismo, a capacidade de ação política independente das classes exploradas.

A controvérsia aberta por Vijay Prashad permite colocar a questão noutros termos: o anti-imperialismo pode ser um significante vazio ou flutuante; o imperialismo sionista-norte-americano não é, por isso, um referente vazio

Mas desta crítica não decorre uma equidistância entre todos os Estados. O próprio Callinicos reconhece que os Estados Unidos continuam a dispor de capacidades muito superiores às dos seus rivais e que as têm utilizado de maneiras particularmente destrutivas; a sua conclusão é que combater a intervenção norte-americana não deve implicar desculpar a exploração ou a repressão praticadas noutros países. É precisamente essa dupla determinação que importa conservar. O campismo pode transformar a geopolítica em substituto da luta de classes, mas o anti-campismo também deixaria de ser marxista se transformasse a legítima recusa de apoiar Moscovo, Pequim ou Teerão numa abstração das desigualdades efetivas do sistema imperial. A alternativa não é trocar um campo pelo outro nem observar ambos a igual distância, mas recuperar um internacionalismo capaz de opor-se à potência imperial sem entregar a sujeitos estatais rivais a representação política dos trabalhadores e movimentos que vivem sob eles.

Dois dias depois da carta, Vijay Prashad respondeu-lhe através da International Peoples Assembly. A sua crítica à metáfora da tesoura é contundente porque argumenta que, numa guerra desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel, o reconhecimento de quem é o agressor deve moldar o timing, a linguagem e as responsabilidades políticas daqueles que intervêm no debate. Mas a réplica contém também um deslocamento. O manifesto fala de “anti-imperialismo vazio” como posição ideológica de certos setores da esquerda; Prashad responde defendendo o anti-imperialismo efetivo do Estado iraniano e a sua resistência à pressão norte-americana e israelita. As duas afirmações falam de objetos diferentes. O primeiro é um modo de interpretar politicamente o mundo; o segundo, uma relação geopolítica e militar. Prashad pode errar o alvo quando responde como se os signatários tivessem chamado vazia à resistência iraniana. Apesar disso, a sua questão principal mantém toda a sua força, uma vez que continua em aberto a pergunta sobre por que motivo, em plena guerra, o erro analítico de uma parte da esquerda é integrado como um dos elementos do «falso binarismo» que se procura transcender.

É neste ponto que o uso da palavra «vazio» merece atenção. Em Ernesto Laclau, um significante vazio não é uma palavra que deixou de significar. É um nome particular que, ao articular uma cadeia de demandas diferentes, perde parte da sua determinação para poder representar uma totalidade mais ampla. «Povo», «liberdade», «ordem» ou «revolução» podem cumprir essa função. O mesmo pode acontecer com «anti-imperialismo». Camponeses podem associá-lo à soberania alimentar; trabalhadores, ao poder das multinacionais; movimentos indígenas, à continuidade colonial; nacionalistas, à soberania estatal; socialistas, à estrutura internacional de acumulação e poder militar. Demandas não idênticas podem, assim, articular-se sob o mesmo signo. É essa capacidade de representar uma cadeia de conteúdos diversos que caracteriza o significante vazio em Laclau.

O termo pode funcionar ainda como significante flutuante quando projetos diferentes disputam aquilo que ele deve significar. Para o campismo, pode reduzir-se o alinhamento com qualquer Estado enfrentado aos Estados Unidos. Para um internacionalismo de classe, deveria significar resistência ao poder imperial mantendo independência perante as burguesias nacionais. Para governos como o iraniano, pode articular soberania nacional, legitimidade revolucionária e estratégia regional. Para os autores do manifesto, um anti-imperialismo que abandona presos, trabalhadores ou mulheres reprimidos por um Estado adversário de Washington perdeu o conteúdo emancipatório. Hollow anti-imperialism é, portanto, uma intervenção na disputa hegemónica que procura separar um anti-imperialismo considerado emancipatório de outro reduzido a geopolítica.

A dificuldade cresce quando a disputa sobre o significante ameaça substituir a análise do referente. Podemos discutir aquilo que «anti-imperialismo» deve querer dizer e quem pode reivindicar a palavra. Podemos também disputar o conceito de imperialismo através de Lenin, Luxemburg, Bukharin ou a teoria da dependência não oferecem definições idênticas. Mas dessa indeterminação conceptual não se segue que as relações materiais que essas teorias procuram apreender sejam igualmente flutuantes. Uma base militar não é um significante. Uma sanção extraterritorial não é um significante. Um bloqueio, a capacidade de congelar ativos ou bombardear outro território não desaparecem porque diferentes correntes discordem sobre a melhor teoria do imperialismo.

É aqui que «anti-imperialismo vazio» produz uma ironia talvez involuntária. O anti-imperialismo pode esvaziar-se de conteúdo emancipatório quando se transforma em apoio automático a qualquer inimigo de Washington. O imperialismo norte-americano não se torna, por isso, um referente vazio. O campismo pode produzir uma descrição falsa desta situação. Não possui capacidade para produzi-la. E talvez nenhum episódio mostre melhor essa diferença do que aquilo que aconteceu em Minab no próprio primeiro dia da guerra. Na manhã de 28 de fevereiro, a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh foi atingida durante as aulas. Cerca de 168 pessoas morreram segundo as autoridades iranianas, a maioria crianças; entre as vítimas encontravam-se dezenas de meninas de sete a doze anos. Investigações jornalísticas, análises de imagens de satélite e a própria investigação interna do Pentágono apontaram posteriormente para a responsabilidade provável dos Estados Unidos. A escola existia publicamente naquele local havia anos, embora estivesse junto de instalações dos Guardas Revolucionários, e organizações de direitos humanos consideraram que havia informação suficiente para que a sua condição civil tivesse sido identificada antes do ataque.

É difícil imaginar uma demonstração mais brutal da diferença entre significante e referente. Podemos discutir se uma corrente da esquerda utiliza corretamente a palavra «anti-imperialismo», se transforma Teerão em sujeito emancipatório ou se reduz a política mundial a campos geopolíticos. Nenhuma dessas disputas derrubou o teto de uma escola sobre crianças. O imperialismo, naquele momento, não era apenas aquilo que intelectuais e militantes estavam tentando nomear porque apresentava-se materialmente na capacidade de uma potência situada a milhares de quilómetros de Minab lançar uma arma sobre um edifício onde meninas estavam em aula.

A presença de Michael Löwy entre os signatários torna esta diferença particularmente interessante, porque a sua própria trajetória intelectual oferece argumentos contra uma solução equidistante. Em 1976, ao discutir a questão nacional, Löwy defendia o direito à autodeterminação ao mesmo tempo que advertia contra dois erros simétricos. Uma consistia em negar a legitimidade das lutas dos povos oprimidos devido ao caráter político das suas direções; o outro, em aderir acriticamente ao projeto nacional das forças que as dirigiam. A tarefa marxista consistia, para ele, numa «análise concreta de cada situação concreta» capaz de preservar simultaneamente autodeterminação e independência de classe. Essa distinção reapareceu nas suas intervenções posteriores sobre imperialismo, nas quais defendia o combate às ações das grandes potências, sobretudo dos Estados Unidos, sem que essa oposição conduzisse ao apoio político dos regimes autoritários em conflito com Washington. A ordem do raciocínio é importante. Não se tratava de colocar intervenção imperialista e repressão interna como duas forças equivalentes perante as quais conservar igual distância, mas de combater a primeira mantendo independência perante o segundo. Por isso a sua assinatura da metáfora das «duas lâminas» coloca uma questão imanente à sua própria tradição: a carta conserva essa distinção entre combater uma potência imperial, defender a autodeterminação do país atacado e recusar simultaneamente qualquer subordinação à sua classe dirigente?

É aqui que regressa a questão da contradição principal. A fórmula serviu demasiadas vezes para pedir às mulheres, trabalhadores ou minorias que adiassem as suas reivindicações até depois da libertação nacional. Mas a resposta não pode ser transformar todas as relações de dominação em manifestações equivalentes de uma mesma lógica. Determinar uma contradição principal significa perguntar qual relação reorganiza, numa conjuntura concreta, as condições de desenvolvimento das restantes. Uma agressão externa não dissolve a luta de classes no Irão; pode, porém, alterar profundamente as condições materiais dessa luta.

Isso tampouco converte a República Islâmica em representante dessas meninas. A localização de uma escola junto de instalações militares levanta questões sobre a obrigação iraniana de proteger civis dos riscos da guerra; e o próprio Estado iraniano utilizou posteriormente a tragédia na sua propaganda. Mas nenhuma dessas questões elimina a responsabilidade específica de quem decidiu e executou o ataque. A recusa do campismo só conserva sentido emancipatório se impedir precisamente esta substituição.Os crimes do Estado iraniano não podem transformar os civis iranianos em dano colateral aceitável de quem diz combatê-lo 

A hierarquia não decorre, porém, de considerar a soberania nacional moralmente superior à liberdade dos presos, das mulheres ou dos trabalhadores. Precisa de ser demonstrada pela capacidade diferencial das contradições para reorganizar a conjuntura. A guerra iniciada em 28 de fevereiro não acrescenta simplesmente uma nova violência às que já existiam no Irão. Modifica as condições de reprodução económica, destrói infraestruturas, altera preços e empregos, produz deslocamentos, reforça a lógica securitária do Estado e condiciona as próprias possibilidades de organização das forças que o combatem. É nesse sentido preciso que a agressão externa pode assumir uma posição principal. A prioridade é conjuntural, não ontológica, e pode alterar-se quando se altera a própria conjuntura. Reconhecê-la não transforma a repressão interna numa contradição moralmente secundária; significa apenas distinguir entre uma opressão que existe dentro da formação social iraniana e uma força externa capaz de modificar simultaneamente o terreno em que todas essas lutas se desenvolvem.

Neste ponto, a universalização da «carceralidade» feita pelo manifesto corre o risco de produzir precisamente a abstração que muitas obras dos próprios signatários ensinaram a questionar. Há conexões históricas reais entre prisões, fronteiras, repressão racial e tecnologias de vigilância. Mas «dominação» e «carceralidade» tornam-se categorias tão abrangentes que aproximam o Estado iraniano, Israel e Estados Unidos sem que a desigual capacidade desses Estados para projetar poder além das suas fronteiras organize a comparação. Ambas são violências, mas não ocupam a mesma posição na totalidade.

É neste quadro que a questão da contradição principal conserva alguma utilidade. A fórmula serviu demasiadas vezes para pedir às mulheres, aos trabalhadores ou às minorias que adiassem as suas reivindicações até depois da libertação nacional. Esse uso deve ser criticado, mas a alternativa não pode consistir em transformar todas as relações de dominação em manifestações equivalentes de uma mesma lógica. Determinar uma contradição principal significa perguntar qual relação reorganiza, numa conjuntura concreta, as condições de desenvolvimento das restantes. Uma agressão externa não dissolve a luta de classes no Irão, mas modifica as condições materiais em que ela ocorre. Pode destruir infraestruturas e empregos, aumentar preços, produzir deslocamentos e fortalecer precisamente os aparelhos securitários que os movimentos internos combatem. É também por isso que a «contradição principal» não pode significar subordinação política ao Estado que conduz a defesa nacional. A guerra pode tornar a agressão imperialista determinante sem transformar as contradições entre a República Islâmica e as classes subalternas em simples resíduos de uma etapa posterior. Pelo contrário, uma política marxista teria de perguntar como combater a agressão sem fortalecer a capacidade do Estado iraniano para converter a guerra em disciplina social, legitimação ideológica ou recomposição do seu próprio bloco de poder.

A universalização da «carceralidade» feita pelo manifesto corre assim o risco de produzir a abstração que muitas obras dos próprios signatários ensinaram a questionar.

Guantánamo mostra bem por que carceralidade e imperialismo não podem ser simplesmente justapostos. A prisão norte-americana existe numa base mantida em território cubano através de uma relação jurídica nascida do período em que a soberania da ilha foi condicionada por Washington. A Emenda Platt, que os próprios National Archives dizem ter transformado virtualmente Cuba num protetorado norte-americano, reconhecia aos Estados Unidos um direito de intervenção, permitia estabelecer bases navais e serviu de fundamento para intervenções em 1906, 1912, 1917 e 1920. A história da prisão e a história imperial encontram-se literalmente sobre o mesmo território. Cuba mostra também por que a instrumentalização do anti-imperialismo por um governo não torna imaginária a relação imperial que esse governo instrumentaliza.

O mesmo vale para 1953 no Irão, data que o próprio manifesto escolhe lembrar. A documentação oficial norte-americana já descreve explicitamente a participação dos Estados Unidos na operação que derrubou Mosaddegh; o próprio diário de Eisenhower, reproduzido na coleção oficial Foreign Relations of the United States, registou que Washington ajudara a restaurar o Xá e a eliminar o primeiro-ministro através de ações encobertas. Recordá-lo não absolve a República Islâmica. Serve para perceber a diferença entre um aparelho estatal capaz de encarcerar os seus opositores e uma potência estrangeira com capacidade para intervir na própria determinação de qual aparelho estatal governará outra sociedade.

Por isso, a pergunta sobre as intervenções norte-americanas não pode ser respondida apenas enumerando os crimes dos regimes atacados. O Afeganistão oferece um balanço particularmente duro porque vem do próprio aparelho de supervisão norte-americano. O SIGAR recorda que Washington destinou 145 mil milhões de dólares à reconstrução e tinha entre os seus objetivos criar um governo estável, representativo e democrático. Em agosto de 2021, depois de vinte anos, esse Estado colapsou e os talibãs regressaram ao poder. A repressão talibã anterior não fez da ocupação um mecanismo automático de emancipação, da mesma maneira que a repressão atual no Irão não transfere para Washington a agência dos opositores iranianos.

Iraque e Líbia prolongam a mesma pergunta, ainda que cada caso possua a sua história. A queda de Saddam Hussein não elimina a desestruturação produzida pela invasão de 2003; a intervenção na Líbia não produziu a ordem democrática prometida pelos seus defensores. Em 2025, a missão das Nações Unidas continuava a falar de profundas divisões políticas, fragmentação das instituições e obstáculos persistentes à realização de eleições nacionais; em 2026, a divisão das autoridades executivas e das instituições de segurança continuava sendo apresentada como um dos problemas centrais do país. Nenhum destes exemplos demonstra que toda intervenção externa produza necessariamente o mesmo resultado. Demonstram algo mais limitado: não existe passagem lógica entre «este regime oprime» e «a potência que o destrói liberta».

Em 2026 nem sequer precisamos regressar ao início da «guerra contra o terrorismo». A Venezuela converte a discussão numa questão contemporânea. Em 3 de janeiro, uma operação norte-americana com mais de 150 aeronaves, ataques a alvos militares e forças especiais em território venezuelano terminou com a captura de Nicolás Maduro e da sua esposa e a retirada de ambos do país. Trump afirmou depois que os Estados Unidos administrariam a Venezuela até uma transição considerada estável. Não é necessário ignorar a deriva autoritária, a repressão ou a crise eleitoral para reconhecer o problema. Sete meses depois, senadores democratas e republicanos ainda reclamavam eleições livres, enquanto Trump dizia em julho que a Venezuela não estava preparada para votar. A sequência é instrutiva visto que uma potência externa considera uma ordem política ilegítima, intervém militarmente, remove o governante e participa depois na determinação das condições da transição.

Perguntar o que isto significa para o Irão não equivale a prever uma repetição mecânica da Venezuela, do Afeganistão ou do Iraque. Significa recusar a amnésia histórica quando se discute quem deve possuir agência na transformação política iraniana. Se presos, trabalhadores, mulheres, estudantes, curdos, árabes ou balúchis são sujeitos da sua própria emancipação, a solidariedade não pode entregar implicitamente a uma potência externa o direito de modificar pela força o terreno em que essa emancipação será disputada.

A controvérsia entre o manifesto e Prashad torna-se, então, mais produtiva se não escolhermos simplesmente um lado. Os signatários têm razão contra um anti-imperialismo que substitui trabalhadores e movimentos sociais por Estados e converte «o inimigo do meu inimigo» numa teoria da emancipação. Prashad tem razão ao recusar que, durante uma guerra iniciada de fora, repressão interna e agressão imperial sejam apresentadas como duas lâminas equivalentes. Mas ele próprio corre o risco inverso quando identifica demasiado rapidamente a resistência do Estado iraniano com o anti-imperialismo enquanto projeto emancipatório. 

A crítica ao campismo exige, contudo, aplicar a mesma exigência materialista ao próprio «anti-imperialismo» estatal iraniano. Resistir a uma agressão externa não converte automaticamente o Estado que resiste num sujeito emancipatório. A República Islâmica dirige uma formação capitalista profundamente transformada por décadas de neoliberalização, na qual os Guardas Revolucionários e outras instituições paraestatais controlam importantes recursos económicos, e desenvolveu uma política regional orientada também pelos seus próprios interesses de Estado. Pode, portanto, existir uma dimensão objetivamente anti-imperialista na defesa do território iraniano perante Washington e Israel sem que daí resulte um programa anti-imperialista emancipatório para trabalhadores, mulheres ou minorias. Esta distinção impede dois atalhos simétricos: reduzir toda a resistência iraniana a simples propaganda de Teerão ou converter a resistência de Teerão na representação política do povo iraniano.

Outras correntes marxistas mostram que existe uma posição diferente. Anne Alexander, no Socialist Worker, procura o sujeito da transformação na capacidade social da classe trabalhadora iraniana e do Médio Oriente, não nas bombas norte-americanas nem no aparelho de Teerão. O Permanent Revolution Collective reformula a distinção em linguagem trotskista de defesa do Irão contra a agressão imperialista, nenhuma confiança política na República Islâmica, libertação dos presos, direitos democráticos e organização independente dos trabalhadores. Podemos discutir essas estratégias, mas elas demonstram que «nem Washington nem Teerão» não precisa significar igual distância. Pode significar responsabilidades diferentes perante relações diferentes.

Essa distinção importa também para os intelectuais situados nos centros imperiais. Não como acusação moral de «conforto académico» (entre os signatários há pessoas que conheceram prisão, repressão e décadas de militância). A questão é radicalmente política. Um socialista iraniano e um socialista norte-americano não ocupam a mesma posição perante a guerra. Ao primeiro cabe articular resistência à agressão e luta contra o regime; ao segundo cabe a tarefa que ninguém no Irão pode realizar por ele de combater o imperialismo produzido pelo seu próprio Estado. Quando aviões norte-americanos estão atacando outro país, talvez o problema conjuntural principal da esquerda norte-americana não seja que outros esquerdistas estejam interpretando mal esses aviões.

É neste sentido, e não como acusação de propaganda consciente, que cabe recuperar a questão da fabricação do consentimento. O manifesto condena a guerra e não há motivo para imaginar que Davis, Butler, Toscano ou Löwy desejem legitimá-la. A análise ideológica, porém, não termina nas intenções individuais. Um discurso pode rejeitar uma intervenção e simultaneamente alterar a hierarquia através da qual ela é percebida. Não é necessário escrever «bombardeiem o Irão». Basta que a repressão interna e a agressão externa formem uma simetria moral; que insistir na contradição imperialista pareça “vazio” campista; que a disputa sobre a pureza do anti-imperialismo ocupe tanto espaço quanto a análise do poder que está efetivamente em guerra. A intervenção continua condenada, mas deixa de organizar o campo político.

Talvez seja esse o ponto em que os signatários se afastam momentaneamente da melhor parte da sua própria genealogia crítica. Uma tradição marxista começa pelas relações materiais: quem possui capital, quem controla instituições, quem dispõe de meios coercivos, que posição ocupa cada Estado no sistema mundial e quem pode impor custos a quem. As tradições anticoloniais perguntam quem tem capacidade para decidir pela força o destino de outros povos. O abolicionismo radical ensinou que não basta identificar prisões, mas sim que é necessário reconstruir as relações sociais que as tornam possíveis. A crítica do discurso mostrou como palavras universais podem ocultar relações assimétricas. Aplicadas ao manifesto, essas mesmas ferramentas obrigam a perguntar se a categoria universal de «dominação» não acaba por tornar menos visível a assimetria que deveria explicar.

O anti-imperialismo pode, de facto, tornar-se vazio em dois sentidos diferentes. Em sentido laclauiano, porque só consegue articular demandas heterogéneas se o seu conteúdo permanecer suficientemente aberto. E num sentido político mais corrente, porque pode perder conteúdo emancipatório quando se reduz ao apoio automático a Estados adversários de Washington. Mas nenhuma dessas possibilidades torna vazio aquilo contra o qual o significante se constituiu historicamente.

O imperialismo norte-americano continua bastante preenchido: por bases militares, sanções, poder financeiro, bloqueios, capacidade tecnológica, operações clandestinas e uma história documentada de intervenções ao longo da sua história. Cuba, 1953 no Irão, Afeganistão, Iraque, Líbia e a Venezuela de janeiro de 2026 não formam uma essência eterna dos Estados Unidos nem permitem prever mecanicamente cada nova conjuntura. Formam, porém, um arquivo que impede tratar a intervenção como abstração moral equivalente à repressão doméstica de um Estado periférico.

A alternativa ao campismo não precisa, portanto, de ser a tesoura. Pode ser mais difícil  reconhecer a agressão imperialista como contradição determinante da conjuntura sem silenciar as lutas internas; defender o direito do Irão a não ser bombardeado sem conceder confiança política à República Islâmica; apoiar presos, mulheres, trabalhadores e minorias sem transformar Washington no agente indireto da sua liberdade. Isso exige distinguir Estado de povo, soberania de emancipação e solidariedade de tutela.

Talvez então seja possível devolver à expressão «anti-imperialismo vazio» uma pergunta diferente daquela que Prashad lhe dirige. Não se trata de perguntar se o anti-imperialismo do Estado iraniano está cheio ou vazio. Trata-se de perguntar se, ao concentrar a atenção na disputa sobre como a esquerda deve preencher esse significante, não se perde de vista a estrutura que lhe dá um referente histórico. O campismo pode esvaziar politicamente o anti-imperialismo. O que não pode fazer é esvaziar materialmente o imperialismo. E quando este regressa sob a forma de sanções, bloqueios e bombardeamentos —ou de uma escola em Minab cujo teto desaba sobre meninas de sete, oito ou dez anos—, a primeira tarefa de uma crítica marxista talvez continue a ser determinar não apenas quem utiliza corretamente as palavras, mas quem possui o poder material de fazer o quê a quem. 

 

Referencias

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Special Inspector General for Afghanistan Reconstruction. (2022). Why the Afghan government collapsed (SIGAR 23-05-IP). https://www.sigar.mil/pdf/evaluations/SIGAR-23-05-IP.pdf

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Tuğal, C. (2026, May 6). Iran and the Western left. International Viewpoint. https://internationalviewpoint.org/Iran-and-the-Western-left

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