Todos os Martinhos

José-Martinho Montero Santalha © Concello de Cerdido

Dedicado ao concelho de Cerdido, 

que no dia 24 de outubro vai reconhecer 

o seu filho predileto Martinho Montero, 

mostrando assim uma invulgar sensibilidade 

pola nossa língua

Cada vez que penso em José-Martinho Montero Santalha, vem-me à cabeça a continuidade linguística e cultural pola qual tanto se tem batido. Porque até o seu próprio hipocorístico parece evocá-la: se há um nome que acompanha a história religiosa e cultural galego-portuguesa desde os seus primórdios, esse é Martinho.

A tradiçom do nome em causa começa entre nós com a veneraçom de Sam Martinho de Tours, evangelizador das Gálias e padroeiro da diocese de Ourense. O seu forte arraigo no Noroeste pode dever-se à sua oposiçom ao processo contra Prisciliano no século IV. 

Dous séculos mais tarde, as suas relíquias seriam o talismã da conversom sueva ao catolicismo, orientada por um admirador seu: Martinho de Braga, município onde fundou a sé episcopal de Dume. O seu empenho evangelizador deixou uma marca que ainda hoje perdura: em Portugal e até em certas áreas rurais da Galiza, os dias da semana conservam uma nomenclatura cristã — quarta-feira, quinta-feira, etc. — em vez dos nomes de origem pagã associados aos astros, que prevaleceram na maior parte das línguas europeias.

Passados outros três séculos, erigia-se no concelho de Foz a catedral de Sam Martinho de Mondonhedo, desta vez em homenagem ao santo bracarense e nom ao seu homónimo turonense. Para ali foi levado o bispado de Dume durante o século IX, enquanto durou a convulsom provocada pola invasom sarracena. 

Com as modas atuais, justamente quando em Portugal começa a ser visto como um nome mais histórico do que infantil, na Galiza passou a ser um dos mais escolhidos polas famílias que desejam transmitir nomes vernáculos. É mais um exemplo de como o afastamento do português nom nos distancia apenas de uma língua comum: afasta-nos também de parcelas da nossa própria história

O nome Martinho acabou arraigando como poucos na onomástica pessoal, tanto como forma popular galega quanto como culta portuguesa, o que às vezes nos provoca, aos galegos, certas surpresas: Martinho Lutero, por exemplo. 

Com as modas atuais, justamente quando em Portugal começa a ser visto como um nome mais histórico do que infantil, na Galiza passou a ser um dos mais escolhidos polas famílias que desejam transmitir nomes vernáculos, ainda que já com uma grafía (Martiño) que o afasta da língua portuguesa, e ao mesmo tempo, indiretamente, também da forma como é conhecida em meio mundo a mais importante figura do cristianismo galaico de todos os tempos.

É mais um exemplo de como o afastamento do português nom nos distancia apenas de uma língua comum: afasta-nos também de parcelas da nossa própria história.

E eis que, quinze séculos depois, surge na Galiza outro evangelizador Martinho, mindoniense, para pregar a coesom daquilo que o dumiense reunira. E fijo-o a partir de Roma, com mais 12 sacerdotes, lançando o manifesto que lhe valeu a consideraçom, com permisso de Carvalho Calero, de pai do reintegracionismo galego moderno.

Do sucesso da empresa deste novo Martinho vai depender que a Galiza ainda consiga reconhecer-se como naçom milenar. Que Sam Martinho o ajude! 

Grazas ás socias e socios editamos un xornal plural

As socias e socios de Praza.gal son esenciais para editarmos cada día un xornal plural. Dende moi pouco a túa achega económica pode axudarnos a soster e ampliar a nosa redacción e, así, a contarmos máis, mellor e sen cancelas.