Europa, Europa

Louise Weiss (1893-1983): defensora dos valores europeus e dos direitos das mulheres © Parlamento Europeo

Europa, a Uniom, assiste desconcertada a um dos maiores desafios da sua história. Desprezada pola extrema direita em imparável ascenso, com Orbán como pioneiro, Rússia à espreita, e o ódio ao pluralismo democrático e aos valores do humanismo em acelerado incremento, o desafio de Trump avança sem obstáculos

Europa, a Uniom, assiste desconcertada a um dos maiores desafios da sua história. Desprezada pola extrema direita em imparável ascenso, com Orbán como pioneiro, Rússia à espreita, e o ódio ao pluralismo democrático e aos valores do humanismo em acelerado incremento, o desafio de Trump avança sem obstáculos. O recente plenário das forças fascistas em Madrid acentuam a sensaçom de regressarmos aos sinistros anos trinta.

No mar de dúvidas e temores que atribulam os nossos dias, a Europa democrática alça a voz insubmissa em testemunha de lucidez e coragem que nada vai torcer.

¿Pretende Europa ser objecto de disputa internacional, zona de influência de outros, ou, polo contrário, converte-se em sujeito da política internacional, afirmando os valores da sua própria civilizaçom? ¿Pode aceitar quedar atrapada entre oligarquias e autocracias? Como muito, numha perspectiva de «feliz vassalagem».É preciso eleger: ou ser «protegidos» ou ser «protagonistas»?

Som palavras de Sergio Matarella1; admirável liçom de autonomia cívica e coragem política desde essa Itália que leva séculos dando liçons de sabedoria. Desde Dante Alighieri e Nicolau Maquiavel, quê país pode se lhe pode comparar?

A Uniom Europeia descansa sobre sólidos alicerces: como esquecer Altiero Spinelli sonhador de umha Europa unida sobre as mesmas ruínas da Segunda Guerra Mundial?

Correm maus tempos para a Europa, desafiada pola horda primitiva simbolizada polo bisonte totémico encarnado por um tal Jacob Chansley que passeava o seu furor niilista polo Capitólio de Washington. O seu digno sucessor, Donald Trump, agora instalado na Casa Branca, bêbedo de prepotência e possuído de delírios de poder que a sua corte de aduladores transmitem sem rubor. Um macro bebé malcriado e ignorante custodiado por umha caterva de fâmulos milionários sedentos de poder.

Proclamamos com Matarella a renúncia a tutelas nom solicitadas e proclamamos o nosso compromisso com a umha Europa com vocaçom de protagonismo como potência demográfica, económica e política em favor da paz e a liberdade

Nestes dias, a visita do Secretário de Estado Marco Rubio a Munique serviu de veículo idóneo para trasladar a singular visom americana sobre a reconstruçom de Gaza e o fim da guerra de Ucránia que elevou ao máximo a inquietude da Uniom Europeia. O único claro da missom é a intençom americana de romper o cordom sanitário tendido sobre a Rússia de Putin, incompatível com os propósitos da Administraçom Trump de reabilitar o papel de interlocutor privilegiado de que gozava na guerra fria.

A embaixada de Marco Rubio escandalizou Europa que tenta ainda entender a zaragalhada de política aduaneira, sistema impositivo e prepotência estratégica que conseguírom abrir definitivamente os olhos à Uniom Europeia. Estamos ante um personagem altamente perigoso que tenta impor os seus delírios pretendendo ignorar a história e os equilíbrios geoestratégicos pacientemente construídos desde a Segunda Guerra Mundial. A China, o seu autêntico antagonista internacional, observa com cautela o rebúmbio desatado e pondera as suas consequências.

Em Europa gravita o peso da história e ganha pontos a opçom de umha estratégia multilateral com América do Sul e a provável aproximaçom de México e Canadá como sócios de referência. É hora de agir com determinaçom, anunciava Ursula von der Leyen. Quede-se o xerife americano com os Santiago Abascal, os Viktor Orbán e os Javier Milei, digno cortejo do pitoresco e descarado fantoche norte-americano. Vaia tropa.

É mui oportuna a reafirmaçom da nobre estirpe europeia por parte de duas personalidades tam destacadas como Sergio Matarella e Mario Draghi2. Duas liçons de sabedoria política dignas de figurar no repertório dos grandes discursos da Europa a que aspiramos.

Talvez é tempo de exibir também a limpa trajectória da UE e o destacado papel das mulheres singulares no seu desenvolvimento. Mulheres como Nicole Fontaine, segunda presidenta do Parlamento Europeu que sucedeu à primeira, a mítica Simone Veil

Proclamamos com Matarella a renúncia a tutelas nom solicitadas e proclamamos o nosso compromisso com a umha Europa com vocaçom de protagonismo como potência demográfica, económica e política em favor da paz e a liberdade. A Europa que evocava Nicole Fontaine, presidenta da Uniom Europeia entre 1999 e 20023.

Talvez é tempo de exibir também a limpa trajectória da UE e o destacado papel das mulheres singulares no seu desenvolvimento. Mulheres como Nicole Fontaine, segunda presidenta do Parlamento Europeu que sucedeu à primeira, a mítica Simone Veil que como ex-ministra do governo de França se atreveu a despenalizar o aborto, essa onerosa peja que amargou a existência de tantas mulheres ao longo da história.

Simone Veil (1927-2017), de família judaica, sofreu persecuçom sob o regime nazista, que decretou a sua reclusom no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau onde pereceu toda a sua família; salvárom-se unicamente Simone e a sua irmã Madeleine. Já em 1945, Simone ingressava no curso de Direito em Paris onde conhecia a Antoine Vidal com quem vai casar um ano depois. Com três filhos criados, Simone remata a carreira de magistrada que exercerá até 1974. Neste ano é nomeada Ministra de Saúde sob a presidência de Giscard d'Estaing no governo presidido por Jacques Chirac, posteriormente revalidado até Julho de 1979. Simone Veil renunciava neste ano para apresentar-se às eleiçons ao Parlamente Europeu do qual foi nomeado presidenta. Toda a história da Europa contemporánea resumida numha vida exemplar.

Desta matéria está construída a Europa que agora pretende desprezar umha ressessa autocracia saudosa do estalinismo e a Sexta Frota; umha autocracia ignorante e pretensiosa recém instalada em Washington empenhada em reescrever a história com ajuda do tecno-fascismo agressivo e soez que agora domina a Casa Branca. God & Gun em palavras do inolvidável Rafael Sánchez Ferlosio.

Inútil empenho, a aparente debilidade da Uniom Europeia guarda um poderoso gene de resistência e superaçom histórica, imune a apressuradas operaçons geoestratégicas.

Somos filhos da democracia que viu a luz em Grécia e do constitucionalismo que configurou as leis que regem em Europa e a América, consagrados ambos na Estátua da Liberdade regalada polo povo francês ao norte-americano em 1886 para comemorar o centenário da sua Declaraçom de Independência

Nestas circunstáncias, nada melhor que evocar o discurso da presidenta do Parlamento Europeu Nicole Fontaine em 1999 para reafirmar o tempero da coragem que informa o projecto europeu4 Neste discurso —onde a presidenta celebrava a inauguraçom do novo complexo, distribuído entre Luxemburgo e Bruxelas, sé das instituiçons comunitárias—e a maneira de preámbulo, a presidenta acolhia-se à memória da insubornável sufragista e europeísta Louise Weiss (1893-1983)5.

A fortaleza da Uniom que Trump e Putin pretendem ignorar tem sólidos fundamentos. Conselho, Comissom e Parlamento configuram o trípode democrático onde descansa a legitimidade do nosso poder colectivo: os Estados membro e a Assembleia da cidadania europeia dos quais emanam mediante sufrágio directo o Governo e o Parlamento que sustentam o sistema.

No discurso inaugural em Estrasburgo da Presidenta del Parlamento Europeu de 21 de Julho de 1999, sublinhava Nicole Fontaine a força simbólica das novas instalaçons como último chanço da aventura política iniciada em 1986 com a ratificaçom da Acta Única Europeia e a sua posterior confirmaçom no Tratado de Maastricht em 1992.

Voltemos à actualidade e observemos o desprezo da Administraçom Trump, empenhada em impor um novo ordem imperial tripartido com vértices em Pequim, Moscovo e Washington junto com a rancorosa exclusom de Europa, ré de aderência aos princípios democráticos dos que agora abomina Washigton.

Por enquanto, a Europa responde reunindo-se em Paris para reafirmar a sua vocaçom democrática e o rechaço às tiranias confabuladas que pretendem reformular o mundo à sua conveniência.

Somos filhos da democracia que viu a luz em Grécia e do constitucionalismo que configurou as leis que regem em Europa e a América, consagrados ambos na Estátua da Liberdade regalada polo povo francês ao norte-americano em 1886 para comemorar o centenário da sua Declaraçom de Independência. Umha estátua do escultor francês Frédéric Auguste Bartholdi sobre umha estrutura desenhada por Alexandre Gustave Eiffel e a cooperaçom de Viollet-le-Duc na selecçom dos cobres que adornam a estátua. Demasiado talvez para o olhada de um bisonte. Um símbolo e vestígio da melhor Europa da que agora arrenega um néscio golfista prepotente mentres conta buracos de golfe na relva de Mar-a-Lago.

 

Notas

1 https://legrandcontinent.eu/es/2025/02/05/contra-la-vasallizacion-feliz-es-hora-de-actuar-el-llamamiento-de-sergio-mattarella/

2 https://legrandcontinent.eu/es/2024/04/16/un-cambio-radical-es-necesario-la-union-revisada-por-mario-draghi/

3 https://www.europarl.europa.eu/former_ep_presidents/president-fontaine/speeches/es/sp0001.htm

4 https://www.europarl.europa.eu/former_ep_presidents/president-fontaine/speeches/es/sp0001.htm

5 https://es.wikipedia.org/wiki/Louise_Weiss

Grazas ás socias e socios editamos un xornal plural

As socias e socios de Praza.gal son esenciais para editarmos cada día un xornal plural. Dende moi pouco a túa achega económica pode axudarnos a soster e ampliar a nosa redacción e, así, a contarmos máis, mellor e sen cancelas.