Pobreza e desigualdade num mundo iníquo

Caminhando sobre a miséria invisível © Remitida

Dicionário Houaiss: Iníquo, adjectivo, 1) contrário à equidade, ao que é justo 2) mau, perverso, malévolo; do latim iniquus, desigual.

A incerta pausa da pandemia interminável em que estamos instalados, pese ao seu recrudescimento na China e ao surto de novas variantes, acabou de momento numha seca insuportável e na alarmante reactivaçom das ondas migratórias agravadas polo impacto da guerra de Ucránia no Sahel. As consequências políticas desta situaçom estám por ver mas já podemos enxergar o crescimento de conservadorismo político e da xenofobia que nom sabemos se provocarám o rexurdimento de Trump e as sua hordas vengativas. A agenda de mudança climática e de erradicaçom da fame no mundo ficam novamente em suspenso. Na agenda política, o urgente volve a abafar o importante como é habitual.

Em Espanha, o panorama social pós-vírico é desolador. Um recente informe, publicado em Janeiro deste mesmo ano 1 pola Fundaçom Foessa, vinculada a Cáritas, pom cifras à situaçom. As conclusons do Informe delimitam a magnitude do retrocesso experimentado quando apenas começávamos a superar o impacto da severa recessom económica de 2008 e quando as consequências da guerra de Ucránia ainda nom se tinham manifestado. Que todo pode piorar em breve parece provável apesar da generosa transferência de recursos públicos aos sectores mais maltratados da sociedade.

Conclui o mencionado informe que mentres o emprego recuperava o nível pré-pandémico em 2020, o índice de exclusom social severa saltava do 8,6% de 2018 para o 12,7% em 2020 com impacto desproporcionado no segmento juvenil. Os jovens que chegavam aos 16 anos em 2018 experimentárom de cheio o impacto económico da pandemia. Neste tramo de idade e 16 a 34 anos, nada menos que 2.700.000 jovens caírom no estado de exclusom social e, dentro dele, o segmento de afectados de exclusom social severa alcançou a cifra de 1.450.000 indivíduos, saltando do 10% ao 15,1% a percentagem de moços atingidos, vítimas de umha dobre crise na sua breve vida. Nom será preciso lembrar que mesmo o segmento privilegiado deste grupo etário afana-se sem muitas esperanças em carreiras académicas que dificilmente lhe poderám garantir um horizonte de emancipaçon familiar. Convém lembrar, aliás, que um terço das famílias, 600.000 nada menos, tenhem a totalidade os seus membros em situaçom de desemprego, excluídas em definitivo da possibilidade de umha vida decente.

Antes de examinarmos o panorama de pobreza e desigualdade no mundo nom estará de mais calibrar a posiçom relativa da Galiza no mapa-múndi da pobreza, partindo do observatório estatístico de Eurostat, concretamente do recente informe da European Anti-Poverty Network (EAPN) actualizado ao 20212.

O indicador AROPE de Eurostat —At Risk Of Poverty and Exclusion— é um índice sintético desenhado para medir o nível de pobreza social em Europa. No tocante a Espanha, o indicador relativo a 2020 estima em 12,5 milhons de persoas: 26,4% da populaçom espanhola, o segmento social em risco de pobreza ou exclusom social. Como quer que se defina o conceito, contabilizar nesta situaçom mais de umha quarta parte o segmento social excluído de um nível de vida decente contradiz a imagem habitual de sermos um país razoavelmente desenvolvido e solidário com que gostamos identificar-nos.

O facto de Espanha ficar relegada, junto com Itália, ao grupo de onze países europeus com índice AROPE superior (pior) ao da meia comunitária —21,4% da populaçom europeia em 2019— é um dado decepcionante, mormente se comparado com o 17,9% atribuído à França, o 16,3 % de Finlándia e o 12,5% da República Checa. Saudável recordatório do nosso persistente atraso social.

Taxa Arope 2020 © Remitida

De pouco consolo pode servir sabermos que o grau de desigualdade em Espanha aumenta segundo nos dirigimos cara o sul, com Navarra e o País Basco na posiçom mais inclusiva e as Ilhas Canárias e Extremadura na mais excludente. Nada menos que 26,7 pontos AROPE separavam em 2020 Navarra (12%) de Extremadura (38,7%).

O indicador AROPE é de carácter sintético combinando a estimaçom de Risco de Pobreza (RP) —no caso dos ingressos serem inferiores ao 60% da mediana— com a Privaçom Material Severa (PMS), por incapacidade de aceder a umha listagem de bens habituais3 e a Baixa Intensidade de Emprego por Fogar (BITH) caso de nom poder achar emprego num mínimo do 20% da capacidade laboral da família.

A presuntuosa soberbia exibida por Madrid nom pode ocultar a sua Cañada Real nem a opulência da Uniom Europeia os seus arrabaldes de excluídos e a sua fronteira sul cercada polo infortúnio e a violência e o naufrágio. Pontos cegos da miséria que preferimos ocultar.

A filosofia meritocrática que nos alimenta e nos tranquiliza proclama como verdade científica que o padrom de distribuiçom de riqueza e a pobreza se ajusta exactamente aos porta-fólio de méritos exibidos por cada um. Consoladora patranha que converte o Mercado numha perfeita emanaçom da Divina Providência.

Os standards habituais de consumo permitem-nos esquecer sem remorso a famélica legiom dos párias da terra, essas minorias inoportunas que preferimos confinar em Turquia ou em Ruanda. Refugiados, emigrantes, apátridas sem ofício nem benefício infamados com o estigma de menosprezo racial. O número de refugiados, informa-nos ACNUR, alcançava os 26 milhons de seres humanos em 2019, encomendados às possibilidades da ACNUR ou das agências da ONU.

Em perspectiva mundial os standards europeus de pobreza empalidecem. A sua inumana dimensom contrasta com a obscena opulência exibida polos beneficiários do sofrimento4 como os denomina Oxfam Intermon. A asséptica métrica da pobreza de Eurostat vira em depoimento indignado nos informes de Oxfam Intermon: os dez indivíduos mais ricos do mundo acaparam mais riqueza que os 3.100 milhons mais pobres e, mesmo se gastarem um milhom de dólares diários, tardariam 414 anos em esgotarem o seu desmesurado património. Um destes estratosféricos campeons, o indescritível Jeff Bezos, proprietário de Amazon e de The Washington Post, alcançou literalmente a estratosfera em 2021 num foguete da sua propriedade acompanhado dum irmao e dum estudante distinguido. Um ano depois oferecia voos turísticos para milionários desejosos de experimentarem a ingravidez. Será por quartos?

Segundo o World Inequality Lab de Dezembro de 2021, informa-nos Oxfam Intermon, o 1 % mais rico da humanidade acumulara umha fortuna desde 1995 que multiplicava por 19 à da metade mais pobre da humanidade.

Escusado seguir; a filosofia meritocrática que nos alimenta e nos tranquiliza proclama como verdade científica que o padrom de distribuiçom de riqueza e a pobreza se ajusta exactamente aos porta-fólio de méritos exibidos por cada um no mercado competitivo global em que todos competimos com armas iguais. Consoladora patranha que converte o Mercado numha perfeita emanaçom da Divina Providência.

1 https://www.foessa.es/blog/foessa-presenta-la-primera-radiografia-social-completa-de-la-crisis-de-la-covid-19-en-toda-espana/

2 El estado de la pobreza, seguimiento del indicador de pobreza y exclusión social en España 2008-2002, European Anti-Poverty Network (EAPN), Resumo ejecutivo, https://www.eapn.es/estadodepobreza/

3 A listagem de bens inclui as circunstáncias de nom poder permitir-se umha semana anual de vacaçons; nom poder permitir-se umha comida de polo ou peixe cada dous dias; nom alcançar a manter o domicílio a umha temperatura aceitável; nom poder fazer frente a um gasto imprevisto de até 650 euros; acumular dévedas por gastos na vivenda nos últimos doze meses; carecer de automóvel, telefono, televisor ou lavadora.

4 Beneficiarse del sufrimiento, https://www.oxfam.org/es/informes/beneficiarse-del-sufrimiento

Las desigualdades matan, Informe Oxfam 2022, https://www.oxfam.org/es/informes/las-desigualdades-matan

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