Um conselheiro plenipotenciário no Kremlin

Sergej Karaganov CC-BY-SA Chatham House

O afundimento da URSS foi a catástrofe geopolítica mais grande do século, um verdadeiro drama para o povo russo que deixou milhons de compatriotas fora do território nacional desde a queda da URSS em 1991, declarava Putin em 2005. Todos recordamos também as suas frias relaçons com Gorvachov manchadas pola sua conivência com Ocidente, o inimigo insidioso e permanente.

O hegemonismo expansionista latente e o desacordo permanente com as fronteiras com Ocidente cada vez mais próximas explodiu inesperadamente com a conquista por surpresa da península de Crimeia em 2014 e o início da guerra de Ucránia com que Rússia pretendia lavar a afrenta da revolta anti-russa do Euromaidan com a obrigada retirada do candidato pró-russo Viktor Yanukovytch. Umha ferida intolerável para a consciência pós-imperial da Rússia pós-soviética.

Todo autocrata necessita o seu astrólogo de cámara que lhe confirme o horóscopo que crê perceber em sonhos, Sergey Karaganov é um dos predilectos de Putin ao afirmar que Moscovo deve apresentar-se como defensora dos direitos humanos dos russos étnicos residentes nas suas fronteiras a fim de restaurar a sua influência política nesse limes

O intento da dar-lhe a volta a situaçom com a operaçom militar especial, com que Putin tentou mascarar a reconquista de Ucránia com num eufemismo pueril que tentava ocultar umha desafortunada blitzkrieg derivou numha dolorosa guerra de desgaste, só serviu para sublinhar o patente fracasso dum exército reputado como todo-poderoso. Ficam nas nossas retinas a interminável coluna de carros de combate com que tentava subjugar a naçom díscola empenhada em preservar a sua identidade nacional. Umha ferida intolerável num país carregado de história que vinha denominando a Pequena Rússia ao insolente apêndice com arrogáncias ocidentais.

Rússia é um problema irresolúvel no mapa geoestratégico europeu, umha recidiva ameaçante, falando em termos médicos. Rússia parece nom caber nas próprias fronteiras e a sua ansiedade acaba transcendendo até desencadear a alarma na pacífica Uniom Europeia. Um irresistível impulso a um lebensraum particular de quem nom parece caber nas próprias fronteiras apesar de contar com 17 milhons de quilómetros quadrados. Um império que parece seguir sangrando por uns Acordos de Postdam que se fôrom dissolvendo em benefício de Europa.

Rússia teima em esgrimir o seu desacordo com as próprias fronteiras e em reclamar as herdadas da URSS exibindo nesse empenho umha psicopatologia política de tamanho continental. O momento é-lhe propício, do outro lado do Oceano um personagem grosseiro, cobiçoso e histriónico oferece-lhe a imagem dual de outro desenhador de mapas-múndi gratos ao seu ego desaforado.

Nestes dias podíamos El Grand Continent1, excelente revista francesa criada em 2019 para debater em profundidade a problemática europeia, publicava um esclarecedor artigo sobre a crise na que Putin tem sumido Europa. Um arcaico lebensraun que creiamos enterrado com o nazismo. Tentar explicar a sede imperial de Putin2 é assunto mais próprio da psicopatologia do poder que da reivindicaçom política. Tentar entender este quadro aponta a um complexo messiánico de signo neo-imperial a contramao das convicçons imperantes numha Europa definitivamente curada de ilusórios moinhos de vento cartográficos.

O roteiro político implícito visa umha nova governança mundial capaz de assentar umha nova ordem em que Ocidente cede o seu domínio á grande Eurásia emergente; novo agente global que alude à Índia, a China, ao denominado Sul Global. Em tal perspectiva, a Uniom Europeia faria bem em recuperar o interesse pola América hispana, por África, por um Sul global reconquistado para a democracia

Todo autocrata necessita o seu astrólogo de cámara que lhe confirme o horóscopo que crê perceber em sonhos, Sergey Karaganov é um dos predilectos de Putin ao afirmar que Moscovo deve apresentar-se como defensora dos direitos humanos dos russos étnicos residentes nas suas fronteiras a fim de restaurar a sua influência política nesse limes. Sustém também que a liderança russa aconselha o uso da força para atingir os seus objectivos irrenunciáveis. Umha cruzada moral necessária, do seu ponto de vista, para erradicar os valores materialistas e hedonistas dos países capitalistas, hegemónicos antinacionais e depredadores. Irredentismo moralista armado, geoestratégia expansiva, metafísica da Rússia eterna difamada e incompreendida.

Referente à democracia, há umha tese que explica muitas cousas afirma Karaganov: No plano político, Rússia nom quer construir umha democracia no sentido ocidental senom umha meritocracia de líderes em que o poder recaia nos melhores. Somos um Estado onde reina a democracia de líderes. Surpreendente oximoro este da democracia devinda oligarquia, o demos substituído polos selectos que devem exercer naturalmente o poder.

Para dissolver qualquer escrúpulo, recalca, nom devemos envergonhar-nos de proclamar a verdade, o nosso respeito e adesom nom concerne unicamente a Rússia e a nos mesmos, deve ser estendida à maioria mundial de persoas normais. Proclamaçom flagrante de umha penosa realidade: a Ilustraçom nunca conseguiu impregnar a Santa Rússia, a cidadania seria um simples constructo mental alheio e perigoso.

Em resumo, Rússia proclama com orgulho o seu direito a umha lebensraum particular com umha ideologia justificativa que lhe dá direito a denunciar as odiosas camarilhas cosmopolitas pró-ocidentais que degradam o ser humano mentres praticam o espólio sem freio. Rússia deve proclamar no entanto umha ideologia própria centrada nas unidades básicas: famílias, empresas, indivíduos e líderes naturais em que se podam reconhecer os patriotas. Santiago Abascal nom o poderia explicar melhor.

O mundo vai mudar de base, canta a Internacional; o milenarismo é a raiz permanente do horizonte utópico marxista que segue inspirando como o cromo dum álbum arrombado o ideário pós-soviético com os seus correspondente santos protectores

O roteiro político implícito visa umha nova governança mundial capaz de assentar umha nova ordem em que Ocidente cede o seu domínio á grande Eurásia emergente; novo agente global que alude à Índia, a China, ao denominado Sul Global. Em tal perspectiva, a Uniom Europeia faria bem em recuperar o interesse pola América hispana, por África, por um Sul global reconquistado para a democracia. De repente parece materializar-se a URSS triunfante da Segunda Guerra Mundial arrastando a toda a coorte do Bloco do Leste.

Voltemos à raiz do relato putiniano; o afundimento da URSS como catástrofe geopolítica superlativa do século, origem de um rancor insaciável contra a hidra ocidental usurpadora e a China espreguiçando-se finalmente do seu letargo milenário e deitando milhares de trabalhadores e consumidores, ávidos de conquistar o mercado mundial.

O mundo vai mudar de base, canta a Internacional; o milenarismo é a raiz permanente do horizonte utópico marxista que segue inspirando como o cromo dum álbum arrombado o ideário pós-soviético com os seus correspondente santos protectores. Como o patriarca Kirill, pastor dos cristaos ortodoxos russos desde 2009 que qualificou o retorno à presidência de Putin como milagre de Deus, ou como o venerado padre Tikhon Shevkunov, poderoso conselheiro espiritual do presidente russo, ou como Alexandr Dugin, polifacético visionário dum euro-asianismo expansivo e utópico. A Santa Rússia nom pára de engendrar inquietantes fantasmas retro projectivos como prova viva da sua irremediável insatisfaçom com o estado do mundo, excluída a admiraçom por Donald Trump outro insatisfeito disposto a inaugurar um novo mundo á altura dos seu delírios. O tempora, o mores! Da sonhada paz perpétua kantiana ao reino da arbitrariedade plutocrática emitida em directo. Teslas, Mar-a-Lago, palavras totémicas da nova enciclopédia geral coroada por uma gorra de beisebol vermelha como prezado troféu.

 

Notas

1 https://legrandcontinent.eu/es/about/

2 https://legrandcontinent.eu/es/2025/03/18/un-lebensraum-para-la-rusia-de-putin-la-union-geopolitica-de-la-gran-eurasia-segun-karaganov/

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