…tão modesta quanto eu / meu deus como é bom morar…

Ao chegar ao Rossio, o primeiro que chamava a atenção – além da própria multidão – era um par de bandeiras portuguesas a ondear nas mãos de manifestantes CC-BY-NC-SA Praza.gal

"A crise do acesso à habitação é neste momento a maior fratura social que existe no nosso país, sobretudo nos grandes centros urbanos. Durante décadas o Estado não atendeu como devia"

Ao chegar ao Rossio, o primeiro que chamava a atenção – além da própria multidão – era um par de bandeiras portuguesas a ondear nas mãos de manifestantes. Num momento em que os símbolos nacionais estão a ser objeto de um paulatino processo de apropriação por parte da extrema direita, como já tem acontecido em tantos outros lugares, foi uma surpresa interessante. Mais à frente, uma discretíssima presença de símbolos dos grupos da esquerda mais ligada ao ativismo social (Bloco de Esquerda, Livre) não consegue ocultar que este não é um movimento partidário nem partidarizado. Mães com bebés ao colo, pais a empurrar carrinhos, mães a acompanhar as filhas já quase nos trinta (se calhar a viverem ainda juntas), casais de todas as idades e pequenos grupos de amigos conformavam os anéis exteriores, frequentemente explicando aos turistas curiosos – quase sempre em inglês, às vezes em italiano ou espanhol – os porquês do que ali se passava. Mais ao centro, a turma mais jovem, a que tem acampado durante dias, dividia-se entre os que levavam a voz nas palavras de ordem e quem aguardava sentado pelo cair da noite e o começo da assembleia, que iria deliberar se se reinstaurava a acampada – afinal desistiram, alegadamente por motivos de segurança, ainda que isso tenha servido também a um outro propósito: desativar o debate sobre a violência e voltar a colocar no centro o tema da vivenda, que é o que dá ao movimento unidade interna e apoio externo massivo.

O Governo não poderia ter imaginado um cenário mais endemoninhado: uma reivindicação transversal, partilhada por todas as faixas de idades e capaz de aglutinar camadas social e ideologicamente diversas CC-BY-NC-SA Praza.gal

Muitas câmaras, microfones, movimentação, entrevistas a porta-vozes do movimento e a populares. E lá vamos também nós. Manuel (60 anos), proprietário de um imóvel confortável, está aqui porque pensa que “devemos apoiar os jovens no que eles estão a revindicar, eles têm todo o direito de reivindicar: a democracia não é só pôr um boletim de quatro em quatro anos, há também outras formas de expressar a cidadania e o protesto”. E resume o problema: “a crise do acesso à habitação é neste momento a maior fratura social que existe no nosso país, sobretudo nos grandes centros urbanos”; afirma que se trata de uma situação que “durante décadas o Estado não atendeu como devia, não se criou uma política social de habitação e portanto agora está cá a expressão disso tudo: as pessoas estão cansadas e vão para a rua e muito bem, temos todos de os apoiar”.

O Governo não poderia ter imaginado um cenário mais endemoninhado: uma reivindicação transversal, partilhada por todas as faixas de idades e capaz de aglutinar camadas social e ideologicamente diversas, face à qual não tem respostas

O dedo na ferida. O Governo não poderia ter imaginado um cenário mais endemoninhado: uma reivindicação transversal, partilhada por todas as faixas de idades e capaz de aglutinar camadas social e ideologicamente diversas, face à qual não tem respostas. Segundo uma recente reportagem do semanário Expresso, fariam falta no mínimo 10 anos de políticas decididas e investimentos maciços para dar solução ao problema do desfasamento entre o nível dos salários e os valores do mercado imobiliário tanto de arrendamento quanto de compra. Em vez de acenar com encetar esse processo, o Executivo planeja reformular o mercado de arrendamentos em benefício exclusivamente dos proprietários (aumento da caução, fim do limite ao incremento das rendas, facilidades para o despejo…), aprofundando ainda mais na fratura social e tomando partido contra a imensa maioria, ao mesmo tempo em que aposta todas as fichas num mais do que incerto aumento significativo da construção de obra privada.

Também não ajuda ao Governo que, durante as últimas duas semanas, o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, tenha ficado em silêncio, enquanto na imprensa se publicava que entre o seu património particular conta com 55 imóveis. Acrescente-se a isso que o discurso do cumprimento da lei está a ser proferido por um Ministro da Administração Interna, Luís Neves, que leva meses sob suspeita e a ser investigado por alegadas ilegalidades cometidas quando comandava a PSP; e que o próprio Luís Montenegro alastra uma série de processos judiciais cujo desfecho dista de estar claro, até pela ausência da maior parte das explicações que lhe foram pedidas, mas que não foram prestadas.

Embora as manifestações estejam a ser transversais em termos de idade, e também de classe social, o protagonismo das acampadas tem recaído nas pessoas mais jovens CC-BY-NC-SA Praza.gal

Em meio à desídia do Governo e à desorientação tanto da extrema direita quanto do Partido Socialista, que durante os seus mandatos deixou o problema eclodir e crescer, o facto é que o debate não está a acontecer na esfera política, mas na sociedade e nos média, sem uma articulação institucional. E é que as pessoas esperam respostas, e querem-nas já. Pessoas como Beatriz (30 anos), que acaba de comprar casa “com muito esforço”, diz que se manifesta “pelo direito à habitação de toda a gente, não só dos jovens, porque é uma coisa transversal ao país” e confessa: “não tenho esperança no Governo”. Amanda, brasileira, também de 30 anos, nem tem casa nem esperança de vir a tê-la: “para mim enquanto imigrante, para todos os meus amigos portugueses, para o meu namorado que é português, nós não temos qualquer perspetiva realista de comprar uma casa, de ter uma casa própria no longo prazo; as rendas estão muito caras e é incompatível o valor que se pratica para as rendas das casas com o valor que se recebe [pelo trabalho]”.

Um único dado para entender a magnitude do problema: nos últimos dez anos, os salários aumentaram 48%, enquanto o valor das casas subiu 182%, e portanto mesmo aqueles jovens com um bom salário de entrada não conseguem arrendar uma casa sozinhos, tendo de resignar-se a alugar um quarto ou a dividir apartamento com estranhos. Enquanto isso, o Governo bonifica as ‘rendas acessíveis’ de até 2.300€/mês, no caso de Lisboa, uma cidade em que o salário médio é de pouco mais de 1.800€ mensais. Redirigir os esforços para as pessoas que mais precisam dessas ajudas é outra das reivindicações das mobilizações.

Um (primeiro) apontamento sobre a Geração Z

Embora as manifestações estejam a ser transversais em termos de idade, e também de classe social, o protagonismo das acampadas tem recaído nas pessoas mais jovens

Embora as manifestações estejam a ser transversais em termos de idade, e também de classe social, o protagonismo das acampadas tem recaído nas pessoas mais jovens, que pelo que pudemos constatar são também as que defendem um discurso mais radical. Um exemplo é Mateus (18 anos), que permaneceu no acampamento desde o começo até à sua dissolução pela PSP: afirma que “o nosso Governo está a aplicar leis que só facilitam a vida dos mais ricos” e que “como no Governo existem pessoas com 100 casas, isso (...) é algo que me indigna e acho que indigna todos os que estão aqui”. Estende-se na crítica à repressão policial: “o nível de violência, a própria maneira como a operação foi montada: um cerco, um cordão de polícias de intervenção, polícias com armaduras, mais os cães... é tentar assustar as pessoas”, na sua opinião devido a que “quem nos governa quer que as manifestações sejam identificadas com grupos radicais, aquela esquerdalha que eles dizem; não é esquerdalha, não são essas pessoas que estão aqui na manifestação: estão aqui todos, há todas as etnias, todos os estratos sociais, há todas as profissões possíveis, todas as idades…”

Enquanto os debates continuam no Parlamento, no exterior da Assembleia da República uma multidão manifesta-se, agita as chaves, conversa, canta e pede a demissão do Governo manifestacións portugal outubro 2026 CC-BY-NC-SA Praza.gal

Trata-se do primeiro momento de politização de pessoas como Gaspar (19 anos), que articula um discurso contundente: diz que “a democracia é o que nós estamos a fazer” e que “este ataque policial é antidemocrático”, pois “estamos a tentar transmitir uma mensagem aos nossos políticos e estamos a ser impedidos e agredidos por fazê-lo, ou seja isto já não é uma democracia”. E conclui: “claramente o bem comum não está na mente dos políticos que governam o nosso país”.

Porém, no grupo de Mateus e Gaspar não falta esperança: “os governantes permanecem calados ou a criticar o movimento, mas eu acho que essa postura não vai durar muito tempo” é o penúltimo que ouvimos. O último foi “um abraço aos irmãos galegos”.

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